OPINIÃO

Robinhos

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Se existe algo como uma elite de Natal, ela vocalizou o autorretrato nos cânticos dos torcedores maristas em jogo do seu time de basquete contra o do IFRN Central, na semana passada. Há relato de que a torcida do IFRN sacaneou primeiro, cantando que pais e mães dos rivais ‘pagam’ a educação de quem está na escola pública. A do Marista retrucou o sarro com bordões de classe, retratando as mães do IF como empregadas da mamãe e amantes do papai. Para não deixar dúvidas quanto ao que representa e ao que deseja como classe, cantou também seu projeto de país: Bolsonaro 2018.

O episódio é um raro flagrante no mundo real das guerrilhas de ódio que infestam as redes sociais, da política à religião, da economia à cultura, do sexo ao escambau. É também a primeira contribuição potiguar ao bestialógico nacional que se vai sedimentando sob o tsunami regressivo gerado pela ascensão do poeta Michel Temer e sua camarilha.

Até então éramos citados no noticiário da Grave Crise pela porta da política, como estado de políticos buliçosos, citados em escândalos municipais, estaduais e federais, e de gestores descabeçados que transformaram o RN em case de desastre. Uma contribuição significativa, se pensarmos nas grifes envolvidas, mas ainda circunscrita à política. Faltava um toque de gente comum, mesmo essa que se pretende incomum, para a gente ostentar e virar top: yes, nós bebemos o leitinho anabolizado de preconceito, obscurantismo e prepotência. Não falta mais: somos estupidamente brasileiros.

O extrato concentrado de ódio de classe sinaliza o que deve ser o futuro do Rio Grande do Norte, se continuar o predomínio da elite conservadora e predatória representada pela torcida marista. Ali estarão alguns dos novos “inhos” candidatos a perpetuar a tradição do filhotismo na política. O Estado destruído progressivamente por governos de mesmíssima extração ideológica, com variações só de sigla, continuará a sê-lo.

Há famílias já na quinta ninhada de parlamentares e/ou gestores, e continuamos a não aprender e a perder com isso. Parece que, de geração em geração, o nada se multiplica. O sarrafo já foi bem mais alto. Hoje qualquer robinho bota marra de neymar. E assim, desvalidos, de robinho em robinho, acabamos todos na torcida do basquete, xingando a mãe dos outros.

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Jornalista e Poeta