DEMOCRACIA

Recomeço: a vida dos venezuelanos há seis meses no RN

Por Bruna Justa e Ícaro Carvalho, especial para a agência Saiba Mais

Seis meses após desembarcarem no Rio Grande do Norte, mais especificamente em Caicó, Seridó Potiguar, distante 282 quilômetros de Natal, venezuelanos que estão no Estado para tentar uma nova vida em virtude da crise no país natal encontram dificuldades para conseguir emprego, lutam contra a saudade dos familiares e acima de tudo, buscam por um recomeço em solo norte-rio-grandense, o único abrigo para refugiados no Nordeste. Instalados nas Aldeias Infantis SOS desde outubro do ano passado, quando o primeiro grupo chegou ao RN, algumas famílias já foram embora em busca de outras oportunidades, enquanto outras persistem e insistem em tentar fazer a vida no solo potiguar.

É o caso da família de Luiz Alberto, de 27 anos, que veio ao Brasil com a esposa Rosângela e a filha, Nathalia, de um ano e meio. Em Caicó há seis meses, Luiz conta que está com dificuldades em encontrar um trabalho fixo na cidade seridoense.

“É bom. Não tem problema, só não tem emprego, mas de resto está tudo beleza. Eu arrumo diária, semana de trabalho, mas assim, para durar tempo, não”, explica, contando ainda que trabalhou como eletricista e garçom na Venezuela e que já fez um curso de pintor em Caicó.

Nesse semestre, ele revela que chegou a fazer trabalhos temporários como servente de pedreiro e conseguiu outros bicos durante o carnaval da cidade, um dos mais famosos do Estado. Apesar das dificuldades, a família não tira o sorriso do rosto e mostra com entusiasmo e gratidão o alojamento nas Aldeias onde estão instalados. A ideia é trazer o filho de 11 anos para o Brasil, que ficou com a avó no antigo país, para dar seguimento a vida na nova realidade.

Luiz Alberto veio com a esposa e filha para o Brasil

“Usted no se va, porque quiero hablar con usted”, brada na janela a policial venezuelana Alessandra Delgado, de 31 anos.

Também do primeiro grupo de refugiados que chegou a Caicó, Alessandra veio com o esposo e dois filhos. A realidade dela é semelhante a de Luiz Alberto e Rosângela: a falta de emprego. Há seis meses na cidade, ela conta que resolveu deixar a Venezuela quando notou que os filhos não estavam tendo as três refeições básicas, além de não conseguirem ir à escola. Mesmo grata pela recepção dos caicoenses, ela comenta que não quer ficar na cidade seridoense pela falta de oportunidades.

“Eu tenho seis meses aqui e não trabalhei. É muito difícil porque é uma cidade pequena. As pessoas têm bom coração, mas não há trabalho, não há fonte para os venezuelanos. Eu tenho a esperança de trabalhar para ajudar meus familiares lá na Venezuela. Eu coloquei 20 currículos e não ligaram para mim. Meu esposo também. Se trabalhou, em uma semana pagou 70 reais. Nós éramos policiais, mas queremos fazer qualquer trabalho. Estamos aqui para trabalhar”, comenta, acrescentando ainda que pretende ir embora para São Paulo com o recurso que recebe do Governo Federal após sair da aldeia, quantia esta calculada de acordo com o tamanho das famílias.

Coordenador do Aldeias, Juclebeson Araújo explica o tipo de auxílio que os venezuelanos recebem quando chegam ao Brasil:

“O programa não faz nenhuma objeção, assim como eles vêm de livre e espontânea vontade. Quando eles querem sair, a gente solicita do programa de interiorização uma ajuda, então eles mandam um valor por família, é um valor de ajuda. Para quem vai fixar residência, ajuda a comprar algum móvel, compras no supermercado. Nesses casos a ajuda pode ser utilizada para as passagens”, diz.

Alessandra Delgado era policial na venezuela e enfrenta o desemprego em Caicó

Entrevistados pela agência Saiba Mais em outubro do ano passado (leia aqui), a família de Jesus Rafael e sua esposa Suleima, além dos três filhos Dastan, Adonis e Prometheus, é uma das que conseguiram se instalar e estão perto de conseguir a sonhada emancipação na cidade caicoense. Na visita da reportagem, feita no último final de semana do mês de março, o cenário vivido pelos venezuelanos naturais de Táchira era completamente diferente ao de seis meses atrás. Isso porque Jesus encontrou emprego de assistente de serviços gerais, com carteira assinada, na Diocese de Caicó, e conseguiu viabilizar recursos para deixar as Aldeias.

Pedagoga na Venezuela, Suleima conta que a recepção dos seridoenses foi “muito boa”.

“Os primeiros meses foram um pouco difíceis porque não tinha emprego, que está pouco. E na verdade foi um pouco difícil, mas meu esposo começou a trabalhar em janeiro. Estamos agora procurando uma casa para alugar”, conta apressada à reportagem, uma vez que estava indo buscar os filhos na escola.

Confira o vídeo produzido pelos repórteres Bruna Justa e Ícaro Carvalho com venezuelanos em Caicó:

Ong de Caicó abriga 60 venezuelanos em cinco casas

Nas Aldeias Infantis SOS, organização não governamental sem fins lucrativos que atua há 40 anos em Caicó, estão abrigados atualmente cerca de 60 venezuelanos, distribuídos em cinco casas. Desde outubro do ano passado, quatro grupos já chegaram ao Estado. Enquanto algumas famílias conseguiram se instalar e se emancipar em Caicó ou até mesmo em Natal, a maioria preferiu deixar a cidade em busca dos grandes centros brasileiros, como Santa Catarina, São Paulo, entre outros estados. A organização se mantém basicamente de doações de empresas e pessoas físicas, além de receber recursos da ONU por meio do Governo Federal, que banca os suprimentos básicos para a estadia dos venezuelanos em Caicó.

Uma vez em Caicó, os venezuelanos têm uma rotina e objetivos específicos: se instalar e se adequar aos costumes, além de se capacitar para novas atividades e eventuais trabalhos. Divididos em cinco casas, os cerca de 60 venezuelanos no RN possuem um quarto por família, bem como cuidam de sua própria alimentação e da rotina diária. Enquanto os pais cuidam da casa e buscam por oportunidades, os filhos vão à escola.

Uma vez empregados, a ideia é que os refugiados fiquem nas casas o tempo suficiente para que possam juntar dinheiro e recursos para montar suas próprias casas, seja em Caicó ou em outra localidade.

De acordo com Juclebeson Araújo, os venezuelanos têm autonomia para procurar emprego, além do fato da ONG atentar para quando uma oportunidade aparece, como serviços temporários (servente de pedreiro, pintura, por exemplo). Aliado a isso, duas parcerias estão sendo tocadas junto ao Sebrae: um projeto de hortas orgânicas e outro de gastronomia, com expectativa para montar uma barraca de alimentos venezuelanos na festa de Santana, no meio do ano, gerando renda para os refugiados.

Crise na Venezuela

A crise política e humanitária na Venezuela vai ganhando novos contornos a cada dia em diversos aspectos. Num cenário de indefinição sobre quem comanda o país, Nicolas Maduro, à frente da Venezuela desde a morte de Hugo Chávez, em 2013, e o deputado autoproclamado presidente Juan Guaidó, chefe da Assembleia Nacional venezuelana, travam uma disputa pelo poder.

A situação se intensificou em meados de fevereiro com o fechamento de fronteiras para recebimento de ajuda humanitária de países vizinhos. O regime de Maduro argumenta que os caminhões com alimentos e remédios são uma justificativa para uma invasão militar ao país patrocinada pelos Estados Unidos para tirar o chavismo do poder.

Com uma economia concentrada majoritariamente do petróleo, o país carece de produções locais e tem dificuldades com as quedas dos preços dos barris no mercado internacional, ficando sem dinheiro para exportar produtos de necessidade básica.

 

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