OPINIÃO

Reflexões no sofá da família tradicional brasileira

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Em 2015, Anna Muylaert escreveu e dirigiu um filme decisivo de sua carreira: “Que Horas Ela Volta?”. A narrativa sobre a empregada doméstica que, depois de mais de 10 anos sem ver a filha, recebe a garota na casa dos patrões, onde mora, é um divisor de águas na carreira da diretora, não apenas pela força da representação da família tradicional brasileira e de suas ambiguidades, mas pelo que representa na trajetória do cinema nacional, historicamente negligente em relação à participação de mulheres, à frente e atrás das câmeras.

Em suas quase duas horas de projeção, o filme esboça alguns meses na vida dessas duas mulheres, mãe e filha, separadas pela necessidade de sobrevivência e que agora, unidas, deparam-se com o fosso que as separa enquanto sujeitos no mundo. Jéssica vai a São Paulo decidida a tentar o vestibular da Universidade de São Paulo. Val, que mal terminou o ensino básico, executa com resignação o papel menor que lhe cabe na dinâmica da casa, como empregada doméstica.

As cenas são quase todas com câmera parada. Mas os planos abertos, e o repetido enquadramento na divisão entre a cozinha e a sala colocam o espectador como sujeito privilegiado no acompanhamento da rotina daquela família. Não existem pontos de virada, suspense, clímax. Mas a observação daquela realidade, por si, leva à constatação do conflito que permeia todas as cenas: a dominação exposta numa relação de trabalho que ultrapassa seus limites.

O inconformismo surge com a filha de Val, e é interessante que ele apareça sob o símbolo da educação. Jéssica chega do Nordeste para estudar, e acha que tem esse direito tanto quanto o filho da patroa: ao contrário da mãe, entende que tem os mesmos direitos que os patrões – de usar o quarto de hóspedes, de tomar banho na piscina, de comer à mesa com a família. Jéssica se vê como sujeito de direitos, que se transforma, evolui, e não como força de trabalho estática.

Jéssica é a metáfora de milhões de brasileiros encorajados a sair da senzala pelo investimento em programas sociais levado a cabo pelas administrações petistas nos últimos anos. Pessoas que sequer imaginavam terminar o ensino médio e que foram as primeiras na família a entrar na Universidade. Jéssica é também Anna, a diretora, que faz parte do índice de 19% de mulheres que lançaram filmes em 2016, contra 81% de homens (com seu filme seguinte, Mãe Só Há Uma).

Este texto não se pretende ser uma crítica de Que Horas Ela Volta?. Faltaria muito. É uma sugestão de apreciação de uma obra cinematográfica que pode responder a muitos dos questionamentos que nos temos feito nos últimos meses. Por que tanto ódio às minorias? Por que a repulsa a uma manifestação de mulheres? Por que tanto asco à administração de um partido de esquerda? Sentar na sala da família de Bárbara e assistir ao inconformismo de Jéssica e à revolta da patroa quanto ao seu empoderamento explica muita coisa.

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