CIDADANIA

Sem arborização, temperatura em Natal pode chegar aos 54ºC no asfalto e aos 64ºC em carro parado ao sol

Qual foi a última vez que você saiu de casa a pé para resolver alguma coisa? Quem faz isso com frequência sabe o valor que tem cada sombra encontrada pelo caminho.

Hoje eu caminho bastante com cachorro pra resolver uma coisa ou outra a pé e é um calor terrível! Tem alguns horários que você não consegue andar em Candelária por conta da falta de arborização!”, reclama Marcus Sampaio, economista lotado no IFRN.

Além da ausência de uma política pública de arborização da cidade, a preocupação de Marcus é com as podas das árvores que resistem ao avanço do asfalto, facões e motosserras. Ele registrou o que classifica como “poda excessiva” das árvores que ficam na calçada de um condomínio próximo de sua residência.

   

Imagens: cedidas

 

“À tarde não conseguimos mais ficar na sala se não for com dois ventiladores ligados, fica um calor horrível! O irônico é que quando passei pela rua, depois do almoço, estavam os três operários que fizeram a poda sentados na sombra da árvore! Eu até brinquei ‘oxe, vocês aí descansando na sombra da árvore? Tem que ficar na parte no sol, que tá pegando fogo’. Claro que eles, enquanto operários, têm que obedecer a ordem de quem está lá na prefeitura, no gabinete, e não tem nada a ver com a vida da comunidade aqui fora. É triste isso”, comenta Marcus, indignado.

 

 

Se você já foi daquele grupo mais resistente e que classificava como “chatice” qualquer discussão que levasse em conta as questões ambientais, já não pode mais ignorar a “quentura” atual. A diferença de temperatura entre um trecho com árvore e outro sem cobertura vegetal, numa mesma rua sem asfalto, chega a ser de 90C.  A medição foi feita pelo ambientalista Francisco Iglesias.

         

A situação é ainda mais preocupante quando a medição é feita em áreas com asfalto. Na rua Praia de Muriú, em Ponta Negra, a diferença entre um trecho com e outro sem árvore, chegou a inacreditáveis 220C no dia 21 de março.

         

Às 9h da manhã, o painel do carro que ficou parado ao sol enquanto o ambientalista fazia as medições na rua. Quatro horas depois, a temperatura tinha chegado aos 640.

 

Por isso que quando uma criança é esquecida dentro do carro ela morre, porque ela é praticamente cozinhada”, alerta Francisco Iglesias, ambientalista e um dos mais ativos militantes pela causa ambiental na capital potiguar.

“Se você fizer essa mesma medição ao meio dia, a temperatura pode chegar aos 900C! Além da sombra, as árvores ajudam na redução do calor, funcionam como filtro para poluentes de altíssima eficiência e ainda são grandes absorvedoras de água. Elas chegam a absorver cerca de 30% da água, o que diminui o risco de enchentes. Aqui em frente ao meu escritório é cheio de árvores, todo mundo quer estacionar, mas ninguém quer plantar”, ironiza Francisco Iglesias.

 

O ambientalista lembra que a espécie humana está inserida dentro de um ecossistema que precisa de equilíbrio para continuar funcionando. O atual Plano Diretor de Natal, por exemplo, previa a criação de um Plano de Arborização que, segundo ele, nunca chegou a acontecer.

Luto com essa questão há 35 anos e não conseguimos avançar. Não entendo qual é a raiva que os políticos têm das árvores. Tem um dado de saúde importante, uma pesquisa da Usp mostrou que as internações por problemas pulmonares são reduzidas em até 12% com arborização, além das internações pelas altas temperaturas no verão”, argumenta Iglesias.

A cultura do shopping e ambientes artificiais com ar-condicionado resulta numa cidade onde a convivência é prejudicada pelas péssimas calçadas e transporte público. O que pôde, mais uma vez, ser constatado durante a pandemia da covid-19, na qual os ônibus lotados foram apontados como um dos ambientes onde há maior risco de transmissão do vírus, devido à superlotação.

“A classe média rica e os dirigentes políticos têm carros. O que o cara faz, de vez em quando, é caminhar no próprio condomínio ou na praça. Mas há um dado importante: 60% da mobilidade é feita a pé! Por isso a lei que estabelece a Política Nacional de Mobilidade colocou como prioritários os meios de transporte não motorizados, que são as pessoas a pé e de bicicleta”, reforça.

Iglesias também explica que a reclamação do Marcus, que no início da matéria reclamou de uma poda exagerada nas árvores localizadas na calçada de um condomínio, faz todo sentido. Os cortes têm que ser feitos com orientação de botânicos e biólogos.

Há uma desconexão muito grande na Prefeitura. A Semsur (Secretaria Municipal de Serviços Urbanos) autoriza as podas, a Semurb (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo), é a que planta e distribui. Não há um centro de ajardinamento e arborização, o que seria importantíssimo para a cidade, concentrado essa atividade nas mãos daqueles que pensam no bem estar”, critica.

Segundo a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), o serviço em manejo arbóreo é referência na capital e esta em execução desde 2018. As podas seguem o padrão de sustentabilidade, não sendo ultrapassado os 30% da copa das árvores. No entanto, a Secretaria aponta exceções quando há a constatação – por parte da equipe técnica de manejo arbóreo – de galhos apodrecidos. Nestes casos, é feita a retirada de toda a parte afetada para que não ocorra risco de queda da árvore.

A Semsur também afirmou que todo e qualquer serviço só é executado após a análise de um técnico agrícola e a liberação de engenheiro agrícola. Além disso, o material proveniente da poda é triturado e utilizado para a produção de compostagem, que é utilizada em forma de adubo e aplicado nos canteiros e demais equipamentos públicos da cidade.

Qualidade de vida = Pujança econômica

Ainda em 2018, a estimativa era de que mais de 80 mil brasileiros estivessem morando em Portugal, segundo dados da União Europeia. Entre os principais motivos para a mudança, estava a busca pela qualidade de vida.

Para atrair idosos brasileiros, além da facilidade da língua, o custo de vida mais baixo, as belas paisagens e as ruas tranquilas e seguras, levaram muitos aposentados a se mudar para o país europeu. Uma realidade distante para a maioria da população, mas cuja ideia central pode ser aproveitada aqui. O desafio estaria em unir políticas públicas eficientes nos diferentes setores para melhorar a qualidade de vida das pessoas e, assim, tornar a estadia em Natal e sua inquestionável paisagem, em algo irresistível.

Todas as cidades que investiram maciçamente em qualidade de vida, tiveram pujança econômica. Nossa natureza é linda, está entre as 50 mais bonitas do mundo, mas se você a remove, observa como a cidade é feia. Tire o Morro do Careca, o Parque das Dunas, a Via Costeira, as árvores…não resta nada!  Por que não trazer essa natureza para dentro da cidade?  Para fazer aquela obra da Bernardo Vieira, foram removidas 242 árvores, algumas centenárias, que nunca foram repostas”, lamenta o ambientalista.

 

 

 

 

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