CIDADANIA

Sem carne na gestão Geraldo Melo, sem plano de saúde no governo Robinson Faria

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Quando Kelline entrou para o serviço público estadual em 1990, o governador da época vivia às voltas com o título nada honroso de inimigo do funcionalismo. Geraldo Melo, empresário ligado à exploração de cana-de-açúcar em Ceará-mirim, carrega ainda hoje as marcas dos atrasos de salários dos servidores. Aos 18 anos, Kelline Lima via em casa o desespero dos pais, ambos funcionários do Estado. Quem livrava a sorte da família era a mãe, que acumulava a função de professora do Estado com as aulas pagas pelo município de Natal.

– Quando entrei para o Estado ainda passei vários meses sem receber, mas tinha pai e mãe, era muito jovem. Quem mantinha a casa era minha mãe, também concursada da prefeitura de Natal, mas lembro de vê-la chorando porque chegou dias de não ter carne em casa. Meu pai era músico da Orquestra Sinfônica, o governo Geraldo Melo foi trash nesse sentido.

O cenário, 28 anos depois, parece um filme trash repetido. O Geraldo Melo que jogava a culpa da crise no antecessor Radi Pereira foi substituído pelo Robinson Faria que responsabiliza a dívida herdada da antecessora Rosalba Ciarlini e a crise nacional pelo caos financeiro atual.

Guardadas as devidas proporções, Kelline revive o drama dos pais quase três décadas depois. E usa uma diferença em seu favor. Se nos anos 1990 o único espaço de reivindicação era a rua, hoje a funcionária da Fundação José Augusto ocupa também as redes sociais. Nesta segunda-feira (29), após receber comida de um irmão e de uma amiga, Kelline escreveu um desabafo no facebook:

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– (…) São meses de dívidas se acumulando, de contenções, de desespero muitas vezes. Minhas economias já se foram. Só tive ceia de Natal porque meu tio fez as compras e só estou comendo esse mês porque meu irmão e uma grande amiga que também estão passando por essa crise (quem não está?) vieram aqui me deixar cada um uma feira, dividindo comigo um pouco do que tem. Estou fazendo essa postagem primeiro para agradecer ao meu irmão Carlos Alessandro Lima e a minha amiga Zuleika Areias pela grande ajuda e também para falar da minha indignação frente a esse governador de araque que temos a frente de nosso estado.

Kelline Lima é funcionária da Fundação José Augusto

Em razão de empréstimos consignados que descontam aproximadamente 35% de seu vencimento, Kelline recebe na faixa dos servidores que ganham até R$ 3 mil. Divorciada, vive com dois filhos num apartamento de classe média, no bairro de Nova Parnamirim, cujo aluguel já consumiu quase toda a poupança que mantinha há alguns anos. O plano de saúde da servidora foi cortado pela empresa. A pensão paga pelo ex-marido ainda garante os planos de saúde dos filhos, e pesa menos a condição dos dois serem estudantes da UFRN.

– Já foi embora plano de saúde. Essa semana fui atendida pelo SUS, ocorreu tudo bem, mas eu pagava o plano há cinco anos, não tinha mais carência. Esse apartamento eu aluguei porque queria morar no meu lugar. Morava com quatro irmãos e duas crianças na casa que era dos meus pais. Quando conquistamos o plano de cargos e salários melhoramos de vida, mas jamais pensei que fosse passar pelo que estamos passando e nem pelo que meus pais passaram nos anos 1990.

Algumas colegas de Kelline não sabem nem mais a que mês se refere o pagamento quando o dinheiro cai na conta. Na caderneta da servidora está anotada a última promessa do Governo: pagar dia 6 de fevereiro de 2018 o salário de dezembro de 2017. Sobre o 13º salário, o Executivo propõe que os servidores façam um empréstimo. Kelline já decidiu: vai esperar.

– Quem me garante que o Governo vai pagar o Banco ? O Governo !? Eu prefiro esperar mais um pouco e receber o salário completo. Tem uma colega da Fundação José Augusto que não sabia nem por qual mês tinha recebido o último pagamento. Eu estou anotando já. O cartão de crédito também não paguei e já recebi notificação.

O Estado possui aproximadamente 110 mil servidores entre ativos, inativos e pensionistas. São milhares de Kellines que trocaram a luta por melhores salários pelo direito de receber o próprio salário.

Kelline Lima sabe que, apesar das dificuldades, há situações bem piores do que a dela no Estado. Ciente de que o problema não acontece apenas no Rio Grande do Norte, desconfia das reais intenções do pacote fiscal que o Governo enviou para a Assembleia Legislativa. A aliança da gestão Robinson Faria com o governo Temer é criticada pela servidora:

– Eu sei que não é apenas aqui, mas o Rio Grande do Norte parece que está de acordo como governo Temer, parece que quer justificar todos os problemas. Retirar direitos dos servidores aprovando essas medidas não é para melhorar a vida de ninguém.

A angústia com a situação passou à cobrança na mensagem postada no facebook. Kelline Lima não se conforma com a inércia dos colegas diante dos atrasos dos salários:

– (…) Estamos no mesmo corredor rumo ao matadouro. Sem a união de todos não será possível reverter esse quadro, esse abismo que está nos engolindo. No final disso tudo restará apenas milionários e miseráveis e seremos lembrados vergonhosamente pelos nossos descendentes como um povo fraco, burro e idiota que se calou frente a todos esses absurdos. Seremos uma vergonha para nossa descendência que não terá um futuro digno devido a nossa omissão.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"