DEMOCRACIA

Ricardo Valentim deixa comitê científico do Consórcio Nordeste: “não éramos ouvidos”

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O coordenador do Laboratório de Inovação Tecnológica da UFRN Ricardo Valentim anunciou que não faz mais parte do comitê científico criado pelo Consórcio Nordeste. Ele foi indicado pela governadora Fátima Bezerra (PT) e representava o Rio Grande do Norte na entidade coordenada pelo neurocientista Miguel Nicolelis e pelo ex-ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende.

Em nota, Valentim afirmou que “muitos dos encaminhamentos realizados no comitê estão dentro de uma ‘bolha científica’ distante da realidade social, econômica e de saúde do Rio Grande do Norte”.

O Estado potiguar deve ser representado por outro profissional, ligado à saúde. A indicação também caberá à governadora. Questionado em relação a algum tipo de atrito com Nicolelis, o coordenador do LAIS/UFRN disse que a questão não é pessoal. No entanto, deixou claro que não concordava com a metodologia usada pelo comitê. Na avaliação dele, a cooperação entre os estados se dá de forma vertical, a partir de decisões generalistas tomadas pela coordenação da entidade:

– Falta escuta ao que acontece nos Estados, não existem decisões generalistas para todo o Nordeste. Quem tem controle sobre os nossos indicadores é o Governo do Rio Grande do Norte, a Sesap. É preciso olhar para esses indicadores para tomar medidas restritiva, é preciso cuidado, zelo. Foi um processo, desde as primeiras reuniões, em que notei que não há uma preocupação com o Estado. Não é uma cooperação horizontal entre os estados, mas vertical de cima para baixo. E as cooperações são horizontais. Acho que o comitê da região Nordeste precisa estar presente ouvindo o estados”, disse, por telefone, à agência Saiba Mais.

Em entrevista ao jornal Tribuna do Norte, o neurocientista Miguel Nicolelis defendeu isolamentos mais rígidos e citou Natal e Mossoró como cidades que já ultrapassaram o limite de ocupação de leitos em UTI como recomendação para o lockdown.

Coordenador do LAIS/UFRN Ricardo Valentim foi indicado pela governadora Fátima Bezerra para representar o RN no comitê

Valentim já se posicionou de forma contrária ao confinamento obrigatório da população neste momento. Indagado se essa divergência teria sido um dos pontos que o levou a deixar o comitê, ele afirmou que não teve uma situação específica, foi o somatório de várias questões divergentes:

– Preferi sair antes de qualquer fato. Estou acostumado a discutir, a dar autonomia para as pessoas. O Rio Grande do Norte tem excelentes cientistas na área de saúde. Não posso participar da estrutura. Fora vários episódios. E essa é também a posição de outros colegas em outros estados, mas que talvez não queiram se manifestar. Gosto das coisas claras e transparentes. Por exemplo: na terça-feira teve uma reunião com a organização panamericana de saúde quando discutimos 10 parâmetros que precisam ser definidos como indicadores para fazer o lockdown. Não existe decisão generalista para todo o Nordeste”, destacou.

Rio Grande do Norte

Na região Nordeste, Maranhão e Ceará já decretaram o lockdown em alguns municípios. Apesar de enfrentar situação ainda mais grave que o Rio Grande do Norte, Pernambuco ainda não se decidiu pelo confinamento obrigatório. Questionado sobre o motivo pelo qual o Estado potiguar tem números melhores que os vizinhos, Valentim ressalta que a situação do RN é de alerta, mas valoriza orientações do comitê científico local que embasaram decisões tomadas pelo governo do Estado:

– O Rio Grande do Norte está com o sinal de alerta ligado. A população não pode ter a percepção de que a situação está boa porque não está. Mas houve várias decisões acertadas no Estado, orientadas pelo comitê científico local, a exemplo da suspensão das aulas, a publicação dos decretos. Foram decisões no início tomadas logo após o primero óbito, o primeiro caso confirmado. Fortaleza e Pernambuco têm uma quantidade de voos internacionais maior que a nossa embora a população desses estados também seja maior. Mas as medidas restritivas que tomamos foram bastante fortes e podem ser ampliadas. Veja que Fortaleza decretou o lockdown, mas Recife que está numa situação pior que a nossa ainda não. Há singularidades que precisam ser respeitadas em cada estado”, disse.

Os estados que já decretaram o lockdown enfrentam dificuldades para obrigar a população a cumprir. No Maranhão, por exemplo, o confinamento veio por decisão judicial e, mesmo assim, o Estado não conseguiu efetivar a ordem.

– A questão é quando tomar. Se for fora do compasso, que medida será tomada depois ? É preciso saber como entrar e como sair. O lockdown é uma discussão técnica, não se faz num dia. O Maranhão decretou o lockdown por ordem judicial e no dia seguinte a imprensa começou a ver que só teve adesão da classe média, que classe mais pobre não tinha aderido, ou seja, acabou sendo uma medida segregária”, opina.

Sobre o caso específico do Rio Grande do Norte, Valentim avalia que a questão mais crítica no Estado têm relação com as filas de pessoas na Caixa Econômica para receber p benefício do auxílio-emergencial.

– A Covid-19 está afetando agora a população mais vulnerável. Se observar nos mapas, a populaçao mais periférica. Antes de ir para uma medida mais radical, é preciso esgotar outras possibilidaades. Aí, quando tiver saturado, vamos tomar a decisão com base na ciência. O estados tem que ter autonomia. O comitê científico local está estudando quais são parâmetros mais eficientes que temos que medir até para quando retomarmos as atividades. Quando as escolas devem voltar, por exemplo. Essas coisas não se define por decreto, mas precisa de um colchão de proteção social para que a pessoa fique em casa. É preciso avaliar indicadores sociais e econômicos. O Estado tem que ser garantidor para que a sociedade possa ficar em casa”, destaca.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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