DEMOCRACIA

Juventude conquista plano municipal em São Gonçalo e busca efetivar política de inclusão

O município de São Gonçalo do Amarante aprovou a criação do Plano Municipal da Juventude (PMJ), uma política de longa duração direcionada a traçar ações para os jovens entre 15 e 29 anos de idade. Nos âmbitos da educação, saúde, formação para o mercado de trabalho e segurança pública, o plano traça metas a serem cumpridas nos próximos 10 anos que contribuam para a inserção política juvenil no município.

A lei de nº 1.893 estabelece que a prefeitura realize audiências públicas com a sociedade civil para discutir metas de resultados a serem inseridos na lei orçamentária de São Gonçalo do Amarante. Contudo, a política foi antecedida por uma série de ações realizadas com a juventude da cidade buscando entender quais as necessidades dessas pessoas. É o que explica Breno Alves, coordenador da Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer.

Em 2017, uma pesquisa procurou 331 jovens de 37 comunidades para perguntar o que eles queriam do poder público, desde cursos a atividades culturais. Desses, 73% afirmaram o desejo por cursos de capacitação, principalmente nas áreas de informática e idiomas (inglês e espanhol). Outros 68% querem formação técnica, principalmente em enfermagem, informática e administração. A maioria desses jovens de 14 a 29 anos afirmou não trabalhar (77%), enquanto os que exercem alguma atividade remunerada (23%) estão, na maioria das vezes, sem vínculo empregatício (56%).

A pesquisa revelou que, dentre os entrevistados, 74% não têm fonte de renda e outros 22% dispõem de até um salário mínimo para sobreviver. Enquanto isso, a maioria reside com famílias que tem mais de três pessoas (82%):

“Numa comunidade, 40 e poucos jovens disseram que queriam fazer barbershop. A gente levou o profissional lá. Várias pessoas aqui do centro de São Gonçalo falaram que queriam fazer massoterapia. Então a gente colocou um profissional pra dar um curso. Aqui em São Gonçalo o esporte é muito forte. Então, nós conseguimos um seminário de psicologia do esporte. Conseguimos um workshop de fotografia. A gente começou a dar uma resposta a essa rapaziada nas áreas que eles queriam. Nunca impomos nada. Sempre foi realmente políticas públicas voltadas para o jovem, saca?”.

Audiência pública para debater o plano municipal de Juventude na Câmara Municipal de São Gonçalo do Amarante / foto: prefeitura

A logística na oferta dos cursos também precisou ser repensada. Assim, ao invés dos interessados se deslocarem até o centro do município, as formações é que seriam realizadas nas comunidades.

Breno trabalhava como cantor de rap no grupo Time de Patrão antes de assumir o cargo, e conta ter sido chamado para a secretaria justamente por já ter feito trabalhos direcionados a jovens e ter abertura nas comunidades do município:

“Fizemos um trabalho de pesquisa muito massa. Trabalhamos arduamente das 8 da manhã às 8 da noite teve dias fazendo pesquisa. Entrevistamos quase seis mil jovens de forma direta, de entrevistar o mesmo e perguntar qual o curso você quer fazer? Você estuda? O que aconteceu que tu não tá indo para a escola? Tu faz parte de um grupo de cultura? Qual grupo? Porque você não faz a atividade cultural? Porque isso? Por quê?”.

Breno Alves, coordenador da secretaria de Esporte e Lazer de SGA

Foi então criado o projeto Diálogos da Juventude, que levava diversos profissionais à praça para conversar com os jovens. Os resultados da pesquisa e ainda a realização do projeto Diálogos, que ouviu mais centenas de jovens das comunidades tanto em 2017 quanto 2018, ajudaram na construção das diretrizes do plano, indica o próprio documento de apresentação do PMJ. Na sequência, veio o Qualifica Jovem, com cursos destinados a pelo menos 200 jovens, garante Breno.

Com esses trabalhos, melhorou também o diálogo entre essa turma e o poder público, indica Breno. Como políticas passaram a ser pensadas para atender necessidades reais deles, o coordenador também conseguiu maior abertura para conversar sobre política com os jovens.

“A maior dificuldade da realidade da juventude, no meu ponto de vista, é que a juventude de São Gonçalo não é violenta, a juventude de São Gonçalo era violentada. Não só de São Gonçalo, saca? Mas de todo o Rio Grande do Norte, porque, se eu não tenho uma política de juventude, essa juventude não existe pra mim”, explica, indicando que a Secretaria buscou ser mais presente na vida desses jovens.

Breno Alves, coordenador da secretaria municipal de Esporte e Lazer de São Gonçalo do Amarante / foto: divulgação Som Sem Plugs

Breno explica que ele mesmo nunca gostou de prefeitura, de política. Mas sempre gostou de conversar com as pessoas que encontrava nas viagens para shows. Mas foi a partir de uma perseguição aos trabalhos do grupo de rap dele que o futuro coordenador passou a entender a importância do poder público:

“A gente fez show em São Paulo, em vários estados, toca­mos no Mada (Festival Música Alimento da Alma, realizado em Natal) até sofrermos uma perseguição policial. Começaram a dizer que nós tínhamos associação ao crime, e não tinha nada a ver. Sofremos essa represália do sistema, onde nós íamos tocar, chegavam a fechar o evento. E meio que a gente criou um desgosto da música. A gente saía para tocar e a família já não tinha aquela instiga, minha mãe ficava preocupada, ‘será que ele volta?’. E nessa merda aí que eu entendi a importância de tá nesse meio aí [da política]. Em nenhum momento eu pensei em cargo ou dinheiro, nunca”.

“A juventude de São Gonçalo não é violenta, a juventude de São Gonçalo era violentada. Não só de São Gonçalo, saca? Mas de todo o Rio Grande do Norte, porque, se eu não tenho uma política de juventude, essa juventude não existe pra mim”

No início da gestão, foi criada uma batalha de rap na praça da bíblia da cidade, mas o evento sofreu represálias da polícia e acabou sendo extinto. Depois disso, a coordenação passou a questionar a prefeitura e a própria sobre quais dados eles tinham dos jovens.

“[perguntei] ao secretário da educação para entender: ‘mano, tu tem o número de quantos boys deixaram de estudar esse ano? E no ano passado? Por quê eles pararam? Tu tem esses números aí, mano?’, ‘não’. Fui no pelotão da PM de São Gonçalo e perguntei: quantos caras foram presos e se eles sabiam quem eram esses caras que eles prenderam durante esse ano. Se eles sabiam se os caras trabalhavam ou não, se estudavam ou não. Se era envolvido em algum grupo ou não. Ou era só prender e não importava [quem fosse]. Fizemos uma audiência pública e questionamos esses espaços”, explica.

Até hoje, enquanto coordenador, Breno disse não ter obtido resposta sobre esses números.

Políticas públicas que mudam estatísticas

Em 2010, data do último censo realizado pelo IBGE no Brasil, São Gonçalo do Amarante tinha a grande maioria da população na faixa entre 14 e 29 anos. Breno fazia parte desse grupo, na época de divulgação dos dados. Aos 23 anos, ele lembra de sua própria experiência enquanto jovem de família pobre. Ajudava a mãe na feira e acabou se distanciando dos estudos logo após concluir o ensino médio. Ele agradece ao rap por tê-lo ajudado a fugir da estatística.

“Não falo de uma bolha do rap, mas de uma parada de cultura em geral. Um povo sem cultura é um povo morto. Talvez, se o rap não tivesse surgido na minha vida, talvez eu estivesse morto hoje. E, talvez, se eu tivesse morrido, há dez anos, a galera ia dizer ‘porra, morreu um bandido’. Talvez se hoje me matarem, vão dizer ‘caralho, mataram um ativista social fudido, tá ligado?’. Então, o rap me deu essa proporção de sair de um gráfico para outro”, conta.

“Quando eu tinha 23 anos, não tinha uma percepção de ‘ah, eu vou pra onde’, ‘o que tem pra mim’, ‘quais são meus direitos’. E é justamente em cima disso aí que tento levar esse conhecimento porque nunca chegou a mim”, reitera Breno.

Ele conta que a secretaria trabalha agora na organização de um campeonato de videogames para os interessados de São Gonçalo do Amarante. As inscrições começaram no dia 1º de junho e seguem até o dia 20. Daí, serão selecionados 32 participantes para o campeonato que deve ocorrer no dia 26.

“E, talvez, se eu tivesse morrido, há dez anos, a galera ia dizer ‘porra, morreu um bandido’. Talvez se hoje me matarem, vão dizer ‘caralho, mataram um ativista social fudido, tá ligado?’. Então, o rap me deu essa proporção de sair de um gráfico para outro”

Breno Alves

 

Para colocar o PMJ em prática, é preciso reativar o Conselho e realizar audiências públicas com sociedade civil para entender demandas, o que deve ocorrer no dia 11 de julho, às 9h na Câmara Municipal.

“O ponto positivo aqui é que conseguimos sair da estaca zero”, comemora o coordenador que está há cinco anos no cargo.

Uma das prioridades, segundo Breno, é trabalhar com a evasão escolar no município, descobrindo porque os alunos deixam a escola e como mantê-los no ambiente educacional.

“Se a gente consegue virar essa chave aí, estancar esse sangramento da evasão escolar e tentar entender o que acontece, reduzir a evasão e começar a injetar conhecimento nesse jovem, a gente consegue preparar melhor esses jovens para o futuro”, projeta.

“Se tiver que fazer campeonato de videogame nas escolas, a gente faz. Se tiver que fazer campeonato de biloca, a gente faz, mas o jovem tem que estar dentro da escola, independente do que está sendo feito. Ele não pode é estar na rua, traficando, portando arma. Isso é que não pode” conclui.

 

 

 

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