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RN tem a maior participação de mulheres nas câmaras municipais do Brasil, porém menor número de prefeitas nas eleições de 2020

Levando em conta as eleições mais recentes de 2020, o Rio Grande do Norte tem a maior participação de mulheres nas câmaras municipais de todo o Brasil. Das 1.607 vagas existentes, 350 foram ocupadas por mulheres. O número corresponde a 21,8% dos assentos nas câmaras municipais do estado. O levantamento foi realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em um estudo sobre gênero e indicadores sociais sobre as mulheres no Brasil.

Mas a situação é bem diferente quando se trata de mulheres em cargos de chefia do executivo municipal. Um levantamento feito pela agência Saiba Mais, logo após o resultado das eleições de 2020 e publicado em reportagem, mostra que as mulheres perderam espaço à frente das prefeituras do estado. Enquanto nas eleições de 2016, 47 mulheres se tornaram prefeitas, em 2020, esse número caiu para 37, o equivalente a 22% dos 167 municípios do Rio Grande do Norte. Apesar da queda, o RN ainda está acima da média nacional já que, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, em apenas 12% dos municípios brasileiros, candidatas mulheres venceram as eleições de 2020.

“A dificuldade da mulher para participar da política é, primeiramente, estrutural, porque é preciso ter uma rede, Eu sou mãe, por exemplo, e hoje falo muito nesse debate das creches porque é um suporte para que a gente possa ocupar esses espaços e nos sentirmos seguras. Quando comecei a participar nos movimentos sociais, conheci o movimento feminista e me identifiquei com isso, entendi a importância da participação da mulher e da representatividade. Esses espaços, muitas vezes, não têm mulheres negras e das comunidades. A própria história mostrou pra gente que, apesar de sermos um estado pioneiro nessa questão, para participar as mulheres tinham que comprovar renda e ter uma série de instrumentos que outras mulheres não tinham. Hoje isso continua né. Como uma mulher que está na periferia e não tem nem o dinheiro da passagem vai participar?”, questiona a vereadora Divaneide Basílio (PT), que está em seu segundo mandato na Câmara Municipal de Natal.

Divaneide avalia que as formas de discriminação, seja ele a desigualdade social, o machismo ou o racismo, continuam sendo barreiras significativas no caminho das mulheres que se interessam por política, mas que vêm sendo superadas aos poucos.

“Pra mim não foi diferente, vivenciei momentos na Câmara (de Natal) em que ouvi gritos, fui mal tratada, tive que me posicionar mais duramente, como nunca havia feito na vida. É um espaço que ainda reproduz machismo e onde precisamos nos colocar de forma muito firme. Mas, também tivemos muitas conquistas como a ampliação da participação das mulheres nas câmaras municipais do Rio Grande do Norte nessa última eleição. Essas dificuldades que encontramos da violência ou da indiferença com que nos tratam tem sido desbancadas pela nossa luta. Cada vez que apresentamos um projeto de lei, abrimos um local de debate na Câmara, seja sobre transporte público, enfrentamento à violência ou atualização do Plano Municipal de Políticas para as Mulheres“,

Quem também está na Câmara Municipal na atual legislatura é a vereadora Júlia Arruda, do PC do B. Em seu quarto mandato, ela conta que conseguiu acompanhar um pouco da evolução e crescimento do número de mulheres na Casa.

“A gente fala de um país em que ainda há baixa participação de mulheres nas casas legislativas, apesar de sermos a maior parte do eleitorado. Aqui na Câmara não é diferente, mas hoje temos uma das maiores bancadas representativas. Quando me candidatei em 2008, foi muito nesse sentido. Algumas legislaturas não tinham uma única mulher na Câmara. Então, fui muito estimulada por isso de ser a representante das mulheres e a voz da juventude. No meu 1º mandato foram duas vereadoras eleitas, no segundo já foram quatro, no terceiro mandato foram oito vereadoras e nessa atual legislatura são sete eleitas. Antes, a Câmara não era tão aberta aos temas relativos aos direitos das mulheres e eu acredito que a própria presença dos mandatos femininos estimula essa participação”, avalia Júlia Arruda, vereadora na Câmara Municipal de Natal pelo PC do B.

Júlia também lembra do pioneirismo das potiguares. A primeira mulher a votar na América Latina foi a professora Celina Guimarães, de Mossoró, em 19290. Além dela, Alzira Soriano, também deixou seu nome na história como a primeira mulher a ser eleita prefeita no Brasil, no município de Lajes.

“Quando comecei eu sabia do meu papel de representatividade que tinha ali e em nenhum momento me deixei abater por um universo tão masculino e machista. É ao saber esse papel, de posição de fala que pudemos estabelecer uma pauta de discussões que antes tinham pouco espaço. Para estar aqui hoje, muitas mulheres passaram por situações difíceis e quebraram muitas barreiras. Precisamos fazer jus ao pioneirismo do nosso estado de colocarmos mais mulheres à frente das decisões, discussões e espaços de poder”, incentiva a vereadora.

RN tem menor número de professoras universitárias

A discrepância de gênero não se limita apenas à política e está presente, também, na vida acadêmica. No Rio Grande do Norte, as mulheres ocupam 46,2% dos cargos de professora de ensino superior. Essa é a menor proporção do Norte e Nordeste do país, ao lado do Amapá (46,2%) e próximo da média brasileira (46,8%).

Ainda segundo o estudo do IBGE, as instituições de ensino superior potiguares têm 3.333 professoras e 3.888 professores. Os dados incluem universidades, centros universitários, faculdades e institutos federais. No outro extremo do ranking, aparece São Paulo com 43,4% de professoras de ensino superior.

Em matéria publicada em 31 de janeiro, a Agência Saiba Mais já apontava que as mulheres ocupavam menos cargos de chefia na ciência. Entre os motivos apontados pelas pesquisadoras entrevistadas, estava a forma de seleção utilizada pela academia, que privilegia um modelo de vida masculino.

“As mulheres são menos produtivas? Têm menos liderança? Menos mérito? Não! O que acontece é que essa é uma avaliação que leva em conta a produtividade e exige um compromisso de tempo integral com o trabalho, relações acadêmicas competitivas e um profissional mais dedicado à pesquisa do que a si mesmo e à família. As mulheres acabam tendo que se adaptar para serem bem sucedidas na carreira”, comentou na época Sibele Pergher, pró-Reitora de Pesquisa da UFRN.

Passando para os dados nacionais, no grupo de pessoas com 25 anos ou mais, 15,1% dos homens e 19,4% das mulheres tinham nível superior completo em 2019. Porém, as mulheres representavam menos da metade (46,8%) dos professores de instituições de ensino superior do país.

Elas também são minoria nos cursos de graduação ligadas às Ciências Exatas. Apenas 13,3% dos alunos de Computação, Tecnologia da Informação e Comunicação, por exemplo, são mulheres. Enquanto isso, cursos como Serviço Social têm 88,3% de estudantes mulheres. E confirmando o levantamento feito com dados locais, no Brasil, mesmo com maior nível de instrução, as mulheres ocupavam 37,4% dos cargos gerenciais e recebiam até 77,7% do rendimento dos homens.

As pesquisadoras Natália Mota (de blusa vermelha) e Fernanda Palhano (3ª da direita para a esquerda) ao lado de parte da equipe de cientistas do Instituto do Cérebro da UFRN I Foto: José Paiva Rebouças

Filhos X Carreira

O estudo do IBGE também traz dados relacionados ao mercado de trabalho. Mulheres têm menor chance de conseguir emprego quando têm filhos. As mulheres entre 25 e 49 anos que viviam com crianças de até três anos de idade, tiveram em 2019 um nível de ocupação de 54,6% no Rio Grande do Norte. Homens, nessa mesma situação, apresentavam uma ocupação de 89,2%. Já em residências onde não há presença de crianças, nesse mesmo grupo etário entre os 25 e 49 anos, a ocupação das mulheres sobe para 67,2%, enquanto a dos homens cai para 83,4%. A situação é ainda mais complicada para mulheres negras ou pardas com criança de até três anos em casa. Elas têm uma taxa de ocupação de 49,7%, a menor entre os grupos avaliados.

Tarefas domésticas

Também é sobre as mulheres que recai o peso das jornadas múltiplas para dar conta de casa, trabalho, filhos (para quem tem), estudos (para quem segue nessa luta) e parentes doentes porque, afinal de contas, também ficou conosco a carga de cuidar dos familiares que têm adoecido durante a pandemia do novo coronavírus. Com tarefas domésticas, as mulheres gastam quase o dobro de tempo (21,4 horas) que os homens (11 horas) passam fazendo esse tipo de atividade durante a semana.

“Com a pandemia, as mulheres tiveram que enfrentar situações ainda mais adversas como um ano sem aula com os filhos dentro de casa, o que não é fácil. As mulheres também ficaram mais vulneráveis à violência doméstica, como as estatísticas mostram. Além disso, muitos dos profissionais que estão na linha de frente no combate à pandemia, são mulheres”, lembra Júlia Arruda.

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