OPINIÃO

Rock In Rio: Eu fui e fui hackeado

“Se a gente se juntasse pelo mundo como a gente se junta pela música?”

Com essa pergunta singela, um dos vídeos promocionais do Rock In Rio começava uma sequência empolgante e supostamente inspiradora de imagens e sons que hipnotizavam qualquer um. O vídeo passava na TV, na internet e tinha versão para o rádio. Uma pérola da poesia capitalista e empreendedora. O objetivo final, tudo #PorUmMundoMaisBonito.

A beleza põe a mesa de grandes empresas de cosméticos como a Natura, o Multishow ou a Sky, sem falar nas marcas de bebidas e comidas que ocupavam a Cidade do Rock com estandes super iluminados e decorados que quase chamavam mais atenção que as atrações principais. Tudo está à venda no Rock in Rio. E foi nessa que eu fui hackeado.

Não, não hackearam meu celular ou clonaram meu cartão do banco. Fui eu mesmo quem fui hackeado, com corpo e tudo!

Para participar do mundo mais bonito do Rock In Rio, era preciso “implantar” chip no próprio corpo. Ele tinha a discreta forma de uma pulseira. Bonita e colorida. Uma vez colocada, não poderia mais ser removida. Na pulseira, um pequeno cartão de plástico com um singelo QR code e um número. Ainda não dava para saber, mas ali estava o chip que controlaria todos os seus movimentos, antes mesmo de chegar ao palco de um dos principais festivais de música do país.

Chip que precisava estar registrado e associado a um CPF, pessoal, intransferível e indispensável para toda e qualquer ação que qualquer um de nós fazia a caminho ou dentro da cidade do Rock.

O mapeamento começava ainda no metrô, quando funcionários do festival abordavam os passageiros “implantados” para garantir que eles tivessem saldo suficiente no cartão do metrô para ir e voltar para casa. Quem optava pelo serviço de transfer privado precisava instalar um aplicativo e escanear o chip para poder embarcar.

Dentro do festival, o chip garantia acesso às atrações do parque de diversões, aos shows de teatro, aos jogos de fliperama e video games e até aos bares e restaurantes. Sem falar nos banheiros, que eram capazes de detectar, até mesmo quem estava ocupado no número 1 ou quem chegou às vias de fato do número 2.

Não descobri muita coisa sobre a tecnologia envolvida em todo o processo. Tudo o que contei, foi fruto da minha própria experiência. Mas posso imaginar o volume de dados que circulou pela sala de controle do festival. Dá até para perder o sono imaginando como os organizadores do festival poderão usar as informações detalhadas sobre o comportamento das 700 mil pessoas que circularam no Parque Olímpico do Rio de Janeiro durante os dois fins de semana de espetáculos.

Eles podem facilmente saber quantas cervejas cada CPF consumiu, podem associar as movimentações do CPF e saber depois de quantas cervejas ele precisou ir ao banheiro. Talvez seja possível saber quantos passos cada CPF deu ao longo da festa, quantos gramas cada um consumiu, quais pratos fizeram mais sucesso, quais bandas reuniram maior número de fãs, quantas pessoas subiram a roda gigante, desceram a tirolesa ou despencaram no brinquedo discovery (e talvez até quantas pessoas e quais delas precisaram vomitar depois?).

Tudo isso associado ao CPF de cada um.

Aí você diz: tudo bem! Não tenho nada a esconder!

Talvez os organizadores do Rock In Rio pretendam apenas usar tantas informações para melhorar a estrutura da festa nas próximas edições. Talvez eles só queiram melhorar a precisão das avaliações de sucesso das ações de marketing ou talvez sejam entusiastas da tecnologia de identificação por rádio frequência e queiram desenvolver novas aplicações.

E é aí onde mora o perigo. Qualquer um desses objetivos pode trazer consequências terríveis às liberdades individuais (tão defendidas pelos liberais capitalistas). Ainda mais em um país que não protege os dados dos cidadãos e mal limita o uso dessas informações por empresas e organizações.

Só espero que nenhum hacker encontre os servidores onde o Rock In Rio vai guardar tudo isso (e que não me venha com chantagens para que eu esconda minha suposta presença no stand da Globo ou na roda gigante do Itaú). Espero também que o mundo não se inspire nessas ideias, pois nada de bonito pode sair de tanto controle e vigilância.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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