OPINIÃO

A Renca no Fórum Social Mundial

Leilane Assunção escreve às quintas-feiras, na agência Saiba Mais

Participei no Fórum Social Mundial de uma mesa articulada pela Rede Nacional de Coletivos e Ativistas Antiproibicionistas (Renca), na tenda da Bibiloteca Central da UFBA. A proposta do debate era discutir o maior problema que aflige o Brasil de hoje, com repercussões desesperadamente trágicas em todos os setores da sociedade: a atual politica de proibição as drogas, donde deve ser colocada, sem dúvida, a conta do terrível episodio da noite de 14 de Março, quando foram ceifadas duas vidas.  

Um trabalhador que teve a infelicidade de estar “no lugar errado e na hora errada” (o motorista do carro) e a mulher negra Mariele Franco, vereadora do PSOl/RJ, executada friamente depois de assumir uma corajosa defesa das comunidades carentes do Rio, das quais era ela também oriunda, que sangram “desde sempre”, mas que piorou muito depois da malfadada intervenção militar. 

E a intervenção militar só está acontecendo por quê? Devido à incapacidade do aparelho repressivo do Estado em reconhecer a falência do atual modelo de gestão da política de drogas do país, no sentido de derrubar o mito moral da abstemia necessária, aceitando o direito à diversidade também no que diz respeito ao uso de drogas e caminhando para uma política de legalização das drogas (todas, em diferentes níveis de controle, mas todas). Isso sim seria uma intervenção efetiva no combate ao crime organizado, pois tiraria a maior parte de sua receita, reduzindo drasticamente, por conseguinte, o potencial belicoso do narcotráfico e estancaria a sangria da juventude negra e pobre, das mulheres e LGBTs negros, especialmente dos que têm sido dizimados de modo avassalador pelo atual modelo de política de drogas. 

Até certo tempo atrás, execuções de líderes políticos só aconteciam em partes consideradas remotas do país, onde o Estado, pela questão geográfica, se fazia pouco presente. Agora, a ousadia do crime organizado, diante da inoperância do poder público, comprometido até a medula que está com a manutenção do atual modelo, produziu essa aberração civilizacional que é termos que assistir, sem maiores possibilidades de reação, a execução de uma vereadora, uma mulher negra, mãe, trabalhadora, uma cidadã engajada na defesa de um país melhor, num mundo melhor para todos, no centro da segunda maior cidade do país, uma das maiores metrópoles do mundo, onde nem sendo agente de poder público como é um vereador, se garante a integridade e o direito à vida, quando se tem cor, cara, classe, gênero, de pobre e de povo. 

Mobilizações nacionais pululam por todos os lados, Mariele Franco não será esquecida. Sua luta vai continuar e continua já, quando realizamos atividades como essa que hoje a RENCA propôs no fórum, denunciando os malefícios da atual política de drogas, dentre os quais hoje temos como ícone justamente a execução dessa mulher ousada e corajosa, símbolo de um tempo, de um povo, que não se curvará diante do arbítrio e de todas as demais opressões.  

Quando escrevemos textos como esse, quando nos propomos a fazer ações que agreguem novas pessoas a esse tão importante debate, que pode finalmente vir a construir um dia que, espero que seja breve, a consciência política e intelectual que precisamos, para que nossa sociedade entenda que somente com a mudança da atual política de drogas do proibicionismo para o antiproibicionismo, é que veremos finalmente a mudança que tanto almejamos e sonhamos na nossa sociedade, produzindo qualidade individual e social de vida. 

Mariele Franco presente nesse 15 de Março de 2018, direto do Fórum Social Mundial Salvador 2018, donde vos escrevo agora, de coração partido, meus caros leitores. Apesar de tudo, lutando, resistindo e  acreditando no ideal do evento: “Resistir é criar, resistir é transformar”. 

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Historiadora e Militante LGBT