ENTREVISTA

Sandro Pimentel: “O PSOl vai lutar para eleger 10 vereadores e três prefeitos em 2020”

Nas contas do deputado estadual Sandro Pimentel, o PSOL vai lutar para conquistar três prefeituras e eleger 10 vereadores no Rio Grande do Norte em 2020. Ele reconhece que a meta é ousada, mas está disposto a enfrentar o desafio. Das candidaturas aos parlamentos municipais, ele está certo de que o Partido elege dois vereadores em Natal e tem grandes chances de conquistar uma terceira vaga. Sobre a prefeitura da capital, não confirma nem descarta o próprio nome. Mas deixa claro que, se depender dele, o candidato do PSOL não será o professor Robério Paulino, com quem teve desavenças públicas agravadas desde o final de 2018.

Eleito com 19.158 votos, Sandro Pimentel vive a expectativa do julgamento de um recurso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) relacionado ao processo no qual o Ministério Público tenta cassar o mandato dele por irregularidades nas contas de campanha. Reconhece erros, mas não ao ponto de ter o mandato popular arrancado pela Justiça. O julgamento está previsto para o segundo semestre de 2020.

Enquanto isso, Sandro e equipe vêm trabalhado. Ele foi o deputado que mais apresentou projetos de lei na Casa. Foram 67 no total, sendo 16 já aprovados e 13 sancionados pela governadora Fátima Bezerra.

Nesta entrevista a agência Saiba Mais, o deputado estadual Sandro Pimentel fala sobre eleições, avalia o primeiro ano de mandato, diz o que pensa sobre a Reforma da Previdência e revela até quem é seu inimigo na Assembleia Legislativa:

Agência Saiba Mais – Seu nome vem aparecendo nas últimas pesquisas para a prefeitura de Natal e, dependendo do cenário, com quase 5% de intenções. Você ainda não disse publicamente se vai ser candidato a prefeito. O candidato do PSOL à prefeitura será o Sandro Pimentel ?

Sandro Pimentel – Eu pertenço a um partido, do qual sou fundador. Fui presidente estadual três vezes, me identifico no PSOL. Então eu sigo aquilo que o Partido manda. Se você me perguntar: “Sandro, você deseja ser candidato?” Eu vou dizer que não, não tenho essa vontade, nem pretensão. “Ah, mas você se acha preparado para ser prefeito de Natal ?” Razoavelmente, sim. Porque conheço muito bem como funciona, moro aqui desde os 13 anos de idade, gosto muito da administração pública, tenho mestrado e especialização em gestão pública, venho me preparando. Já fui candidato a prefeito e governador. Eu me sinto preparado, mas queria dar um tempo, descansar, porque eu venho de várias eleições e há um desgaste pessoal, familiar. Meus familiares não vêm da política, alguns não aceitam, não gostam… então eu enfrento muito isso, há uma resistência. Queria me dar o luxo de ficar dois anos sem participar do processo eleitoral, mas eu sou partidário. Se disserem “é você” eu vou pedir para que não seja, temos outros nomes, até nomes novos… estou pedindo para não me darem a tarefa, que é honrosa, de ser candidato a prefeito de Natal. Vou pedir para ser votado. Só não tenho como descartar porque, como falei, eu sigo o que o Partido mandar.

Outro nome de projeção do PSOL é o do professor Robério Paulino. Você e ele tiveram um embate público após as eleições que resvalou para o campo pessoal. Você apoiaria o nome dele para a prefeitura ?

Robério é do PSOL e o candidato ou candidata que o partido escolher, óbvio, que eu vou apoiar. Não gostaria que fosse ele e, se depender de mim, não será. Mas se o Partido escolher, óbvio que eu estarei lá, na linha de frente, defendendo a candidatura.

A única prefeitura que o PSOL administra no Brasil é na cidade de Jaçanã, no Rio Grande do Norte. Eram duas, mas o prefeito de Janduís pediu desfiliação. Qual é o projeto do PSOL para 2020 ?

Vou dizer uma meta minha, do Sandro Pimentel, porque o PSOL ainda não discutiu isso. Hoje temos uma prefeitura e três vereadores, em Janduís e Currais Novos. Minha meta pessoal e reconheço que é ousada é eleger 10 vereadores e chegar a três prefeituras. Queremos retomar Janduís, manter Jaçanã e conquistar outra prefeitura que nós achamos que temos boas chances.

De qual município ?

Por enquanto, essa você não vai levar não (risos).

Natal ?

Em Natal a gente quer ir para o 2º turno. E aí tudo pode acontecer.

E quantos vereadores em Natal o PSOL espera eleger ?

 De dois a três. Dois a gente acredita muito que tem condições de fazer, já o terceiro vamos lutar.

O PSOL geralmente disputa eleições na proporcional sozinho, sem alianças, exceção a 2012, quando a coligação com o PSTU ajudou o Partido a eleger você e o Marcos do PSOL na esteira do fenômeno Amanda Gurgel. Essa nova regra eleitoral que acaba com as coligações na proporcional é boa ou ruim para o Partido ?

Então… se você treina com um time há muito tempo e vai jogar com outro que nunca treinou, quem leva vantagem ? Quem vem treinando. Sempre caminhamos em faixa única e já sabemos como fazer. Os outros não, sempre faziam alianças e estão desnorteados. Vão entrar pela primeira vez com um time que nunca treinou. Então acho que a gente leva vantagem nesse processo. Estou sabendo que tem partido grande com dificuldade para montar chapas, já nosso Partido não. Já temos 33 nomes numa chapa em Natal e nossa meta é ultrapassar 40. E com a ausência de Maurício (Gurgel) isso facilitou porque quando tem alguém com mandato as pessoas ficam receosas achando que a candidatura vai apenas bater esteira para outro candidato mais forte, com mais visibilidade. Hoje não temos ninguém com mandato. Agora podemos surpreender bem. Minha meta pessoal é que a gente eleja 10 vereadores no Rio Grande do Norte.

 A saída do vereador Maurício Gurgel do PSOL foi tranquila ?

Foi tranquilo, ele veio aqui conversar comigo, não estava se sentindo bem, perguntou se geraria algum desconforto se deixasse o PSOL. Um Partido é como um time de futebol, uma religião, você torce e apoia aquele que você acredita. Na hora que você não está se sentindo bem, sai. Foi tranquilo. O Partido decidiu fazer uma carta e está esperando que o TSE oficialize. Vida que segue.

Você viveu a expectativa no final de 2018 de não assumir seu mandato por conta de um processo que ainda tramita no TSE. Como você terminou esse primeiro ano ?

Terminei 2019 muito satisfeito, tranquilo, com a certeza de que fizemos um grande mandato. Foi o mandato que mais apresentou projetos de leis, 67 no total. Desses, 16 já foram aprovados e 13 promulgados. O mais importante de tudo isso é que não nos abatemos. O processo tramita ainda, nossa expectativa é de que o julgamento seja realizado no início do segundo mestre. Eu poderia esperar acontecer, mas continuamos trabalhando, ganhamos mais energia. Para além da produtividade interna, e como eu sou militante, o que mais me deixa feliz é estar em contato com o povo. Tem dia que deixo o carro aqui (na Assembleia Legislativa) e vou de ônibus para casa.

E como é a reação ?

Algumas pessoas reconhecem, perguntam porque eu estou na parada, pedem para tirar foto, o motorista parabeniza. E isso serve de termômetro também.

Alguma animosidade ?

Nenhuma. Pelo contrário, as pessoas se surpreendem, alguns ficam cochichando. Só fico tímido quando o motorista me anuncia como “uma autoridade”. Eu não gosto disso, é como quando vou a igreja. Digo logo para o pastor que vou ficar sentado ali, acompanhando e que não precisa anunciar nada. Ali eu sou um fiel como qualquer outro, não me chame nem me peça nada. Vou ali para ter uma comunhão com Deus.

Você também é o único parlamentar que faz prestação de conta em transporte público. Como tem sido essa experiência ?

O que me mais me deixa feliz, como já falei, é esse contato, fazer a prestação de contas nos ônibus, nos trens. Pegamos o trem para Ceará-mirim, Extremoz e Parnamirim. E nos ônibus fizemos, além de Natal, Ceará mirim, São Gonçalo, Macau, Currais Novos, João Câmara, Cerro Corá e São Gonçalo.

Você vem de dois mandatos como vereador de Natal. Como é o retorno das pessoas no interior que não lhe conhecem ?

Surpresa. Até as pessoas que não vão participar ficam sabendo, é inédito, provoca ansiedade. Estou fazendo isso no início do mandato, isso ninguém faz. Semana passada fizemos em João Câmara. Anunciamos em carro de som como sempre faço, mas alguns vereadores da cidade disseram que era mentira, que eu não iria para a praça da cidade às 11 horas da manhã prestar conta do mandato. E fiz questão de rebater isso na praça lembrando que eu estava ali naquele momento e os vereadores que mentiram dizendo que eu não iria não estavam na praça com a população. Ou seja, é uma inversão de valores: os vereadores da cidade não estavam ali junto do povo enquanto eu estava. É um processo lento, talvez milimétrico, mas você começa a mudar a concepção das pessoas de que a política mudou.

Num momento em que se fala tanto de nova política o que pode ser considerado “novo” ?

 É aquela coisa: nova política é diferente de político novo. Às vezes você pega um político jovem, num partido fundado há pouco tempo, mas as práticas são as mesmas, coronelísticas, tradicionais. O que a gente chama de nova política é o contrário. Você pode estar num partido que existe há muito tempo, mas o modo de fazer política pode ser novo. Como as pessoas vêm o político: é aquela pessoa que quando você procura não encontra, a não ser em época de eleição, e que quando chega a eleição ele distribui óculos, cesta básica, consulta… e isso é que ainda infelizmente é feito no Brasil, e num percentual muito maior no Nordeste. Eu tenho colegas que me falam que estão devendo muito da campanha passada. Já eu terminei a minha campanha sem dever 1 real a ninguém. Sigo morando na mesma casa, em Nossa Senhora da Apresentação, vou me aposentar no meu emprego, como vigilante. Quando eu vou almoçar não vou ao Camarões, na Zona Sul, mas num restaurante a quilo da avenida Itapetinga. Então as práticas são diferentes. Como outro dia eu entrei num ônibus e duas mulheres ficaram discutindo com uma dizendo para a outra que eu não era deputado. Causa um choque.

Mas não lhe chamam de demagogo também ?

Acontece muito isso, mas como é demagogia ? Não estou em período eleitoral, é o início de mandato, ninguém faz isso. Como agora em João Câmara, quando eu perguntei: “Vocês lembram em quem votaram para deputado estadual ? Em mim não foi porque aqui eu só tive 80 votos. Mas eu estou aqui e cadê o candidato ou candidata que o prefeito de vocês e os vereadores de vocês apoiaram ?” Então as pessoas começam a se despertar para uma nova forma. No futuro haverá novas eleições. Eu quero ser cobrado. Digo que estou ali para servir. Não estou ali fazendo um favor não praça, não. Eu não deixo de trabalhar por causa de recesso. O recesso é parlamentar, relativo às sessões, não é para eu deixar de trabalhar. Creio que se eu saísse da política hoje, por qualquer motivo que seja, eu sairia satisfeito porque acho que estou conseguindo plantar algumas sementes. E essas sementes vão germinar daqui a um ano, 10, 20 anos… isso para mim é o meu maior ganho. Aprovar projeto é importante, tudo é importante, mas a minha maior conquista na política é conseguir, mesmo que minimamente, educar uma, duas, três pessoas do papel delas na política. Eu sou uma pessoa como qualquer outra. Ganho mais que a maioria das pessoas, mas o mandato um dia acaba. Eu sou o Sandro, o mesmo. Eu quero ser conhecido como vigilante, odeio quando me chamam de Excelência. Numa escala de hierarquia, a pessoa mais importante é o patrão. Então o eleitor é o mais importante nessa relação com o deputado porque ele é quem paga o meu salário.

Em 2018 foi a primeira vez que o Rio Grande do Norte elegeu um vigilante para a Assembleia Legislativa. Os projetos que você protocolou na Casa em 2019 traduzem a importância da classe trabalhadora para o teu mandato ?

Traduzem. Todos os projetos que nosso mandato faz têm esse olhar.

Pode dar exemplos ?

Tem um projeto que eu trouxe para cá (Assembleia Legislativa) idêntico ao que aprovei na Câmara Municipal, quando era vereador. Esse projeto obriga que os bancos tenham vigilantes 24 horas. Além da proteção ao usuário do Banco, (o projeto) ainda gera emprego. Em Natal já é lei, mas não está sendo cumprindo ainda. Então vamos fiscalizar e judicializar. E trouxemos para cá o mesmo projeto de lei. Houve um parecer contrário, mas conseguimos recorrer depois. Eu recebi aqui no meu gabinete três pessoas que vieram da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) pedindo para que eu retirasse o projeto porque não é de interesse dos bancos. O que eu estou falando é público, pode publicar. Falei a eles que eu não estava aqui para servir aos bancos, mas aos trabalhadores. Que eles façam o lobby deles para derrotar o projeto em plenário, mas eu não vou tirar. Não sei como foi essa visita em outros gabinetes, mas eu não dei margem a qualquer outro argumento.

Houve alguma promessa de contrapartida ?

 Nada, até porque eu já disse de imediato minha posição e quando você afirma isso não dá margem. Então, só relativo a vigilantes são 12 projetos. Tem outro que obriga o serviço público, nos lugares onde têm vigilantes, a contratarem vigilantes mulheres.

Você recebeu críticas pelo projeto que envolve a contratação de egressos do sistema prisional por empresas que recebem incentivos do Governo. Como reagiu a elas ?

Isso impacta boa parte da imprensa e da sociedade. Mas eu quero dormir sabendo que estou cumprindo com meu deve dentro daquilo que eu acredito. E eu acredito que o preso é preso hoje, mas quando cumpre a pena pagou o que ele devia. Defendo que o preso pague a pena dele com os rigores da lei, mas é com os rigores da lei, não com os meus rigores ou do que eu penso. Se você compra um produto numa loja em 10 vezes, quando termina de pagar você deve alguma coisa ? Não, você pagou, não tem dívida mais. Se você paga uma pena de 10, 20 anos e cumpre tudo ainda deve alguma coisa ? Não, você já pagou. E como é que a sociedade e os Poderes te enxergam ? Eu recebi no meu gabinete o cara que ficou conhecido como o maior traficante do Brasil e que agora está rodando o país fazendo palestra em presídios e vendendo um livro que ele escreveu. Nenhuma criança nasce bandida, ela se torna mau por vários motivos. Elas têm o direito, de quando crescer, de trabalhar, de ser um cidadão de bem. Mas isso acontece na prática? Não. Outro dia eu recebi várias mulheres de presos aqui e uma história me chamou a atenção, fiquei chocado. Uma delas me disse que está terminando Direito, mas não consegue estágio em lugar nenhum porque quando descobrem que o marido dela está preso a mandam embora. E que mal aquela mulher cometeu ? Nenhum. Mas é condenada pela sociedade porque é mulher de uma pessoa presa. Quando eu dou entrada num projeto desse e vejo que a maior parte da sociedade criminaliza eu fico triste, mas eu não desisto.

Tem um quê de racismo nas críticas, não ?

A gente já nasce racista e vai mudando ao longo do tempo. Quando vê colegas, inclusive negros, criticando… eu falo: “você já está segregado, não tem o salário que o branco tem e estou dando essa condição”. Quando consigo mudar uma pessoa dessa, ganhei o ano, o mês. Então eu faço projetos pensando em mudar essa realidade. Aqui é assim, meio ambiente, direitos humanos, minorias sociais. Eu recebi um pedido de ajuda de um grupo de oficiais da Polícia Militar tendo outros 23 deputados na Casa. Porque procuram um deputado do PSOL, partido que muitos militares criminalizam ? Mas eles sabem que esse é um mandato que defende o trabalhador. Falei aqui: vocês não gostam de mim, mas vou abraçar a causa de vocês até o final.

Qual era a pauta ?

A dos oficiais. Quando a governadora mandou pra cá o projeto de reestruturação dos militares, as patentes mudariam em oito anos, no máximo. Mas os tenentes são divididos em dois: primeiro e segundo tenente. Dessa forma o tenente demoraria 16 anos para mudar a patente. Então, quando a mudança fosse para major o policial já estaria aposentado. E brigamos, foi uma confusão, o grande oficialato ameaçou punir os tenentes. E eu disse: “eu não aceito coronel nenhum punir tenente e não aceito que a governadora permita isso também”. E fui falar com o comandante e os comandantes vieram falar comigo dizendo que daqui a dois anos não teria mais nenhum tenente, virariam todos capitães. Mas eles não podem ser penalizados se o Estado não faz concurso. Derrubamos o veto, mas não foi fácil. E também não perdi a oportunidade para dizer que quando eles estiverem nas ruas, e virem a gente na greve, saibam que ali são trabalhadores, e não baderneiros. Nós, civis, também merecemos respeito. Não perco essa oportunidade e falei: “vocês contaram comigo, assim como os professores também contam”. Aprovar emenda, derrubar veto é importante, mas momentos como esses quase dois meses, foram fundamentais.

A ALRN é um Casa conservadora, elitista e, em alguns casos, reacionária. Você é um deputado de esquerda, tem posições firmes na defesa de direitos sociais, humanos e já sabia das dificuldades. Como tem sido essas negociações e articulações com os demais deputados para conseguir que a maioria aprove projetos avançados do ponto de vista do direito social, por exemplo ?

O movimento sindical me ensinou muito. Eu passei 10 anos do movimento sindical nacional e também estadual. E essa experiência me ensinou que quem brilha são as ideias, não as pessoas. Na Câmara Municipal me dei bem com todos os colegas e arranjei um inimigo. Aqui na Assembleia também, convivo bem com quase todos e tenho apenas um inimigo. Não sou de ter amizade, cada um no seu quadrado, mas aqui dentro tenho uma relação muito boa. E isso ajudou muito, é uma quebra. Quando cheguei aqui, disseram: “Sandro Pimentel será nosso problema aqui”. E me falam hoje que sou outra pessoa. Claro, são as ideias que brigam, tenho uma boa relação com todo mundo. Quando protocolo um projeto, explico a proposta e peço o voto de cada um. Se o deputado diz que não vai votar eu peço que, então, se abstenha porque vou divulgar quem votar contra e para ajudá-lo sugiro abstenção. E divulgo nomes de direita ou esquerda, não importa. Aí me pedem, por exemplo, para votar em título de cidadão como contrapartida. Se não for aqueles carimbados, como a proposta de título que tem aqui para o Jair Bolsonaro, eu voto sem problema.

Como não é comum um deputado declarar que tem um inimigo você pode dizer quem é seu inimigo na Assembleia ?

Getúlio Rêgo (DEM). Eu não tenho nada escondido na política, a gente não se fala.

Por quê ?

Eu não aceito ser menosprezado por ninguém. Não faço isso com ninguém nem aceito que façam isso comigo. Não aceito que me tratem com desdém. Você pode ser o mais miserável e eu vou lhe tratar como o mais rico. Um dia eu estava presidindo a Mesa, haviam servidores se manifestando e ele queria que eu calasse o movimento. E eu disse que não ia calar nada. Até pedi para que falassem um pouco mais baixo, que estava interferindo nos trabalhos, mas calar eu não vou. E quanto mais eu falava, mais eles gritavam. Aí ele disse: “você não tem moral para sentar nessa cadeira”. Aí eu respondi que ele não era mais deputado do que eu. Que ele podia ter até mais mandatos, 10, mas eu era do tamanho dele ali. E que ele não iria dar carteirada em mim, não. Mandei ele vir para a mesa para mandar nos servidores enquanto eu iria para onde estavam os trabalhadores. Ele não quis, ficou aquele clima e, desde então, não nos falamos. Ele não faz a menor falta pra mim e eu tenho certeza que também não faço a menor falta para ele. A política é assim. Às vezes sentamos ao lado um do outro, mas não nos cumprimentamos.

Logo que você assumiu o mandato se declarou um deputado independente. Foi uma estratégia acertada ?

Quando fui eleito, a governadora Fátima Bezerra nos chamou para conversar. Votamos na Fátima no segundo turno, até porque não tinha como votar em Carlos Eduardo Alves. Mas o PT é o PT e o PSOL é o PSOL. O PSOL não é um puxadinho do PT, temos outras ideias e críticas contundentes ao PT. No início do mandato ameacei acampar na porta da governadoria porque a governadora não queria me receber. Sendo da situação ou oposição a gente fica preso. Eu prefiro olhar cada projeto, cada iniciativa. As boas vamos aplaudir, mas aqueles projetos que a gente entende, dentro da nossa ideologia, que vamos ser contrários, seremos.

Sobre reforma da Previdência estadual que chegará na ALRN agora no início de fevereiro. Qual sua oposição ?

 O projeto ainda não chegou na Casa, mas pelo que já li na imprensa, parte da reforma é boa e outra parte é muito ruim.

 Qual o lado bom dessa reforma ?

Então… o que diverge a reforma proposta pelo governo do PT da encaminhada ao Congresso pelo governo Bolsonaro é que ele fez uma reforma da Previdência que atacou especialmente quem ganha menos, os privilégios continuaram os mesmos. Já na reforma de Fátima, os ativos que ganham até R$ 5,8 mil não serão sobretaxados, ou seja, cerca de 80% dos servidores vão continuar como estão. A reforma vai atingir quem ganha acima de R$ 5,8 mil. E eu concordo. Quem ganha muito tem que pagar mais mesmo. O Estado precisa desse recurso, então vamos cobrar de quem está no patamar de cima, e não de quem está no patamar debaixo. Mas estou falando pelo que está na imprensa.

E o que é ruim ?

Taxar os aposentados. Aí eu não concordo, não tem condição taxar o aposentado que ganha R$ 1 mil. Por quê ela não mandou equânime ? Cobrar dos aposentados que ganham acima de R$ 5,8 mil ? Isso eu não posso aceitar. Vou lutar muito aqui, mesmo sabendo que vou perder.

Você acha que essa reforma passa ?

Acho que passa porque a bancada do governo vai votar e a oposição também já disse que vai votar, eles querem isso. Por um motivo claro: para bater no governo depois. Mas eu não entro nessa briga. Minha briga é pragmática, em defesa dos trabalhadores. Eu não acho justo que o cara que passou 30 anos trabalhando, se aposentou com um salário mínimo, ainda contribua com 11%. Isso não existe. Então (ser independente) foi uma estratégia nossa aprovada por unanimidade no Partido.

Mas isso te prejudicou de alguma forma ? Seja na distribuição de cargos…

Não, porque eu nunca quis cargo nenhum. Eu não tenho uma transferência de ASG de uma escola para outra, nada. Eu desafio alguém a me mostrar o contrário. Nunca me ofereceram e eu nunca pedi. Se me oferecerem eu vou consultar o partido, mas minha opinião é “não”. Um mandato popular tem que ser livre, decidir pela sua consciência. Quando o candidato da extrema-direita se elege é porque ele foi eleito e vai defender aquele setor. Como eu, que me elegi por um determinado setor da sociedade. E vou defender os trabalhadores.

Como tem sido a relação da governadora Fátima Bezerra com os deputados na ALRN ?

Eu não alcancei outros governos aqui, não posso comparar com outros, mas se eu fizer uma comparação com a experiência que eu tive na Câmara Municipal de Natal… é muito diferente. Existe um diálogo, existe a transparência, o governo vem pra cá, o secretário vem para cá, chefe da Casa Civil, a governadora vem apresentar projeto, pedir o voto, isso é o diferencial e isso é importantíssimo. O acesso de falar pelo whatsaap, de tirar dúvidas… essa abertura é boa e quando eu estava na Câmara não existia. O prefeito só ia lá naquelas sessões obrigado por lei. Fátima vem, fala com todo mundo. Quem não foi é porque não quis ir. Essa forma democrática ajuda muito. Quando você pergunta ou questiona, a resposta pode até não esclarecer, mas é uma resposta. O próprio presidente da ALRN Ezequiel Ferreira facilita muito, ajuda muito nessa articulação, pratica essa democracia.

Esse papel do Ezequiel Ferreira na articulação te surpreendeu ?

Surpreendeu muito e eu disse isso para ele. Eu tinha o deputado Ezequiel, por ser do PSDB e por eu não conhecê-lo, como uma espécie de coronelzão que não recebia ninguém. Além de nos receber, a gente tem acesso livre. Pelo menos comigo tem sido muito correto, verdadeiro. Em relação aos nossos projetos, ele diz sim ou não, mas ajuda a conseguir os votos de outros colegas quando é a favor. E se é contra, não trabalha para prejudicar.

Alguns setores do PSOL criticam você por trazer para o Partido nomes que não são identificados com as bandeiras e as lutas sociais do PSOL. Maurício Gurgel e Fábio Holanda são dois exemplos. O Sandro virou pragmático a ponto de pensar só eleitoralmente ?

Não, não virei pragmático. Eu só acho que da mesma forma que o que eu disse para você lá atrás que as pessoas mudam e podem mudar, acredito que dentro do PSOL tem boas pessoas e outras que não compactuam conosco. Por exemplo, vereador Marquinhos, de Currais Novos, era professor, mas depois de eleito vimos que o mandato dele estava distante do que pregava o Partido. Para entrar no PSOL não é obrigado a ler o capital, conhecer Trotsky, Lênin, Rosa Luxemburgo… O Maurício Gurgel, se você analisar de quando ele era do PHS até hoje você vê uma mudança radical, nos projetos nas atividades de rua, nos discursos… as pessoas podem mudar. Ele está saindo do PSOL porque pediu para sair, mas tem vaga no Partido. Isso não é pragmatismo, é entender que as pessoas podem mudar. A gente recebeu um pastor aqui semana passada aqui. Perguntei se ele tinha lido sobre o PSOL, o nosso estatuto… ainda reforcei que éramos de esquerda, que fazemos uma nova política, não prometemos aquilo que não podemos fazer, que homossexuais têm vez no Partido, que as mulheres tinham direito ao corpo dela… então não é pragmatismo. Não existe partido perfeito. Eu sou crente e, para mim, perfeição está no céu. E acho que no céu não tem partido. Nunca vai nascer um partido puro. O PSOL é puro ? Não é. A diferença é que quando a gente descobre alguém descumprindo as regras do Partido ou a gente expulsa ou convida para sair. Tem gente que acha que porque é o PSOL só tem santo. Não, aqui tem um bocado de diabinho também.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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