OPINIÃO

Raimundo “Mentira”

Meus “amigos” do futebol, alguns até nunca chutaram uma bola, mas, depois de velhos, cismaram de espalhar aos quatro ventos suas qualidades e “passagens” até por grandes clubes de Natal. Um deles, folclórico, chamado de Raimundo “Mentira”. Imaginem os motivos. Na lanchonete Chapinha, Cidade Alta, parada Metropolitana, ponto de encontro. O conheci lá e, nem lembro mais o motivo, o batizamos de “Meu Ponta”, ele assim me tratava também.

Ele tinha uma carteira de atleta de Alecrim, afirmando ter sido reserva de Zezé no time campeão invicto de 1968, além de, naquele ano, muito novo, 17 anos, já ter ganho também o título de Aspirantes. Contava ele. Ninguém acreditava, alguns fingiam e vida que segue. Chapinha acabou, a lanchonete, claro, a sorveteria está lá firme e forte. Já não encontro mais quase ninguém daquela época boa de tantos amigos, jogos de finais de semana, muitas vezes viajando em carrocerias de caminhões.

Essa semana, andando pela Gonçalves Lêdo, um pouquinho antes do Bardallos, bar e restaurante frequentado por artistas na Cidade Alta, encontrei Raimundo. Velhinho, magrinho, cabelo branco, a boca completamente sem dentes, com suas pernas tortas, agora ainda mais arqueadas, quase não o reconheci, mas ele sim. “Meu Ponta”, gritou. Parei, voltei, aí, sim, lembrei dele. Voltei, apertei sua mão com prazer e fui logo me lembrando das histórias que ele contava. Deu vontade de rir.

Conversei um minutinho, perguntei por amigos comuns, Canela, Arlindo, Gilson, Raimundo Mocó, meu compadre, que a gente também chamava de “Meu Ponta”, Silvano (alecrinense), Doca, entre tantos outros dos bons tempos. E fui saindo, me despedindo, mas aí, lá de dentro da casa de jogo, era onde ele estava, veio saindo um camarada. Ele, ligeiro, me puxou pelo braço e pediu para eu ficar mais um pouco. “Peraí meu ponta, peraí”! E foi chamando pelo nome do cara.
“Venha cá, venha cá”, gritou ele para o colega da jogatina. Me apresentou, mas o rapaz já me conhecia da tevê e do rádio, e ele exultou. “Muito bem, muito bem, quero ver agora. Vocês vivem dizendo que eu sou mentiroso, a prova tá aqui”, falava apontado para mim. Me lasquei, pensei, mas fiquei firme. “Diga a ele aí meu ponta, diga a ele! Joguei ou não joguei no Alecrim?”, assim, de supetão, me colocou em xeque. Fazer o quê? Confirmei. Balancei a cabeça que sim. “No ano de 68, fui ou não fui campeão invicto?”, inquiriu de novo. Sim, respondi.

Aí lascou!  Raimundo “Mentira” se empolgou, chamou mais uns três que estavam  no local e disparou a mentir com a gota serena. Todo mundo parado ouvindo, olhando para ele, mentindo descaradamente, e eu confirmando desalentadamente, o que eu podia fazer? Passaram-se eternos, torturantes quinze minutos. O infeliz chegou a dizer, vejam só, que entrou numa partida contra o ABC, e na primeira bola que pegou, fintou Otávio, lateral do alvinegro, e cruzou na cabeça de Icário, goooool, narrava alto, chamando a atenção. Depois: “Foi não, meu ponta?” Eu, filadaputamente balançando a cabeça de forma afirmativa.

Disse umas três vezes que já ia, mas ele segurava meu braço e contava outra mentira. Pensem num desgraçado para ter criatividade em inventar histórias!  Nessa altura, dizia ele, “Zezé, o ponta titular, já estava puto com comigo, pois ia perder a posição, e mandava o marcador me quebrar”. Foi assim a última. “Um lateral mandado por Zezé deu uma chegada no  meu joelho e me tirou de ação por vinte dias, joelho inchado…fora de combate”, emendou. “Icário chegou pra mim e disse assim: Raimundo, puxa vida, queria demais que você jogasse, a gente estava se entendendo muito bem, porra, sacanagem do Zezé”, desgraçado para contar lorota, pelo jeito ia passar o resto do dia.

Disse ainda que Bastos Santana, dono do supermercado São Cristóvão, patrono

do Alecrim, coincidentemente o mesmo dirigente que me levou para o time verde, mandou buscar um médico especialista da Seleção Brasileira, que estava morando em Recife, para cuidar exclusivamente dele e tentar deixá-lo bom para jogar a final de 68. Um dos caras perguntou o nome do médico, ele desconversou: “vou lá lembrar de nome de médico, isso já faz 50 anos…”

Depois dessa, imaginando que a coisa não teria mais fim, bati nas costas dele e fui saindo, ele querendo que eu ficasse. Ainda escutei o mentiroso dizer em alto e bom som: “quero ver qual o filadaputa que vai dizer que eu não joguei no Alecrim, que sou mentiroso…”

E eu, vou me lembrar de nunca mais passar naquela casa de jogo.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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