TRABALHO

Retorno às aulas presenciais colocaria mais de um milhão de pessoas em circulação, alerta Secretário de Educação do RN

Desde o dia 15 de abril as aulas na rede estadual de ensino foram retomadas em formato virtual. E é assim que elas devem permanecer enquanto houver fila de espera por leito de UTI, na avaliação do secretário de Estado da Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Getúlio Marques.

“Um caso não pode virar só estatística. Enquanto a fila não baixar, não tem como voltar presencialmente. Eu e o Comitê Científico temos tido esse cuidado. Concordo que as escolas deveriam ser as últimas a fechar e as primeiras a abrir. Se tivéssemos uma liderança nacional, que agisse nesse sentido, seria possível”, critica Getúlio, em relação à atuação do presidente da República que tem atrapalhado as políticas de isolamento e contenção da pandemia.

A postura do secretário de Educação do Estado é, também, uma resposta às especulações e pressões que o setor vem sofrendo por um possível retorno presencial das aulas.

É um desrespeito aos nossos profissionais da educação e professores alguém imaginar que nesse período não aconteceram essas aulas de forma não presencial. Algumas aconteceram com o auxílio de tecnologia e outras, inclusive, com material impresso. Temos 217 mil alunos e muitos em situação de pobreza. Aí não é a educação o problema, se o familiar está desempregado, sem saúde, não é um problema apenas nosso”, lamenta Getúlio Marques.

Nas contas do secretário, o retorno às aulas presenciais colocaria um milhão e 200 mil pessoas em circulação em todo o Rio Grande do Norte por causa do deslocamento necessário para deixar os estudantes nas escolas. No caso da rede pública de ensino, a movimentação seria maior do que aquela da rede privada pelo fato das famílias fazerem uso do transporte público que, no caso da capital, segue com a frota em circulação abaixo de sua capacidade máxima. Apesar das determinações da justiça, inclusive, com multa diária de R$ 50 mil ao prefeito de Natal, Álvaro Dias (PSD), e ao Secretário de Mobilidade, Paulo César Medeiros, em caso de descumprimento, a frota de ônibus segue circulando com menos de 100% das unidades disponíveis.

As escolas estão preparadas com as medidas de biossegurança. Colocamos os tapetes sanitizantes, lavatórios, dispenser com álcool em gel nos corredores, Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s), sinalização e termômetro. A questão é que, no caso das escolas privadas, apenas 1/3 dos alunos estão indo pra aula, são aqueles estudantes dos anos iniciais que não têm autonomia para assistir aulas virtuais, mas vão para a escola de transporte próprio, particular. Enquanto isso, a maioria dos nossos alunos, de escola pública, utiliza transporte público”, calcula o titular da pasta da Educação do estado.

O transporte público tem sido apontado com um dos principais meios de transmissão da covid-19. Em Natal, os flagrantes são de ônibus superlotados, o que não permite manter o distanciamento social necessário para evitar a proliferação do vírus. Além disso, os coletivos não passam pela higienização necessária.

Nesta terça (20), foram registrados 213.668 casos de covid-19 em todo Rio Grande do Norte. Até o momento, 5.156 pessoas morreram em decorrência do novo coronavírus, sendo que 16 óbitos foram registrados apenas nas últimas 24 horas nas cidades de Natal (03), Mossoró (03), Jucurutu (01), Jardim do Seridó (01), São Gonçalo do Amarante (01), Monte Alegre (01), Santana do Matos (01), Timbaúba dos Batistas (01), Pedra Grande (01), Florânia (01), Acari (01) e Goianinha (01).

Parar demais atividades para retorno das escolas

Na avaliação de Getúlio Marques, o retorno às aulas presenciais no mesmo momento em que ocorrem abertura de atividades econômicas é inviável e pode tirar a situação do controle.

“Discordo que essa seja o momento de retorno, a não ser que todas as outras atividades parassem. O risco é até maior do que o grupo está trabalhando. Se tivéssemos uma boa renda para isso, como fizeram os países desenvolvidos, era possível deixar a pessoa em casa, com subsídio para o trabalhador, para o pequeno empresário. Agora, voltar as escolas com tudo funcionando, é voltar tudo ao normal. Para voltar a educação seria preciso parar os outros setores, mas não existe nenhum programa nacional que permita isso”, avalia Getúlio Marques.

Lais recomenda volta às aulas

Neste último final de semana, pesquisadores do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da UFRN (Lais/ UFRN), alguns deles membros do Comitê Científico que auxilia o Governo do Estado em decisões relacionadas à covid-19, emitiram uma nota recomendando a volta às aulas presenciais nas escolas da rede pública estadual, suspensas em março de 2020.

O secretário de Educação do RN, Getúlio Marques, discorda da posição do diretor do Laboratório em Inovação Tecnológica em Saúde da UFRN (Lais), Ricardo Valentim, que recomendou a retomada das aulas presenciais durante entrevista.

“Não é verdade que estamos sem aula. As escolas profissionais começaram aulas remotas ainda em março porque já faziam isso antes mesmo da pandemia. Nós tivemos até agora 132 salas virtuais abertas na nossa plataforma, o Sigeduc. Eu pergunto a você: qual foi a escola privada que teve 132 mil salas abertas durante a pandemia?”, questiona Getúlio Marques.

Desde outubro de 2020, 90% das escolas estavam adaptadas para trabalhar no formato virtual. A partir daí, o Governo do estado publicou uma portaria tornando a adaptação obrigatória. Apesar das aulas terem sido retomadas no dia 15 de abril no formato virtual, o trabalho entre os professores e profissionais da educação começou um pouco antes, no dia 12, com as jornadas, período em que se discute o conteúdo do que seria trabalhado com os estudantes no ciclo que se iniciaria.

Recomendação do Comitê Científico

Pela recomendação do Comitê Científico do Estado publicada em 19 de maio de 2021, as escolas devem estar entre as últimas atividades econômicas a serem retomadas. No caso de escolas de Ensino Médio que estiverem funcionando à distância, devem permanecer assim até o final do 1º semestre.

Já as creches e escolas que retomaram atividades presenciais, devem seguir todo o protocolo de biossegurança, reforçar a higienização e garantir a maior ventilação dos espaços. O documento também traz propostas de retomadas de atividades presenciais em universidades e creches apenas a partir do segundo semestre.

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