OPINIÃO

Revolta musical

Todo mundo sabe que minha praia é futebol, esporte de uma maneira geral, mas acima de qualquer coisa sou jornalista e tenho responsabilidade, acho, com tudo que acontece ao meu redor, no que diz respeito à cidade, Estado e esse Brasil velho de guerra sacudido por todo tipo de canalhice que se possa imaginar, Moro e Dallagnol que o digam.

Todos os dias, já narrei aqui, caminho pelas praias de Natal, mais precisamente as que ficam mais pertindo de mim (com a gasolina do preço que está) – Praia do Meio, Artistas, Forte, Areia Preta e Mãe Luiza. Escuridão, sujeira, dejetos, esgotos, obras inacabadas, calçadas escuracadas, obras feitas e refeitas, no mínimo, uma dúzia de vezes; banheiros quebrados, abandonados, fedidos e todo tipo de milacria, tudo isso testemunhado, também, pelos olhos dos turistas que chegam e vão levando essa “boa impressão”. Eu denuncio, aponto, reclamo, tanto faz ou tanto fez quem seja o gerente da cidade.

Nossa orla continua podre de lixo e às escuras. O nosso alcaide, o Álvaro Dias, que conheço desde os tempos que era dirigente do Coríntians de Caicó, campeão estadual de 2001, primeiro título do interior a festejar esse feito, não se mexeu e nem dá sinais que vai, para mudar o que está posto. Até agora, assim como Carlos Eduardo, Micarla antes dele, Wilma, Garibaldi, não parece tocado pela beleza encoberta por todas essas desgraceiras que já narrei tantas e tantas vezes.

Nunca canso de falar. Podem aguardar, daqui a pouco volto à carga, mas o assunto de hoje, apesar de todo esse arrodeio, é música. Vocês lembram que reclamei no twitter, via rádio, tevê e encontro de amigos, o absurdo dos acontecimentos dos projetos aprovados, quando uma comissão ignorou no Edital do Centro Histórico em que contemplou 23 artistas dividindo R$ 200 mil, eventos como Encontro de Choro e Samba, com Debinha Ramos e seus parceiros; o Choro do Caçuá de Carlinhos Zens e a quinta-feira do samba, em Nazaré, entre outros belos projetos que tinham, de verdade, tudo a ver com o nosso Centro Histórico.

Pois bem, não passa nem uma semana, vejo matéria no portal saibamais.jor.br valores absurdos pagos aos artistas ‘estrangeiros’ para nossos festejos juninos. Nem vou discutir se Xande, Aviões, Zezé de Camargo são, de fato, representantes desta festa que já foi nossa, mas os valores, eu tenho certeza que não, independente de quem pense o oposto. Gente, que absurdo! A cidade deve estar nadando em dinheiro, pois não. As moças, Simone e Simaria, vão receber R$ 350 mil, só elas, e no total serão gastos R$ 1,2 milhão por sete atrações no período. Fico sem acreditar numa coisa dessas…

Isso incomoda né.? Adoece quem se importa, quem sabe o que nosso povo passa sem saúde, escola, segurança e outras coisas descritas na Constituição. Mas aí ainda tem coisa pior a constatar: os artistas natalenses, os pobres, flagelados (para eles), esquecidos, mortos de fome (para eles), desprezados e sem qualidade (para eles) ainda não receberam, acreditem, ainda não receberam os cachês por suas participações no carnaval deste ano e lá se vão os meses de março, abril, maio e junho pela metade. Tem definição esse tipo de coisa? Esse povo que comanda tudo isso tem alguma coisa a dizer que justifique essas bizarrices?

Aí você que teve paciência de ler esse meu “choro” até aqui deve pensar:  “pronto, ele vai encerrar o texto e voltar a falar de futebol, do ABC, da contratação (bajulação) de Bob Fernandes”. Acreditem, ainda tenho coisas para acrescentar que acho pior do que tudo isso que já narrei. É sim.  Fiquei boquiaberto, sem acreditar, o que Rafael Duarte, autor da matéria, chama de “naturalização dessa cultura para algumas pessoas”. Aí a dor no fígado aumenta. Um produtor cultural ouvido diz que “artistas e produtores precisam se adaptar a essa realidade”. Adaptar a esse absurdo uma pinóia! Porra nenhuma! O que esses artistas precisam fazer é se unir, romper correntes, bater no peito, fincar o pé e pedir respeito, pedir não, exigir respeito. Um pagamento digno e cantar, se apresentar já com o dinheiro na conta ou no bolso. Duvido que eles aguentem fazer eventos somentes com o caros e ruins artistas feitos pela mídia.

Mais na frente, na continuidade da entrevista, o cara ainda resume dizendo que “é preferível trabalhar e receber depois do que não trabalhar e não receber”. Coisa de quem não se valoriza, não se respeita, só para dizer o mínimo. Essa não é uma realidade para se administrar, de forma nenhuma. Essa é uma prática sacana, errada e que precisa ser combatida veementemente, corajosamente, diariamente. Chico Bethoveen, um dos representantes do que tem de melhor na nossa música, aponta o caminho: mobilização conjunta de artistas, imprensa, políticos para reduzir essa diferença. Ele tem razão, pois para mim esse abismo entre nós e eles é uma coisa escandalosa.

Os políticos, prefeitos, governadores, gestores de um modo geral, adoram quando se baixa a cabeça, se concorda com tudo, aceita-se , muitas vezes, e na maioria, em troca de migalhas, que eles distribuem achando que já estão fazendo demais. Seria cômico, se não fosse tão trágico. Uma vergonha ver tantos talentosos artistas se submetendo a esse tipo de chantagem. Chega a doer saber que eles não têm um sindicato que os represente e promova uma ação de verdade para combater todas essas anomalias.

Já passou da hora de mudar essa realidade. Pelo menos, pelo menos, vamos gritar, vamos pular, xingar, espernear e dizer que está errado e que nas próximas eleições vamos ajudar a eleger quem tenha, de verdade, uma política pública voltada para a valorização de nossa cultura como um todo.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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