TRANSPARÊNCIA

Receita para juntar R$ 51 milhões: nascer antes de Cristo

Levando em conta a renda média de R$ 1.591 por pessoa no Rio Grande do Norte, seriam necessários 2.671 anos de trabalho honesto para juntar R$ 51 milhões, valor encontrado, em espécie, num apartamento em Salvador (BA) ligado a Geddel Vieira (PMDB), ex-ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer. A Polícia Federal descobriu o dinheiro terça-feira (5) armazenado em nove malas e sete caixas de papelão em meio às investigações da operação Tesouro Escondido e só conseguiu terminar a contagem após a meia-noite.

Para usufruir dessa verba hoje, o cidadão ou a cidadã potiguar da faixa salarial citada precisava ter nascido antes de Cristo e acumulado o dinheiro sem gastar nenhum centavo. Com o mesmo valor, era possível pagar um mês de salário a 32.055 trabalhadores no Rio Grande do Norte.

Ainda a título de comparação, é como se 90% do dinheiro destinado ao pagamento do bolsa família a 324 mil pessoas no Estado estivesse amontoado nas malas e caixas do apartamento ligado a Geddel Vieira. Em julho passado, o Governo Federal repassou R$ 57,7 milhões para o programa no RN.

O bunker também concentrava mais do que a verba utilizada pelo Governo Federal para antecipar a terceira etapa do FGTS a 54.191 potiguares, grupo que recebeu em junho, julho e agosto o montante de R$ 47,9 milhões. Somando toda a antecipação do benefício no Estado, é como se aquela dinheirama representasse 1/3 de todo o pagamento.

A soma das cédulas encontradas pela PF equivalem a 2/3 de toda a exportação do Estado em agosto de 2017, avaliada em R$ 75 milhões, e correspondem ao dobro dos investimentos mensais na indústria pelo Governo, que em 2016 chegou a R$ 17,8 milhões com o Programa de Apoio à Indústria no RN. O Executivo também conseguiria pagar quase 5 prestações de manutenção da Arena das Dunas, já que todos os meses desembolsa R$ 10,3 milhões.

Outra medida da importância da verba está na saúde. Se o dinheiro encontrado no bunker atribuído a Geddel Vieira fosse investido em Saúde Pública em Natal, mais 15 Unidades de Pronto Atendimento, como a inaugurada esta semana no bairro Cidade Satélite ao custo de R$ 3,3 milhões, poderiam ser construídas. Juntas, as novas UPAs teriam capacidade de ampliar o atendimento para mais 7.500 pessoas por dia disponibilizando 285 leitos a mais.

Uma comparação ainda mais sugestiva no caso é com o setor prisional. Os recursos encontrados no bunker atribuído a um dos homens fortes de Michel Temer seriam suficientes para construir mais duas cadeias públicas, como a que o Governo do Estado está erguendo no município de Ceará-mirim ao valor de R$ 20 milhões, cada. As duas novas unidades teriam capacidade para acolher mais 1.200 presos, desafogando assim a principal penitenciária do Estado.

Para o professor do curso de Economia da UFRN e presidente da ADURN Sindicato Wellington Duarte, a relação entre determinados agentes públicos e o poder revela modelos de ação inaceitáveis numa democracia.

O dinheiro que foi encontrado mostra o quanto esses agentes públicos, muitos deles eleitos pelo voto da sociedade, se apropriam da esfera pública e a transformam numa espécie de “fundo” para aliciamento de pessoas e entidades visando a permanência nas esferas de poder. Mostra como a privatização do espaço público nesse país, que não é de hoje, tem relação com as dificuldades com que o setor público se depara para prover seus serviços.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"