OPINIÃO

O desafio de romper as barreiras da universidade e falar para muitos

Estrear uma coluna é uma grande responsabilidade e uma tremenda honraria. Ainda mais quando minha estreia enquanto colunista coincide com a estreia de todo um projeto. Um desafio ainda maior, que recebo com felicidade.

Quando fui convidada para compor esse corpo editorial, não pensei duas vezes, aceitei de imediato pois venho sendo perseguida pela necessidade de escrever para atingir públicos mais amplos, que vão além daqueles que nós, pensadores da universidade, usualmente atingimos, acostumados que estamos a dialogar com o público de especialistas sobre questões que soam muitas vezes um tanto quanto esotéricas.

Uma preocupação que surge desde há muito na minha trajetória acadêmica, como na minha passagem do Mestrado para o Doutorado, quando me senti farta de discutir uma problemática que parecia não interessar ao grande público, a sociedade em geral, e somente aos teóricos da filosofia da história.

Apesar de todos os méritos intelectuais do trabalho – a defesa da dissertação com conceito “A” e a posterior publicação do trabalho em livro – eu queria mudar de tema, queria dialogar com demandas que atingissem as pessoas, promovendo reflexões que mudem e melhorem suas vidas. Afinal, se a ciência não está aqui para fazer desse mundo um lugar melhor para vivermos, para que serve ela então? Para ficar inteligentes, podemos ficar em casa ou frequentar outros espaços que não necessariamente a universidade. Para se tornar culto, basta ler bons livros, assistir peças de teatro e filmes maravilhosos, engajar-se em projetos sociais que nos sensibilizem e nos impulsionem a fazer algo, dentre tantas outras atividades que enobrecem o espírito e ampliam nossos horizontes.

Munida dessa compreensão, ao entrar no Doutorado, decidi mudar radicalmente de objeto de pesquisa: de um filosofo alemão para a cantora brasileira Clara Nunes. Com ela, eu sabia que teria algo a dizer e que seria relevante não só pra o mundo acadêmico, mas acima de tudo para as pessoas que não estão na universidade. Pessoas que representam, evidentemente, a grande parcela da população brasileira que não está no meio acadêmico, mas que o financia com o dinheiro dos seus impostos.

E como podemos dizer algo interessante, pertinente e transformador para essas pessoas?

Encontrei a resposta na escrita engajada. Eu já atuava em movimentos sociais desde os 12 anos de idade quando entrei no movimento estudantil secundarista. Transitei para o movimento estudantil universitário com a entrada na UFRN e, no decorrer da primeira década desse século, me engajei nas lutas pelos direitos dos LGBTs e pela mudança da política de drogas do Brasil. A sensação que eu tinha era a de coerência. Clara Nunes foi uma artista engajada na luta contra a ditadura e contra os preconceitos de raça, classe e religião. Na minha análise sobre sua obra e trajetória, percebi que a escrita acadêmica tinha muito a aprender com o fazer artístico, como a sensibilidade e acuidade para captar as questões sutis, profundas e prementes da vida social.

Como podia eu, escrevendo sobre tão bela trajetória não me inspirar e não me engajar nas lutas – por muitas desilusões, eu havia abandonado o movimento estudantil – que eu sentia tão presentes em minha vida? O resultado foi uma overdose de engajamento. Em 2009, fundamos na universidade, o GUDDES (Grupo Universitário em Defesa da Diversidade e Expressão das Sexualidades) e, em 2010, o Coletivo Antiproibicionista Cannabisativa. Dois espaços que dizem muito sobre a minha história: por ter sido a primeira mulher trans a ser professora em uma universidade pública no Brasil – na UERN em 2012 e na UFRN em 2013; além da minha experiência pessoal com uso de psicoativos e da minha percepção sobre o preconceito moral que interdita o uso dessas substâncias, mesmo quando a ciência demonstra, de maneira contundente, que muitos dos supostos malefícios de tal uso, cada vez mais se revelam como benefícios bio-psico-socio-culturais.

Partindo do entendimento de que a pior droga é a proibição, que produz violência e desinformação, o Coletivo Cannabisativa fundou o que é, hoje, um dos espaços de debate mais respeitados dessa temática no Brasil: o ciclo de debates antiproibicionistas da UFRN, que chegou esse ano à sua oitava edição.

Trata-se de um espaço libertário, onde ideias revolucionárias e transformadoras vem tomando corpo, e que colocam a UFRN e seus participantes na vanguarda de um debate que cada vez mais se impõe como central e decisivo para as nossas sociedades contemporâneas. Nesses oito anos, o ciclo de debates antiproibicionistas recebeu alguns dos nomes mais proeminentes desse debate no Brasil, tais como Elisaldo Carlini, Edward MacRae, Oswaldo Fernandez, Renato Malcher, Antonio Nery Filho, Sidarta Ribeiro , Rodrigo Mac Niven, dentre outros cientistas e (ou) ativistas.

Na edição deste ano, realizada no Campus da UFRN entre 22 e 24 de agosto, recebemos 21 convidados representando um terço dos estados do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Tocantins, Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte). Isso significa que três, das cinco regiões do Brasil também estavam representadas (Norte, Nordeste, Sudeste), o que nos leva a concluir que estamos diante de um dos mais importantes espaços de debate de política de drogas no Brasil.

Também a agência Saiba Mais configura-se como um lugar livre de preconceitos morais, onde o debate livre se constitui como regra, onde o louvor das virtudes da democracia e do debate libertário são valorizados e cultivados. Dentro de um contexto de retrocessos democráticos em que vivemos, com o avanço do fascismo, do fundamentalismo, das intolerâncias, das marchas que pedem a volta da ditadura e do golpe contra a soberana vontade popular expressada no voto – golpe que só foi possível graças à manipulação da informação e do discurso promovida pelos grandes oligopólios midiáticos do país – faz com que a emergência do Saiba Mais seja um campo privilegiado para que o debate livre prospere, colocando mais um tijolo no edifício de construção de uma imprensa livre, promovendo as fissuras tão necessárias para a construção de um Brasil democrático, empoderado, consciente da necessidade de preservar os direitos humanos, as liberdades individuais, e as garantias sociais. Fora Temer, Fora Cunha, Fora golpistas, viva a democracia e a liberdade de expressão que não seja intolerância e opressão.

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Historiadora e Militante LGBT