OPINIÃO

Rememorar a Paixão é renovar o pacto pela justiça

“Não fechei os olhos,
Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah, eu usei todos os sentidos.
Só não lavei as mãos.
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo.”

(Ivan Lins)

Esta sexta-feira marca, no nosso calendário, o desfecho de um dos julgamentos mais injustos da humanidade. O réu, preso na calada da noite, vítima de traição de um de seus pares, teve contra si falsos testemunhos para incriminá-lo, encomendados por autoridades religiosas e políticas da época.

55Depois, voltando-se para a turba, falou: Saístes armados de espadas e porretes para prender-me, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias estava eu sentado entre vós ensinando no templo e não me prendestes.

Sem processo justo, fora submetido a perguntas retóricas por um governador, que, mesmo enxergando não haver crime cometido, lavou as mãos e o entregou à turba insuflada pelos príncipes dos sacerdotes.

Foi Jesus, então, em um processo relâmpago, condenado à pena de morte.

Os que haviam prendido Jesus levaram-no à casa do sumo sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os escribas e os anciãos do povo. 59Enquanto isso, os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de o levarem à morte. (Mt, 19)

Torturado com tapas, chicotes, lanças, humilhado, obrigado a carregar a cruz em cima da qual teria o fim de sua vida, cumpriu a sentença daqueles que desafiam os poderes opressores instituídos.

Quando lemos no Novo Testamento os relatos da trajetória de Jesus, que andava com pobres, mulheres, acolhia crianças, deficientes, prostitutas – grupos sociais marginalizados de sua época – subvertendo as leis vigentes, não é possível ficarmos inertes à sua ação. Quando lemos seus discursos, encontramos declarações como:

Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!4Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!5Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! 10Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!11Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim.

21Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!22Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens.23Jesus disse então aos seus discípulos: Em verdade vos declaro: é difícil para um rico entrar no Reino dos céus!24Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.

Nas suas palavras, justiça, igualdade social, paz – utopia do Reino, construção de um novo mundo. Denúncia das desigualdades, da hipocrisia, da exclusão – posturas condenáveis ao projeto desse Reino. Do mesmo modo, anuncia a impossibilidade de servir a dois senhores – “Deus e o dinheiro” (tanto que expulsou a chicotadas os vendilhões do templo) – requisitando de seus seguidores a assunção radical da causa e o compromisso com ela. Para isso, sabia quão difícil seria a tarefa:

Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada.35Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra,36e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. (Mt., 10).          

Como visto, não há meio termo na ação de Jesus. Sua opção é clara – como filho de carpinteiro que era – em compromissar-se com sua classe social. A sua vivência religiosa foi essencialmente política. Projetar um “outro Reino” significava romper com aquele reino que oprimia e destruir aquelas estruturas de poder que corroíam a vida do povo.

Infelizmente, algumas vertentes cristãs, católicas e protestantes, e mais ainda as pentecostais, atuaram e atuam para destituir da ação de Jesus de Nazaré seu sentido político e seu compromisso com a causa dos excluídos socialmente.

Frei Betto, em suas várias conferências e escritos, sempre brinca dizendo que “Jesus não morreu atropelado por um camelo ao atravessar uma rua de Jerusalém.” Diz isso para reafirmar que Jesus foi um preso político de estruturas perniciosas de poder, inclusive religioso, que o condenaram à pena de morte – a crucificação.

Portanto, o cristão que brada por ditaduras, que defende que “bandido bom é bandido morto”, que aponta como criminosos sem-terra, sem teto, mulheres, jovens pobres, negros do campo ou da cidade ou se regozija com processos e condenações arbitrários se comporta como o fariseu a quem Jesus qualificou de sepulcro caiado – limpo por fora e sujo por dentro.

No Brasil, no campo e na cidade, nas periferias, o calvário acontece todos os dias – quando se concretiza o extermínio das comunidades tradicionais, dos povos indígenas, da juventude negra e pobre; quando as taxas de feminicídio são as mais altas do mundo; quando a falta de políticas públicas relega o povo à condição de sub-humanidade; quando o latifúndio mata e aumenta o número de sem-terra e a segregação urbana produz milhares de sem teto.

No Brasil de hoje, mais do que nunca é necessário retomar a ação revolucionária de Jesus: sair às ruas, conversar com os marginalizados, reconstruir a esperança em um mundo novo e lutar, coletivamente, por ele.

Que esta Paixão seja assim rememorada e a Páscoa, sinônimo da Ressurreição, seja sempre o significado das próprias palavras do Nazareno: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma.”

Até a vitória, sempre!

 

 

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