CIDADANIA, OPINIÃO

Rio de Janeiro: entre a alegoria e a farsa

O historiador Durval Muniz escreve aos domingos na agência Saiba Mais

Desde que se tornou a capital do Império português, no início do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro se tornou a parte mais visível internacionalmente do país. Podemos dizer que, sob vários pontos de vista, o Rio de Janeiro é um excelente resumo do que é nosso país. Sendo capital, até o início dos anos 1960 do século XX, a cidade do Rio de Janeiro atraiu gente de todos os recantos do país, tornando-se uma impressionante síntese da diversidade e das maravilhas e mazelas do Brasil. Tendo sido um dos principais portos de importação de escravos, notadamente nos séculos XVIII e XIX, a cidade viu uma população negra que, em dados momentos era em quase um terço superior à população branca, ser acrescida de toda uma massa de forros e libertos com o fim do cativeiro e a crise da economia agrária do vale do rio Paraíba do Sul e da economia mineira. A presença africana e afro-brasileira na cidade sempre foi uma marca, que se somou a sua segregação social e espacial, para configurar uma das marcas da paisagem urbana da cidade: as favelas. Enquanto as elites paulistas apostavam, no início do século XX, num projeto de branqueamento de sua principal cidade, o Rio de Janeiro que vivia um violento processo de reordenação urbana com as reformas do prefeito Pereira Passos, que a queria transformar numa Paris nos trópicos, se tornava uma cidade cada vez mais negra ou miscigenada. Ainda hoje as duas principais cidades do país apresentam profundas diferenças urbanísticas, demográficas, sociais, políticas e culturais advindas desses contrastes instaurados na passagem da monarquia para a república e do sistema escravista para formas de trabalho ditas livres, embora o trabalho compulsório continuasse existindo em muitas partes do país. Enquanto São Paulo é produto de uma economia em expansão, uma economia agrária pujante que permitiu a acumulação de capital e um processo de industrialização, o Rio de Janeiro vê a economia da chamada Baixada Fluminense se estagnar, tornando-se uma metrópole que vive de sua capitalidade, da centralidade que exerce nos serviços públicos do país, do fato de ser um dos portos mais importantes do Brasil, de ser um centro comercial e bancário importante. Essa dependência da capitalidade nos faz entender a perda relativa de importância do Rio de Janeiro na economia nacional, quando da transferência da capital para Brasília. O Rio de Janeiro jamais se recuperou de seu esvaziamento político, que resultou no correlato esvaziamento econômico, com a centralidade cada vez maior de São Paulo na economia e também na política do país.

 

Mas o Rio de Janeiro, por suas belezas naturais inigualáveis e pela beleza da própria cidade, continuou atraindo para ela brasileiros de todos os quadrantes, inclusive grande parte das elites artísticas e intelectuais dos estados. Preservada de um ritmo de crescimento como o de São Paulo, pôde manter muito de sua configuração arquitetônica, não passando pelas constantes remodelações que a capital paulista passa, até porque se as elites paulistas constroem sua identidade em torno da ideia de modernidade e do moderno, as elites cariocas não param de suspirar de saudade e nostalgia ao lembrar da época do Império, da época em que a cidade era capital. O tradicionalismo carioca faz com que suas elites sejam muito conservadoras mas menos arrivistas do que as elites paulistas, menos deslumbradas com o tecnológico. Esse tradicionalismo fez com que as classes médias cariocas mantivessem uma relação com as manifestações das camadas populares, notadamente com as manifestações culturais de matriz africana, muito distinta daquelas observadas em São Paulo. Enquanto até espacialmente os negros em São Paulo foram segregados para as periferias da cidade, no Rio de Janeiro, encarapitados nos morros, nunca deixaram de guardar proximidade espacial e cultural com as gentes do asfalto. A própria existência das praias, terra de ninguém para onde todos convergem e para onde todos confluem, faz do Rio de Janeiro uma cidade menos apartada socialmente e culturalmente do que é São Paulo. A troca cultural entre pessoas das distintas camadas sociais dá à cidade uma configuração cultural particular. A boêmia, a cultura de rua, a frequentação de espaços públicos favorecidos pelo clima tropical da cidade, pelo seu sol e pelo seu calor dá ao carioca uma forma de ser muito distinta do paulista, quase sempre condenado pelo próprio clima (frio, garoa) a levar uma vida em espaços fechados, que o individualismo crescente do mundo contemporâneo só fez aumentar.

 

Compreender o ethos cultural de uma cidade como o Rio de Janeiro sem a importância que a festa sempre teve em seu cotidiano, sem levar em conta, notadamente, o carnaval, é impossível. Berço do nascimento do samba, das escolas de samba e de tantas outras manifestações culturais de matriz africana, o jeito de ser do carioca, que talvez seja uma expressão mais explícita do que costumamos chamar de jeito brasileiro de ser, é inseparável de uma certa visão carnavalizada do mundo, para o bem e para o mal. O humor, a irreverência e a causticidade advém dessa cultura onde o carnavalesco tem uma importância tão grande. Só que o carnavalesco tem uma dimensão que também explica muito o que se passa no Rio de Janeiro: o gosto pela transgressão. O carnaval sempre foi um momento de contestação da ordem, das regras, das normas, dos costumes, momento de fantasia e de inversão, momento da alegoria, onde os sentidos estabelecidos, cristalizados dos símbolos perdem a adesão, sofrem deslizamentos, onde o que se vê não é propriamente aquilo que se quer mostrar. A alegoria é o momento da dubiedade, da ambiguidade dos sentidos e significados, inclusive das leis e da ordem. A sociedade brasileira e, a carioca em particular, é também a sociedade da contravenção, como o secular sucesso do ilegal jogo do bicho não deixa dúvida. Nas últimas décadas, de abandono do Estado, de esvaziamento econômico e político, de uma campanha, inclusive, midiática de desprestígio do Rio de Janeiro (as organizações Globo não cansam de fazer campanhas de desmerecimento da cidade e do estado, notadamente quando seus inimigos políticos ganham postos no Estado, o que é comum, como foi com Brizola e Garotinho) que sempre viveu às custas do Rio de Janeiro, o crime organizado subiu os morros e se estabeleceu, e a velha figura do malandro carioca, com suas transgressões miúdas, lúdicas e quase inofensivas se tornou fichinha perto do poderoso traficante e do miliciano que se tornaram poderes paralelos nos territórios abandonados onde ainda hoje vivem os descendentes dos escravos e os migrantes pobres de todas as partes do país, notadamente os deserdados do atrasado e infelicitado Nordeste, de elites agrárias com mentalidade de senhores de escravos.

 

Essa história explica os dois acontecimentos da semana, que envolvem o Rio de Janeiro e suas múltiplas faces: o Rio de Janeiro da dimensão da crítica corrosiva e política do carnavalesco, mas também o Rio de Janeiro como um lugar que está, por isso mesmo, sempre em suspeita por parte dos poderosos do país. Assim como o golpe de 1964 teve dificuldade em domar os cariocas, tendo que conviver com um fantoche da oposição no poder, o governador Chagas Freitas, os novos golpistas estão às voltas com uma sistemática rejeição por parte dos cariocas, que sempre votaram na oposição e embora elejam esmagadoramente Bolsonaro, elegem também os únicos parlamentares do PSOL, e que por identificarem os tucanos com os paulistas (afinal São Paulo é o tucanistão) jamais foram muito simpáticos a eles. Por isso mesmo dando sobrevida ao PMDB, talvez ainda nostálgicos do partido da abertura política, partido que termina de vez agora de traí-los miseravelmente ao não só assaltar os cofres públicos a ponto de causar uma enorme crise fiscal, mas uma vez assumindo a presidência através do golpe rapidamente desmontaram a indústria naval e a indústria de petróleo e gás que sustentam o estado. Achando pouco, o atual governador entregou o estado de bandeja para a farsa militarista montada por Temer, que quer assumir o discurso e as práticas de Bolsonaro. Sem dúvida que o fenômeno Crivela, embora eleito com pouco mais de 30% dos votos válidos, revela a preocupante crescente conservadora no Rio de Janeiro com o aumento assustador das igrejas evangélicas, notadamente as pentecostais e neopentecostais, que aproveitando a carência e o abandono geral se oferecem como saída.

 

Se no carnaval, o Rio de Janeiro foi capaz de se tornar a caixa de ressonância de toda a rejeição a esse governo ilegítimo, do sentimento de revolta que toma conta de boa parte daqueles que veem seus poucos direitos serem confiscados e destruídos por essa quadrilha instalada ilegitimamente no poder; se os desfiles das escolas ganhadoras do carnaval, Beija-Flor de Nilópolis e Paraíso do Tuiuti, lavaram a alma de quem rejeita o que estamos vivendo, fazendo da alegoria e da alegria, do humor e da irreverência, do canto e da arte meios de protesto contra o presente que vivemos, as duas narrativas, embora diversas, tocaram em pontos fundamentais para entendermos mais estruturalmente o que está se passando, saindo da narrativa midiática que tudo reduz à corrupção, como o narrador da Globo queria que lêssemos o enredo da Beija-Flor. Ora, a corrupção, a Petrobras foi apenas uma das monstruosidades mostradas pela escola de samba campeã do carnaval. Seu enredo falava de abandono dos filhos da pátria por ela mesma, mostrando que é muito mais profundo e permanente o que estrutura essa sociedade tão injusta, desigual e miserável que a escola expôs em carros memoráveis. Querer reduzir o enredo da Beija-Flor à alegoria que trazia um prédio da Petrobras que se transformava numa favela, é reduzir a própria corrupção estrutural a um episódio. A escola de Nilópolis tratou das consequências de um Estado, de um país que não investe, que não privilegia educar, dar saúde e amor às suas crianças, que não cuida delas, que as jogam nas ruas, na prostituição, na exploração do trabalho infantil, na violência física e simbólica. A Beija-Flor parecia adivinhar o que se passava na cabeça do golpista-mor, o vampiro neoliberalista destaque da Paraíso do Tuiuti. Como um vampiro se alimenta de sangue, é com o sangue dos cariocas pobres e pretos que ele resolveu matar sua sede. Como sempre, serão genericamente tratados como bandidos, como filhos renegados pelo próprio país, pelas forças militares de intervenção que tenebrosamente nos lembram os idos de 1968. Ali em resposta a uma manifestação multitudinária de estudantes baixou-se o AI-5. Temer parece ter reagido à espinafração, aos protestos de que foi vítima no carnaval carioca com essa intervenção na segurança do Rio de Janeiro, como sempre reivindicada e açulada pela Rede Globo, que deve ter terminado o carnaval com mais ódio ainda do Rio de Janeiro e do povo carioca, que a obrigou a transmitir para o mundo inteiro o seu próprio escracho. Às mãos que moviam como marionetes os manifestoches da Paraíso do Tuiuti só faltava a logomarca das organização dos Marinho, mas não era necessário. O longo silêncio feito pelos narradores enquanto essa ala desfilava dizia tudo.

 

As imagens espetacularizadas de cenas de violência comuns em qualquer cidade brasileira, ainda mais num estado onde as forças policiais não recebem salários, não têm promoções, não contam com a contratação de novos efetivos e onde parcela significativa está associada ao crime organizado, preparou o clima para essa farsa da intervenção militar, que nada vai resolver, porque como mostrou o enredo da Paraíso do Tuiuti os males do Brasil têm raízes muito mais profundas e espetáculos de força não vão solucionar, só irão mascarar e até acirrar, como ocorreu nos 25 anos de ditadura militar. Está na escravidão, na marginalização dos negros no pós-abolição, está no racismo estrutural, no preconceito de cor e de raça, na mentalidade senhorial de uma elite gananciosa como mostrava uma ala da Beija-Flor significativamente vestida de abutres e ratos, capaz de vender o próprio país, de reinstalar a escravidão sempre que possível, como tão bem mostrou a alegoria do neotumbeiro, do novo navio negreiro, cujo comandante era o vampiro que mora no Planalto nesse momento, que com sua reforma trabalhista reaproximou o trabalho no Brasil de suas condições no século XIX. A narrativa do desfile da Tuiuti deixava clara a conexão entre a escravidão de ontem e o cativeiro social de hoje, assim como a narrativa da Beija-Flor deixava claro que os monstros que habitam nossas prisões e nossas ruas, e que agora vão ser caçados como no passado o Dr. Frankstein caçou a própria criatura que criou para exterminá-la, não nascem assim, nascem crianças que se tivessem os cuidados necessários do Estado teriam muito menos possibilidade de se tornarem esses seres diferentes que as câmaras da Globo capturam e condenam à morte. Contra as duas lufadas de verdade e de desalienação, a Vênus Platinada corre em oferecer horas de alienação, de criminalização dos pobres e dos cariocas, criando uma histeria coletiva, notadamente entre as classes médias que sempre temeram o que um dia anunciou uma música de Luís Melodia: a guerra entre o morro e o asfalto, o dia em que os pobres deixarem de se matar e resolverem mudar de alvo.

 

A intervenção truculenta e esdrúxula no Rio de Janeiro mostra que aquele feitor que aparecia na comissão de frente da Tuiuti continua disposto a apostar no chicote como forma de manter a ordem injusta e opressiva em que vivem tantos brasileiros. Um novo capitão do mato vai ser trazido para a senzala, para o quilombo rebelado do Rio de Janeiro, na tentativa de reinstalar os ferros e as mordaças. Fadado como sempre ao fracasso, pois por falta de outras formas de organização e expressão a luta de classes se explicita no Brasil através do crime comum. Não vai ser fácil que o amor saia vencendo, como pedia a Beija-Flor, creio que o canto de resistência, no toque de um tambor, ainda vai ser preciso ecoar por muito tempo para que se veja, como acontece em poucos dias no carnaval, como os filhos abandonados da história do Brasil não são capazes só de horror e feiura, mas são eles que nos brindam com momentos de muita beleza, criação, inventividade e alegria. Foi assim que os negros sobreviveram à escravidão, cantando seus cantos de lamento, vivendo, muitas vezes clandestinamente, seus momentos de alegria e de devoção a seus deuses, até eles marginalizados e diabolizados por farisaicos donos da verdade religiosa. Hoje, os empreiteiros que se escondiam nas costas do carro da Beija-Flor, junto com políticos que fazem banquetes em Paris com guardanapos na cabeça, são uma amostra pública do que são as elites brasileiras, do que são os fundamentos do capitalismo à brasileira: a exploração brutal do trabalho e do trabalhador, a profunda desigualdade social, a imoral concentração da renda e da terra, um Estado quase sempre voltado a servir aos interesses dessas minorias, esquecendo dos pobres, reservando para eles apenas sua face truculenta. O mesmo governo que impôs medidas draconianas para socorrer economicamente o Rio de Janeiro, saqueado pelos governos de ontem e de hoje, é o mesmo célere em mandar suas tropas para ocupar o estado, sem saber direito o que vão fazer. Vimos o espetáculo das tropas do Exército e da Força Nacional de Segurança em Natal e no Rio Grande do Norte fracassar completamente após milhões gastos. Nem mesmo a sensação de segurança melhorou, em um único fim de semana tivemos vinte e cinco mortes no Estado. As forças armadas vão ao Rio de Janeiro enxugar aquela imensa geleira que trazia inscrita o rosto do monstro como carro abre-alas da Beija-Flor, vão descobrir, como tão bem mostrou as escolas justissimamente ganhadoras do carnaval, que o problema é bem mais embaixo, é estrutural. Não é tratando os sintomas que se cura a doença. Mas o que fazer se a doença é a própria forma como está estruturada a sociedade brasileira, a ordem capitalista. Curar o doente exigiria o fim definitivo da cisão entre casa-grande e senzala no país, mas aí todos preferem o general de plantão com seus tanques nas ruas. Que história é essa, alegria de pobre é para durar pouco mesmo, rebelião de pobre e preto só estética, assim mesmo há quem não goste nem dessa, ache muito naturalista, muito realista, mesmo alegórica. Há quem prefira farsas como essa que não se cansa de oferecer ao país esse ator canastrão que ocupa o meio da cena no Brasil atual, um bufão que foi o personagem do carnaval que passou, que foi agraciado com tantas marchinhas. Mas ele parece preferir as marchas militares. Todo governante fraco e ilegítimo é um perigo, ele tende a gritar pelos canhões e metralhadoras sempre que se vê ameaçado, nem que seja de se tornar a piada nacional. Quem disse que golpista tem senso de humor?

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos