OPINIÃO

Se não têm pão, que se alimentem de ódio.

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“Se não tem pão, que comam brioches”, a frase que é um símbolo do deboche da monarquia absolutista francesa ao estado de fome do povo, talvez nunca tenha sido dita nem por Maria Antonieta, nem por ninguém. Ela fez parte de uma série de boatos que circulavam entre a plebe francesa nos anos pré-revolução. Um dos principais alvos desses boatos era a própria rainha que tinha suas extravagâncias e suas supostas aventuras sexuais descritas em panfletos anônimos, muitos deles com desenhos pornográficos e propaganda anti-monarquia. Essa série de publicações ajudou a ampliar a impopularidade da família real francesa e colocou pavimento no caminho da nobreza para a guilhotina.

A instrumentalização do discurso intelectualmente desonesto como ferramenta política é algo extremamente comum na nossa história. O uso de discurso de ódio ou de notícias falsas para insuflar a população em um contexto de crise ou impopularidade também.

O dicionário Collins já elegeu “fake news” como termo do ano em 2017. No ano passado, o termo pós-verdade já havia virado verbete no dicionário de Oxford. No meio disso, uma explosão de sites surgem com títulos bombásticos que convidam ao compartilhamento sem culpa de notícias sem autoria, muitas vezes com pouco texto, nenhuma fonte e, quase sempre, citando pessoas que não existem.

O próprio formato de redes sociais como Facebook e Whatsapp possibilitam a disseminação desse conteúdo. Na busca por agradar nossas bolhas identitárias,vamos expelindo de nossa vida a contradição, sempre buscando conteúdo confortável ao nosso olhar, seja ele conservador ou progressista.

No meio disso, biografias são destruídas, eleições influenciadas e grupos oportunistas ganham seu palanque. Todo e qualquer fato, antes inquestionável, agora pode ser alvo de dúvida. Até mesmo o formato da Terra que agora, segundo o que li no Face, voltou a ser plana.

Em um ambiente de extrema polarização e hostilidade política como no Brasil pós golpe, conspirações são amparadas por um ceticismo sólido na classe política, na mídia tradicional e nas instituições. As mentiras também encontram eco em uma crescente cultura de medo e na violência simbólica das redes. Todos esses fatores formam um caldo de cultura perfeito para que as notícias falsas se solidifiquem e passem a influenciar a conversa política nacional.

A ausência de uma formação em leitura crítica de mídia e o jornalismo panfletário, que tomou de conta das principais redações do país, também só ampliam o poder de alcance das notícias falsas.

Assim, na direita e na esquerda, o fake news das redes não são mais mera boataria para atacar adversários em período eleitoral, viraram um expediente e arma política de verdadeiras milícias de opinião, todas sedentas por adesão, não importando o discurso que usam para conseguir acessos, curtidas e likes.

E tudo isso acontece bem perto de nós. Já experimentou contar, em um dia, quantas correntes com notícias falsas já recebeu no Whatsapp ou quantos links duvidosos surgem na sua timeline do Face?

O efeito direto dessa nova forma de consumir conteúdo está fora e dentro das redes, na materialização do discurso de ódio. Mentiras influenciam a ação de grupos extremistas que acabam, pela ignorância política, promovendo a violência como tática de expressão.

Quantos justiçamentos acontecem todos os dias nos tribunais dos likes? E quantos não são perseguidos nas ruas, vítimas de um discurso distorcido ecoado nas redes?

Não se contaminar com esse discurso rancoroso e cheio de agressividade inútil é uma tarefa militante das mais complicadas e necessárias nesses dias. As notícias falsas alimentam um discurso violento, que seguem com eco na nossa polarização extrema. No limite, esse discurso prega a aniquilação da diferença. Usam medo e covardia para, aos poucos, naturalizar o ódio e, assim, naturalmente banalizar o mal.

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Jornalista e militante de direitos humanos