ENTREVISTA

Ruy Castro: “João Gilberto teria feito a Bossa Nova sem o Tom e o Vinícius”

O jornalista e escritor Ruy Castro não tem dúvidas sobre o artista mais importante da Bossa Nova. Para ele, o baiano João Gilberto, morto dia 6 de julho, era o próprio movimento musical, criado nos anos 1950, cujo marco foi “Chega de Saudade”, composição de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Com uma batida diferente ao violão, João Gilberto bastava para a bossa:

– João Gilberto era a própria Bossa nova, ele teria feito a bossa nova sem o Tom e sem o Vinícius. Mesmo que o Tom e o Vinícius não tivessem feito nenhuma música, ele teria feito a Bossa ova só com as musicas que tinha na cabeça dos anos 30 e 40”, afirmou o jornalista no jardim da Casa Folha, em Paraty, logo após participar de uma mesa com escritora e companheira dele Heloísa Seixas.

Ruy nunca faltou a nenhuma das 17 edições da Festa Internacional de Literatura de Paraty (Flip). O biógrafo de Nelson Rodrigues veio como convidado da curadoria oficial na primeira e na quarta edições e, nas demais, integrou a programação paralela realizada pelo jornal Folha de S.Paulo.

Sobre a imagem ranzinza que marcou o final da trajetória musical de João Gilberto, o autor do livro “Chega de Saudade” diz não considerar o compositor baiano mal-humorado e que não seria justo julgá-lo por tal comportamento:

 – As pessoas têm temperamento diferente, desde criança ele era assim. Não era ranzinza, as pessoas é que são diferentes. João Gilberto gostava de ficar em casa, trancado, receber só algumas pessoas, e ele tem que ser respeitado por isso. Alguns são mais agregáveis, depende muito da pessoa, ele era assim.

Castro também discorda de quem defende que o maior feito de João Gilberto foi ter ajudado a internacionalizar música brasileira, a partir da bossa nova:

– Não acho. A grande importância foi ele ter feito a música. Que os outros tenham gostado lá fora é só consequência. A importância foi ele ter feito”, afirma.

O jornalista está imerso em seu mais novo trabalho. Em dezembro de 2019, a editora Companhia das Letras lança o próximo livro de Ruy Castro, sobre o Rio de Janeiro dos anos 1920. Castro conta que não tem tido tempo nem para acompanhar o jornalismo:

– Não acompanho o jornalismo hoje. Estou tão envolvido com o meu trabalho que não acompanho. Só leio jornal, e mal, porque estou muito envolvido. Será um livro sobre o Rio dos anos 20 que está saindo no final do ano”, limitou-se a dizer.

Articulista semanal do jornal Folha de S.Paulo, Ruy Castro parece sempre irritado. A maioria das críticas são direcionadas aos políticos, em especial os presidentes da República. Questionado sobre o governo Bolsonaro, define como “uma porcaria” e diz que a avaliação se estende para os demais antecessores:

– Eu acho uma porcaria, mas não quero falar sobre isso, é muito desagradável falar sobre isso. Qualquer um deles, a política. Sempre detestei todos eles, não é novidade pra mim, não. Também não gostava nem do Fernando Henrique, nem do Lula, nem da Dilma, nem do Temer, não gostava de nenhum deles”, afirma.

Pergunto se a reação não seria decepção com algum desses governos, em especial a gestão do ex-presidente Lula, um dos principais alvos do jornalista. O escritor diz que escrevia sobre o que via, mas que agora quer cuidar da própria vida:

– Estava observando aquilo tudo, né ? Qualquer pessoa decente, honesta observando aquilo tudo tinha que ser contra. Depois com a Dilma continuou, com o Temer também não melhorou nada, como ficou provado com as gravações contra ele. Com o Bolsonaro também não muda nada, então, quer dizer, trato da minha vida, eles que tratem da vida deles”, diz.

Ruy Castro tem pouca esperança no Brasil, mas destaca que às vezes o país encontra um caminho próprio:

Tenho muito pouca esperança no Brasil, infelizmente. Agora o Brasil é um país cíclico. Alguma coisa acontece, independente do governante, então se cria um estado de euforia, as pessoas começam a acreditar e o país dá um avanço. Isso aconteceu no tempo do Lula para algumas pessoas, aconteceu no Rio em relação à época do Sérgio Cabral, a gente achava que a coisa estava sendo feita de maneira correta. Mas depois você descobre que aquilo tudo era uma bolha. Como a perfeição não existe, e nunca vai existir, a gente tem que ir levando no dia-a-dia tentando fazer o melhor possível”, reflete.

As denúncias contra ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral surpreenderam Ruy Castro. Ele diz que, ao redor dele, ninguém desconfiou das falcatruas cometidas pelo filho de um de seus amigos, o também jornalista Sérgio Cabral.

– Fiquei surpreso. Ele se cercou de vereadores, secretários de Estado, empresários e fiscais nos tribunais de contas. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Sou amigo de algumas pessoas muito bem informadas que não sabiam o que estava acontecendo, conta.

Para o escritor, o papel de festivais como a Flip é promover o encontro entre autores e público:

– Ter o encontro entre o escritor e o público, só nesses encontros é possível. O cara compra o livro na livraria, lê, se empolga e gostaria de ver quem é a pessoa. Sem dúvida estimula a leitura. Imagino que alguns escritores sejam decepcionantes (risos), mas talvez outros sejam melhores”, diz.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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