DEMOCRACIA

Secretário de Carlos Eduardo compartilha informações falsas sobre Marielle Franco

O secretário municipal de Obras Públicas de Natal, Tomaz Neto, divulgou neste domingo (18), num grupo de whatsapp, uma série de mensagens falsas, conhecidas como fake news, com ofensas à honra da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ), executada a tiros na quarta-feira passada (14), no Rio de Janeiro. A morte da parlamentar ganhou repercussão mundial em razão da brutalidade do crime e de sua militância em favor dos Direitos Humanos, do direito das mulheres e da juventude negra e periférica. Marielle foi eleita com mais de 46 mil votos, era negra, mãe, LGBT e exercia o primeiro mandato como vereadora.

Pouco tempo depois da divulgação do assassinato de Marielle e do motorista Anderson Gomes cresceu nas redes sociais um sentimento de indignação e comoção, ao mesmo tempo em que começaram a se espalhar boatos que atentam contra a memória de Marielle e difamam a história de luta da vereadora.

O PSOL, partido de Marielle, articula um grupo de advogadas que desde quinta-feira (15) vem rastreando fake news e qualquer material calunioso contra a vereadora. Até o momento, mais de duas mil denúncias chegaram ao grupo. O objetivo é enviar todos os casos e os autores identificados para investigação em delegacias especializadas e ou para retratação na justiça. As denúncias podem ser recebidas no e-mail: contato@ejsadvogadas.com.br.

A Agência Saiba Mais teve acesso a uma série de prints do grupo de whatsapp do Conselho da Cidade (CONCIDADE Natal), que reúne os membros do conselho responsável por deliberar políticas de desenvolvimento urbano para a capital potiguar. Presidido pelo prefeito Carlos Eduardo Alves, o conselho conta com 51 membros, dentre eles secretários, funcionários das secretarias, procuradores do município, representantes da sociedade civil organizada e parlamentares.

Às 13h45 do domingo (18), o secretário Tomaz Neto compartilhou uma série de mensagens, já desmentidas por sites especializados, que ligam Marielle ao tráfico de drogas e fazem críticas a sua atuação política. A primeira mensagem classifica a vereadora do PSOL como uma “ultra esquerdista com ideias nefastas e totalmente tortas, eterna defensora de bandidos”. O texto, atribuído ao antropólogo Sandro Silva, visa desconstruir o que chama de “discurso hipócrita de esquerda comunista bandida”. Procurado pelo site boatos.org, o antropólogo negou autoria do texto.

 


A mensagem, endossada pelo secretário, critica a onda de comoção em torno do assassinato da ativista ao dizer, em um dos seus trechos, que “se lamente o assassinato, mas que não se enalteça quem em vida não fez por merecer para ser enaltecida”.

Em seguida, Tomaz compartilha outra informação falsa que atenta contra a história de Marielle Franco: a de que ela seria ex-mulher de um traficante ligado a uma facção criminosa. No texto da mensagem está escrito:

– A Vereadora Marielle Franco, ex-mulher de Marcinho VP, atualmente preso, um dos chefes do Comando Vermelho.

Abaixo, o titular da Semopi compartilha uma foto em que se vê uma mulher sentada no colo de um homem, no que parece ser um bar. Tanto a foto como o texto já vêm sendo desmentidos há vários dias nas redes sociais e em sites especializados. Procurado pela reportagem da Agência Saiba Mais, o vereador Sandro Pimentel (PSOL) reagiu com indignação ao compartilhamento de mensagens falsas pelo secretario Tomaz Neto.

É inadmissível que alguém em um cargo de destaque na administração pública compartilhe boatos e informações falsas contra a memória de uma pessoa morta. Uma coisa eu garanto, não vai ficar assim. Vamos agir rigorosamente, em todas as instâncias, diante da conduta indecorosa do secretário, que é um funcionário público, e precisa responder pelos seus atos.

 

 

Discurso de ódio é velho conhecido para Tomaz Neto

O secretário Tomaz Neto, que compartilhou as mensagens falsas, é pai da jornalista Micheline Borges, que em 2013 também se envolveu numa polêmica ao afirmar em sua página pessoal no facebook que médicas cubanas recém-contratadas pelo programa federal Mais Médicos teriam “cara de empregada doméstica”. Micheline chegou a ser processada na Justiça por danos morais pelo Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos (Sindidoméstica), da Grande São Paulo.

 

Saiba Mais: PSOL organiza homenagem à vereadora Marielle em Natal e Mossoró

 

“Seu eu cometi um crime por compartilhar, não tenho como voltar atrás”, diz secretário

 

O secretario municipal de Obras Públicas de Natal Tomaz Neto admitiu que compartilhou as mensagens ligando a vereadora Marielle Franco ao tráfico de drogas mesmo sem saber se as informações são falsas ou verdadeiras. Ele afirmou que foi apenas um entre mais de mil pessoas que divulgaram a mesma notícia. Neto contou que decidiu compartilhar as mensagens quando, no mesmo grupo, outras pessoas criticaram a Polícia Militar no caso da morte da vereadora. E disse que, se cometeu algum crime, não poderia mais voltar atrás.

– Não sabia se era falsa ou não, tinha um grupo divulgando e eu compartilhei. No grupo tinha pessoas responsabilizando os policias pela morte da cidadã. Como é que você pode afirmar se é falso ou não ? A gente só vai saber se é falso ou verdadeiro quando as investigações terminarem. Agora, se eu cometi um crime (por compartilhar informação falsa), eu não posso voltar atrás.

Tomaz Neto justificou a atitude alegando que “a internet é um meio de comunicação muito rápido”. E citou o caso da desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Marília Castro Neves, que afirmou que a vereadora “estava engajada com bandidos e foi eleita pelo Comando Vermelho”. Neto não demonstrou arrependimento.

– Na internet tem pessoas que falam em defesa da polícia militar, ao ponto de pedir a extinção dela. Isso está solto na internet, não tenho como voltar atrás. Sou um mero expectador, uma cidade é muito grande e agora mesmo foi uma desembargadora que acusou Marielle de ter participado de crime.

Segundo o auxiliar do prefeito Carlos Eduardo Alves, é natural que as pessoas se posicionem sobre os mais variados assuntos. E se ele for condenado por manifestar sua opinião, não seria o único.

– A gente teria que ir em busca da raiz onde nasceu esse problema porque está todo mundo compartilhando. Teria que saber onde fundamentalmente nasceu, quem está criando, para saber e apurar as responsabilidades. As pessoas que usam a internet, como eu, quando eu vejo um lado só falando, também se posicionam. Isso faz parte da democracia. Se você quiser me condenar, então vai ter que condenar a maioria da população.

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