OPINIÃO

“Romantismo” e humor progressista fortalecem Bolsonaro e Direita

Ok, não será um texto dos mais agradáveis e vou acabar magoando ou irritando gente querida, bem intencionada (acima de tudo), bem humorada e que pensa parecido comigo e que vive de maneira semelhante a minha. Mas, a intenção não é a polêmica pela polêmica, mas uma reflexão.
 
De que o modus operandi de humor em demasia, romantismo na maneira de ver a vida e argumentação desconectada da realidade acaba gerando um desserviço às pautas progressistas no momento em que mais se precisa delas e faltando pouco mais de 60 dias para eleições em meio a um Golpe em curso.
 
É certo que o bom humor deve persistir em tempos difíceis. Mas, o excesso de memes (quase sempre ridicularizando políticos de Centro/Direita como Bolosnaro e Aécio) compartilhados ad nauseum no Facebook, Twitter e Zap não acrescentam em nada ás bandeiras de Esquerda e não arregimentam simpatia ou uma só intenção de voto, pelo contrário, deve aborrecer muita gente conservadora/direitista e impedir qualquer possibilidade de diálogo.
 
Mas, citei acima Bolsonaro, e sobre ele, ou melhor, da relação que o militante progressista tem com ele, é preciso que se analise com mais calma. Tenho há algum tempo e já expus esse pensamento nas redes e nos debates com amigos, a convicção de que parte do crescimento do deputado fascista/racista/machista/xenófobo pode ser creditada à militância progressista. Que há dois anos mantém o nome dele na mídia, seja divulgando vídeos, compartilhando links de matérias sobre suas ideias e ações ou, como já dito mais acima, os memes supostamente bem humorados e/ou irreverentes.
 
Houve dias que na minha timeline no Facebook contei doze, quinze posts envolvendo Bolsonaro, todos, sem exceção, oriundos de gente de Esquerda que, supostamente, estava denunciando ou criticando o presidenciável.
 
Nesta denúncia/crítica, é necessário um registro, que engloba o tal romantismo na visão de mundo que boa parte de gente querida têm: Esse pessoal posta em um grupo familiar ou profissional de Zap ou em páginas públicas no Facebook, por exemplo, matéria sobre Bolsonaro ridicularizando os negros e completa citando-o como racista e que ele despreza negros como se a totalidade dos receptores da mensagem fossem todos antirracistas e pensassem “Ah, agora que sei que Bolsonaro odeia negros, não vou mais votar nele”.
 
Mas, a premissa é justamente o oposto: a mensagem muitas vezes vai justamente para quem é racista, assumida ou dissimuladamente, e que após a matéria reforça sua intenção de voto em Bolsonaro. O mesmo raciocínio pode ser aplicado para “salário menor para mulheres porque engravidam”, “na quinta dei uma fraquejada e veio uma menina” ou “tem que dar porrada no menino para ele não virar gay”. Não se trata de teoria, falo de prática. Saí de um grupo de Zap de família porque um primo legítimo concordou que faltava para muitos meninos afeminados era porrada mesmo. 
 
Resumindo: As denúncias do pessoal progressista bem intencionado em nada serviram para quem já despreza Bolsonaro e combate o que ele pensa, e, por outro lado, só serviram de combustível para preconceituosos confirmarem seus votos. Com o agravante que os debates acalorados ainda podem ter feito eleitores menos fiéis de Bolsonaro se transformarem em militantes.
 
Entra aí outro viés do romantismo e desconexão com a realidade: O hábito de tratar os eleitores de Bolsonaro como “jumentos”, “analfabetos”, “ignorantes” e compará-los a seguidores de Hitler e à bosta, como já vi diversas vezes, não apenas queimou os navios para qualquer diálogo com eles como transformou-os, por reação óbvia, em militantes. Não é postando um vídeo que se vai mudar a cabeça de quem já tem uma predisposição natural para concordar com o que é dito nele, ainda que seja algo abjeto. 
 
Registrando que o que escrevi nos três parágrafos anteriores vale 100% na ordem inversa para os eleitores e simpatizantes de Lula, ofendidos, criticados e ridicularizados à exaustão pelo pessoal AntiPT.
 
Parte dos jornalistas e gente ligada á política com quem conversam acreditam que no Brasil fraturado de hoje, pelo menos 30% da população é de militantes de Esquerda ou pessoas com simpatia pelas bandeiras defendidas por ela. Igual número, 30% é o de conservadores e gente de Direita, seja truculentos que querem intervenção militar ou o eleitor clássico do PSDB, moderado mas antiPT e louco por uma política econômica Liberal.
 
Sobra os restantes 30%, ou melhor, 40% que seria, como se diz nos EUA em épocas de eleição, os “pendulares”, que oscilam ora para a Esquerda, ora para a Direita, mais pelas pessoas envolvidas e pela questão econômica do que por “ideologias”.
 
Caberia aos militantes progressistas, identificar as pessoas desta faixa pendular e propor diálogo, apresentar ideias.
 
Falar para os “convertidos” ou arrumar briga real ou virtual com o lado oposto mantendo o candidato deles sempre na mídia, beira a infantilidade.
 
Repetindo: Faltam pouco mais de 0 dias para a eleição, possivelmente a mais importante das últimas décadas. Hora de se agir dada a importância do momento e deixar o humor e os memes para outra oportunidade. A pauta Progressista agradece.
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2 Comments

  1. Pessoal de Natal inteiro deveria ler esse post. Todo o pessoal que discorda de Bolsonaro já sabe de cor os podres dele, esses posts já fizeram o efeito esperado nessas pessoas. Concordo que o papel deles agora é fortalecer cada vez mais o apoio da Direita ao deputado, além de elevar esse apoio a outro patamar.

  2. Concordo plenamente contigo, Cefas. Até dá cócegas na ponta dos dedos pra responder ou compartilhar post envolvendo o tal candidato B…, mas, evito sempre. Nunca, numa época pré-eleitoral, me controlei tanto, contra tão poucos, apesar de ter tantos argumentos contra ele e toda a hipocrisia que o envolve. Prefiro mais divulgar post e reportagens com o candidato que admiro no momento, do que dar espaço a quem não merece.

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