TRANSPARÊNCIA

“Sem legitimidade é difícil gerir uma instituição”, avalia reitor do IFRN após queda do último interventor de um Instituto Federal no país

O professor de Educação Física do Instituto Federal do Rio Grande do Norte José Arnóbio de Araújo Filho ocupa o cargo de reitor eleito da instituição há 6 meses, mas poderia estar 10 meses a mais no exercício da função. Precisamente, desde abril de 2020, quando o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub nomeou o interventor Josué Moreira para o lugar dele.

A nomeação aconteceu à revelia da comunidade do IFRN e com um agravante: Moreira sequer participou do pleito, que terminou com Arnóbio eleito com 48,6% dos votos. Diferentemente das universidades federais, que encaminham ao MEC uma lista tríplice para a livre escolha do presidente da República, o regimento interno dos institutos federais prevê que a nomeação do reitor deve obedecer a decisão popular.

Durante o governo Bolsonaro, pelo menos três IFs sofreram intervenção na reitoria. Além do Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Santa Catarina também passaram por ataques semelhantes. Na segunda-feira (6), caiu o último interventor. O professor Maurício Gariba Júnior retomou o posto para o qual foi eleito. Pela porta dos fundos, saiu André Dala Possa.

Para Arnóbio Araújo, o impacto da intervenção sobre o tripé “ensino, pesquisa e extensão” só não foi pior no IFRN porque os diretores gerais tiveram que tomar posse. Ele também faz questão de valorizar o papel e a independência dos conselhos:

– A intervenção impactou de forma negativa. E só não foi pior porque tínhamos a legitimidade dos diretores gerais que foram eleitos e tiveram que ser empossados. Se além do reitor pro-tempore tivéssemos tido diretores pro-tempores com certeza o dano tinha sido muito maior. Então, o que fez com que o dano não fosse maior foram os diretores eleitos que foram empossados e os nossos conselhos, que seguraram as barras mais pesadas durante os 8 meses de intervenção”, destacou.

Saiba Mais: Cai o último interventor dos Institutos Federais: reitor eleito de Santa Catarina é nomeado

José Arnóbio de Araújo Filho tomou posse em 5 de fevereiro de 2021, 10 meses após ter sido negada a nomeação dele / foto: cedida

Durante os 10 meses de intervenção de Josué Moreira, sobraram truculência, falta de diálogo e até tentativa de censura à imprensa. O ex-interventor acionou a agência Saiba Mais na Justiça para que o veículo retirasse do ar uma entrevista publicada com o reitor eleito José Arnóbio no dia 20 de abril, quando Moreira foi nomeado no lugar de Arnóbio.

A questão central, para o reitor, é a legitimidade. Numa instituição de ensino, com tanta diversidade, o diálogo é fundamental:

Sem legitimidade é muito difícil você gerir uma instituição, principalmente uma instituição pública de ensino. E isso é muito complexo porque essas pessoas não tinham legitimidade. Então essas pessoas partiram para outra forma de administrar a instituição, onde o diálogo é essencial. Se não bastasse tudo isso a gente tem outros problemas. Eles demoraram a fazer a composição das equipes, com pessoas que não conheciam o dia-a-dia e a nossa estrutura, o que comprometeu nosso fazer. Então os oito meses de administração pro-tempore vivenciados no IFRN deixaram sequelas muito ruins. Por desconhecimento, falta de legitimidade, por inoperância de ações. Acabou que prejudicou todas as ações da instituição”, reflete.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"