CIDADANIA

Redução no tempo curricular põe em risco melhor IF do Brasil

A reitoria do Instituto Federal no Rio Grande do Norte anunciou a intenção de reduzir de quatro para três anos a duração dos cursos de ensino médio integrado à educação profissional técnica oferecidos pela instituição já a partir de 2020.

Se a medida for de fato implementada, professores da rede afirmam que o novo modelo adotado vai colocar em risco a qualidade do ensino e até o acesso de estudantes de baixa renda ao Instituto num momento em que o IFRN é apontado por pesquisadores internacionais como a melhor instituição técnica federal do país.

Dos 35.558 estudantes espalhados pelos 21 campis do IFRN, 11.894 estão matriculados nos cursos de ensino integrado, o equivalente a 33% do corpo discente.

O modelo de curso integrado une educação básica e o ensino técnico profissionalizante. Os estudantes cumprem a carga horária de até 13 disciplinas em um único turno de seis horas/aulas. Se a mudança ocorrer como defende a reitoria, os professores preveem o curso em dois turnos, o que inviabilizaria a excelência reconhecida do ensino e o acesso de alunos que estudam num período e trabalham no outro, por exemplo.

De acordo com dados do próprio IFRN, 22% dos estudantes da rede trabalham para ajudar a família, não necessariamente com carteira assinada. A preocupação dos professores que criticam o modelo do  curso em três anos é de que, caso a proposta seja implementada, o Instituto deve perder os alunos trabalhadores, o que não deixa de ser uma contradição, uma vez que os filhos da classe trabalhadora são o alvo principal dos IFs.

A proposta afetaria, sobretudo, os cursos da área tecnológica, a exemplo de Mecatrônica, cuja grade deixaria de oferecer formação geral e até a prática profissional.

Os aspectos positivos e negativos da alteração curricular vêm sendo discutidos em comissões formadas por membros da atual gestão, professores e estudantes, mas as declarações recentes na imprensa do pro-reitor de Ensino do IFRN Agamenon Tavares – de que a mudança vai acontecer – foram recebidas muito mal pela comunidade dos 21 campi.

Professores não aceitam redução no Orçamento como justificativa

Professora e diretora do Sinasefe Aparecida Fernandes cobra da reitoria projeção de cortes para outras áreas, além da formação

A justificativa da reitoria é a dotação orçamentária, congelada desde 2014. A reitoria prevê uma queda de R$ 5 milhões por ano no orçamento do IFRN.

No entanto, os críticos da mudança se queixam de que a reitoria quer sacrificar apenas a formação básica e não apresentou nenhum estudo projetando cenários de cortes em outras áreas:

– A justificativa orçamentária não se sustenta, os cortes devem chegar a R$ 200 mil por campus e pelo discursos parecia que o rombo seria de R$ 1 milhão. Em paralelo não foi apresentado nenhuma projeção para cortes em outras áreas, a reitoria só quer sacrificar da formação, da formação básica. Porque não há um cenário para se cortar diárias, aulas de campo ou até terceirizados ? Por quê diminuir a formação básica ? Estamos preocupados com a formação, que é onde está concentrada essa redução. Essa posição da reitoria é, no mínimo, estranha”, criticou a professora e diretora do Sinasefe Aparecida Fernandes.

Os professores do IFRN defendem que o reconhecimento nacional alcançado pela instituição potiguar nos últimos anos se deve muito ao modelo de formação integrada que, segundo eles, contempla a formação educacional voltada para vida:

– Faz 30 anos que o IFRN ocupa as primeiras colocações no ranking das melhores escolas técnicas e depois da expansão, se você vir os resultados, vai ver que é sempre um dos primeiros, o melhor do Nordeste, e agora recentemente foi eleito o melhor do Brasil. Temos uma história com esse tipo de currículo, outros institutos nos procuram. A decisão de realizar o curso em quatro anos é uma decisão política bastante estuda e experimentada porque contempla uma educação básica que prepara para a vida, com formação humanística, que inclui no currículo artes, filosofia, sociologia, história”, explica a professora Nadja Costa.

Os professores usam os números oficiais do próprio IFRN para destacar a importância do modelo de ensino integrado. A evasão escolar, por exemplo, é menor entre os estudantes desses cursos.

“Enquanto a média geral é de 15,74% (desconsiderando os cursos FIC), a evasão dos cursos de ensino integrado chega a apenas 7,8%. Os concluintes dos cursos também apresentam altos índices de prosseguimento de estudos em nível superior e de ingresso no mundo do trabalho”, cita o professor Dante Moura.

 Há quatro anos, a reitoria chegou a consultar a comunidade do IFRN sobre a redução no tempo do currículo da formação básica, mas a proposta foi rechaçada pela ampla maioria dos professores, estudantes e servidores. O programa de gestão do atual reitor Wyllys Abel Tabosa prometia retomar a discussão.

Sindicato defende debate e acusa reitoria de não respeitar o diálogo

Sinasefe cobra da reitoria respeito ao diálogo com a comunidade do IFRN

O Sindicato dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe) já vem mobilizando professores e promete endurecer o diálogo caso a reitoria insista em atropelar o debate com a comunidade. Uma nota dirigida à comunidade do IFRN foi divulgada na semana passada acusando a reitoria de não respeitar o processo interno de diálogo na instituição, já que o tema vem sendo debatido em comissões.

– O SINASEFE NATAL lamenta profundamente que, mais uma vez, travestida de uma pseudodemocracia, a gestão do IFRN não respeite o processo interno de diálogo dos que fazem a Instituição e, especialmente, não aja para que tracemos um caminho que não seja o de impactar o nosso projeto político pedagógico e a oferta para nossos alunos. Acreditamos que nossa comunidade acadêmica anseia para que façamos um grande movimento de defesa do nosso modelo de Ensino Médio, que tem objetivamente se mostrado exitoso em todas as avaliações. Esperamos, por fim, que os ouvidos do Pró-Reitor de Ensino sejam menos moucos e abram-se para ouvir e assimilar o recado que a comunidade escolar já deu recentemente, quando respondeu, negativamente, em mais de 80%, à enquete que propunha a redução do Ensino Médio no IFRN para 3 anos. Façamos, pois, verdadeiramente o debate.

O Sinasefe Natal, através do Grupo de Trabalho de Educação da Seção, vai promover na próxima quarta-feira (27), o “Seminário de Formação: reflexões sobre a revisão do Currículo Técnico Integrado ao Ensino Médio do IFRN”. A atividade será coordenada pelo GT de Educação e o professor Dante Moura é o convidado para o debate.

O Seminário é uma iniciativa do grupo para ampliar as discussões sobre a oferta do Currículo Técnico Integrado ao Ensino Médio do IFRN em seus princípios político, pedagógico e filosófico”, diz o convite para o evento.

Modelo de ensino integrado é fruto de amplo debate iniciado nos anos 1990, na antiga ETFERN

Professor Dante Moura destaca que o modelo de quatro anos para o ensino integrado é fruto de intenso debate no IFRN

O professor Dante Moura é um dos profissionais mais antigos do IFRN e atravessou as principais mudanças na rede. Ele lembra que o modelo de ensino integrado em quatro anos foi idealizado ainda nos anos 1990 após intenso debate pela comunidade da antiga Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFERN).

– Nesse ano, foi elaborado de forma coletiva na Instituição (ETFRN em transição para CEFET-RN) uma nova proposta pedagógica, ainda sob a vigência da anterior LDB (Lei nº 4.024/1961) e da Lei nº 5.692/1971. Dessa forma a denominação ao invés de ensino médio era 2º grau profissionalizante. Essa proposta curricular entrou em funcionamento em 1995. Portanto, há 24 anos. Tais reflexões permitiram concluir que para avançar nessa direção era fundamental, entre ouros aspectos, ampliar a carga horária dos cursos para contemplar uma formação plena que integrasse os conhecimentos das ciências, das letras e das artes e os conhecimentos específicos de cada uma das áreas técnicas. A concepção de formação humana inerente a esta proposta curricular é de que a formação humana na educação básica não pode ser preparatória apenas para o exercício profissional ou para o prosseguimentos de estudos. A concepção é de que incorpore essas duas dimensões, mas que vá além delas. Ou seja, que a formação possa, juntamente com isso, proporcionar os conhecimentos necessários para que o sujeito possa compreender-se no mundo, compreender as forças em disputa na sociedade e, a partir daí, poder posicionar-se de forma crítica, autônoma e emancipada nessa sociedade”, explica.

 À época, se chegou à conclusão que esse tipo de formação não caberia em três anos. Portanto, foi um caminho trilhado com fundamento teórico e político. Segundo o professor, uma opção institucional por uma concepção de formação humana.

Um decreto editado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no entanto, proibiu a opção do curso integrado nos moldes que vinha sendo implementado no país a partir da experiência potiguar. Era preciso separar, novamente, o ensino básico do ensino técnico. Somente em 2004, durante o governo do ex-presidente Lula e após intenso debate, o modelo voltou a ser implementado num momento em que a expansão dos Institutos Federais explodiu no país.

– A rede federal teve momentos piores, na época do governo Fernando Henrique Cardoso faltava luz e o argumento era o orçamento. Havia um projeto de estadualizar a rede. Se não tivesse havido um movimento muito forte dos servidores não teríamos conseguido manter os Institutos Federais. E o governo Lula provou que era possível, que havia dinheiro, tanto que houve a expansão vertiginosa da rede”, lembra a professora e sindicalista Aparecida Fernandes.

IFRN foi eleito o melhor Instituto Federal do Brasil

O Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) ficou em primeiro lugar entre os Institutos do Brasil, conforme o Web Ranking of Universities, e em segundo no que diz respeito às instituições de ensino do Estado. O “Webometrics Ranking of World Universities” é uma iniciativa do Laboratório Cybermetrics, um grupo de pesquisa pertencente ao Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), maior corpo de pesquisadores da Espanha.

O anúncio foi feito em 31 de janeiro de 2019 e comemorado pela reitoria e a comunidade do Instituto.

O sistema classifica universidades em todo o mundo, com base em um indicador composto que leva em conta tanto o volume do conteúdo da instituição na web (número de páginas e arquivos), quanto à visibilidade e o impacto destas publicações online, de acordo com o número de inlinks externos (citações do site) que receberam.

A lista tem como objetivo melhorar a presença das universidades e instituições de pesquisa na internet e promover a publicação em acesso aberto dos resultados científicos, sendo publicada desde 2004 e com atualizações a cada janeiro e julho. Atualmente, ela fornece indicadores para mais de 12.000 universidades em todo o planeta.

O IFRN tem atualmente 21 campis espalhados no Estado e oferece além dos cursos de ensino médio integrado à educação profissional técnica, cursos de qualificação profissional, cursos de graduação e cursos de pós-graduação.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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