OPINIÃO

são paulo, primavera de 2018.

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antônia,

ah, como eu fico bonita no teu colo. quando você me carrega. como eu fico airosa. eu fico. no teu colo. seria esse um argumento pra eu escolher essa foto que mais parecemos nuvens? nuvens na cabeça da multidão. naquela multidão de milhões de dentes. e um grito. era tanta gente. as pessoas cada vez mais perto. o espaço cada vez mais longe. e eu só imaginando um mar de corações. vermelhos. muitos. eu tenho essa mania quando vejo multidões. fico vendo por dentro. transparentes. quantas veias? fígados? quantas tripas? pulmões? úteros? haja úteros. ali.

você já reconhece as letras. e me pede pra ler tudo. pedia pra ler os cartazes. faixas. bandeiras. qualquer folhinha de a4 escrito #elenão. e eu querendo ler as flores no teu vestido. eu só queria ler as flores do teu vestido. eu queria aprender a ler contigo. me faz desaprender. eu quero me alfabetizar dos teus ditos.

você caminhava firme e às vezes pedia colo. e quando eu cansava te pedia o chão. você sempre me dá chão e sonho. anoiteceu e você procurava a lua. achamos na cabeça prateada da senhora na nossa frente. um corpo de velhinha com cabeça de lua. nós em órbita.

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a ana não viu a lua dessa noite. dormiu quase todo tempo que estávamos lá. ana sempre dorme em momentos importantes. foi assim quando fomos até o mar pela primeira vez. quando vimos um elefante. deve ser porque ela vê por dentro. de olhos fechados. ana é coração. veias. pulmão. é sangue. muito sangue vivo desenhando a geografia dos dentros. o mar ela tem na garganta.

quando essa carta você aprender a ler. leia correndo. subindo a rebouças. pra faltar o ar. essa carta tem dia, tem hora e fôlego. 29 de setembro de 2018, vocês estavam lá.

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Eveline Sin é artista, poeta e grafiteira. Escreve às quartas-feiras.

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