OPINIÃO

Se acaso me quiseres…

Ela acabara de chegar na cidade, com sede de desbravar cada segundo de uma vida nova e cheia de possibilidades. Movida pela liberdade, desafiava a própria timidez e se aventurava sozinha noite adentro, aberta ao que quer que o destino lhe reservasse, tempero certo para atrair olhares repletos de tesão, como se cantasse “se acaso me quiseres…”

Era uma época analógica, muitos anos antes de inventarem os aplicativos de encontros que tristemente subverteram a magia desse acaso. E foi num desses despretensiosos dias que ela acabou surpreendida por uma proposta inesperada e, por isso mesmo, tentadora: sexo com um desconhecido, o que hoje se tornou mais comum do que deveria, já que injustamente banalizado, quando naquele tempo era uma fantasia rara de se concretizar.

E foi numa tarde no meio da semana que então se cruzaram nas escadas rolantes de um shopping e ele soltou um espontâneo “espera”, que ela obedeceu aguardando no fim da escada, enquanto se divertia em observar o esforço do rapaz descendo os degraus no sentido contrário do movimento do mecanismo, para alcançá-la.

Não tinha uma fala programada ou, se tinha, esqueceu. Somente um irrefreável e incontido desejo, que ele sequer imaginava correspondido. Segurou a mão dela, como se pedisse socorro, o que ela não pôde negar. Num pulo, estavam na cama de um quarto alugado perto do shopping, entregues às vontades mútuas que não puderam esperar detalhes como nomes, signos, estado civil ou qualquer outra informação cadastral um do outro.

“Mas na manhã seguinte, não conte até 20” ainda tocava no rádio quando ela deixou o quarto, sem qualquer despedida ou aviso, para nunca mais voltar, enquanto ele fumava um cigarro na sacada, já vestido de página virada, descartada de um folhetim.

 

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