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Ricardo Galvão é exonerado do Inpe após críticas de Bolsonaro a dados do desmatamento

O ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) decidiu exonerar, nesta sexta (2), o diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Ricardo Galvão, após críticas a dados sobre desmatamento que não agradou o presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo Galvão, o motivo de sua exoneração foi porque seu discurso em relação ao presidente Jair Bolsonaro criou constrangimento.

“Diante do fato, a maneira como eu me manifestei com relação ao presidente, criou-se um constrangimento que é insustentável. Então eu serei exonerado”, afirmou o diretor, que disse concordar com sua substituição.

Galvão afirmou que tinha preocupação de que suas críticas fossem respingar no Inpe. “Não vai acontecer”, ressaltou.

Apesar de ter mandato de quatro anos com prazo para terminar no final do próximo ano, ele disse que no regimento do instituto está explícito que o ministro poderia, numa situação de perda de confiança, substituir o diretor do órgão.

Ele disse ainda ter indicado um nome para substitui-lo com o objetivo de continuar sua linha de ação à frente do instituto, mas não quis dizer quem seria, por ser prerrogativa do ministro escolher o novo diretor do Inpe.

Na mira de Bolsonaro

A exoneração ocorre depois de críticas reiteradas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ao Inpe nas duas últimas semanas por causa de dados que apontaram alta no desmatamento.

Na quinta (1º), Bolsonaro ameaçou demitir Galvão de forma mais direta. “Se quebrar a confiança, vai ser demitido sumariamente. Perdeu a confiança, no meu entender, isso é uma pena capital”, disse.

Retrospectiva

O presidente afirmou que os dados divulgados pelo Inpe não correspondiam à verdade e sugeriu que Galvão poderia estar a “serviço de alguma ONG.”

Ricardo Galvão respondeu aos ataques. No dia 21 de julho, disse que poderia até ser demitido, mas que o Inpe não poderia ser atacado.

“A única coisa que o Inpe faz é colher dados, nada mais, mas havia insatisfação sobre isso. Isso [as críticas] estava concentrado no MMA e eu não esperava que subisse à presidência da república, mas aparentemente subiu, não sei exatamente pelo esforço de quem”, disse.

O Inpe também rebateu oficialmente todas as acusações feitas por Bolsonaro e Salles.

O instituto divulgou nota na qual afirma que seu trabalho “sempre foi norteado pelos princípios da excelência, transparência e honestidade científica”.

Nos bastidores, o ministro Marcos Pontes demonstrava apoio ao Inpe e aos dados do desmatamento.

A situação mudou após a publicação, em rede social, de um comunicado no qual o ministro afirmava compartilha a “estranheza” de Bolsonaro em relação aos dados de desmate.

Em seguida, no encontro anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Campo Grande, Pontes defendeu restrições à publicação de dados do desmatamento.

Por fim, o diretor do Inpe deveria participar de uma reunião sobre dados de desmate que ocorreu na quarta (31), com Salles, Pontes e representantes do Inpe e do Ibama. Galvão, porém, foi desconvidado de última hora e teve seu encontro com o ministro da Ciência adiado para esta sexta.

Quem é Ricardo Galvão

O engenheiro Ricardo Galvão foi nomeado diretor do Inpe em 2016 pelo então ministro Gilberto Kassab, do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações Comunicações).

Na época, Galvão era professor titular da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Física. Também é membro do conselho da Sociedade Europeia de Física e ex-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

Sua nomeação na época saiu com quatro meses de atraso. À época, Galvão disse acreditar que a demora não se dava por má vontade política, mas, sim, por uma questão de “conjectura” do governo.

“Estou a par da maioria das questões. Como já fui do Inpe (entre 1986 e 1990) ainda conheço algumas pessoas. Desde que fui indicado, tenho tido conversas e já fiz um levantamento razoável dos problemas”, disse Galvão então.

Pesquisadores especulavam que a demora teria a ver com um desprestígio da pasta.

Galvão é graduado em engenharia de telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em engenharia elétrica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e doutor em física de plasmas aplicada pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), com livre-docência em física experimental pela USP (Universidade de São Paulo).

É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

As informações sobre desmatamento produzidas pelo Inpe —tanto o Deter quanto o Prodes, que mede o desmate anual— são públicas e podem acessadas pelo portal TerraBrasilis, do Inpe.

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Pedro Torres
Pesquisador e jornalista com foco em direitos humanos, política e tecnologia baseado em Natal/RN. CONTATO: pedrohtorres@outlook.com

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