OPINIÃO

Semana de trevas

O historiador Durval Muniz escreve aos domingos na agência Saiba Mais

Essa semana que se inicia é conhecida como semana santa. A quinta-feira será a chamada quinta-feira de trevas, dia em que Jesus teria sido traído por Judas, e aguardado sua prisão, orando e sofrendo no Horto das Oliveiras. Mas a semana que se passou, tanto no país, como no mundo, bem que podia ser nomeada de semana de trevas. Na quarta-feira, a partir das 16 horas, tivemos um dos maiores feitos do governo golpista, que infelicita o país: as trevas se abateram sobre todo o território nacional. Norte e Nordeste, essas regiões sempre privilegiadas quando se trata de incúria e desgraça, ficaram totalmente entregues ao caos e ao breu por quase quatro horas. O trânsito nas cidades colapsou, todo o comércio fechou as portas. As pessoas assustadas, presas em longos engarrafamentos, sem terem como se deslocar, apavoradas com a possibilidade de violência, disputavam a tapa os poucos táxis e ônibus que conseguiam rodar. Finalmente Miriam Leitão, a urubóloga nacional, que desde que Dilma Rousseff era Ministra de Minas e Energia do primeiro governo Lula preconizava e desejava um apagão, viu ele concretizado, mas pelo governo que ajudou a colocar no poder, com seu jornalismo econômico de guerra, com sua militância contra os governos do PT, todas as manhãs de seus dias. Apagão motivado pela política de privatização do setor elétrico, que entregou a principal linha de transmissão da hidrelétrica de Belo Monte a uma empresa chinesa, que resolveu fazer testes na linha em pleno horário de pico de consumo. Técnicos da Eletrobras, empresa que o governo golpista já resolveu entregar ao capital estrangeiro, apontaram o absurdo de tal procedimento, nesse horário. O funcionamento de um país entregue a uma multinacional chinesa, que a qualquer momento pode jogar o país no caos e na paralisia. Isso em tempos de paz, imagine em tempos de guerra? Visão estratégica e soberania nacional nenhuma. De quem foi essa decisão trevosa: do governo Dilma Rousseff.

Na terça-feira, o apagão havia acontecido no Supremo Tribunal Federal, apagão da urbanidade, da civilidade, da polidez, da dignidade. Dois ministros do STF a se comportarem como moleques, quase se estapeando em público. A fala do irreconhecível ministro da mansidão, da racionalidade e dito de esquerda (como essa palavra anda desmoralizada), ficou conhecida como “Gilmar, pessoa horrível”. Votando sempre com as teses mais retrógradas e alimentando a pretensão legiferante e policialesca da Corte, Barroso, chamou seu colega de psicopata, desequilibrado, pessoa de maus sentimentos, etc, etc. A fala virou hit na internet, música, poema, tudo porque do outro lado temos uma das figuras públicas mais toscas de nossa pobre República: Gilmar Mendes. Sua capa preta representa trevas no pensamento, nas ações, nas declarações. Ataca descaradamente seus colegas, julga na mídia, solta sistematicamente seus amigos, atua de forma partidária e parcial de forma descarada, manobra politicamente nos bastidores, foi uma pedra angular do golpe. A manobra que promoveu no TSE para livrar Temer de uma cassação de mandato foi de corar até defunto. Depois de perseguir por meses a fio a presidenta Dilma Rousseff, ele votou contra a sua cassação só para beneficiar o presidente golpista com quem se encontra na calada da noite. Sim, porque esses personagens são noturnos, são trevosos, é nas sombras que eles se movimentam com desenvoltura.

Barroso que havia chamado Gilmar de pessoa horrível, na quinta-feira, foi um dos quatro ministros do STF que tiveram coragem de votar contra o que diz a Constituição, que eles estão ali para defenderem. Votou para que o pedido de Habeas Corpus de Lula sequer fosse admitido, sequer fosse analisado, apoiado na decisão trevosa do mesmo STF que desobedecendo a lei maior do país instituiu prisão de réus sem que o processo tenha tramitado em julgado até a última instância. Resolução casuística que agora o mesmo STF quer rever, mas que a presidente do tribunal, que lembra uma típica figura noturna, vem protelando a votação para que o golpe que apoiou e promoveu possa se consolidar com a prisão do ex-presidente. Seres da noite querendo aparecer com suas faces vampirescas sob as luzes dos holofotes da mídia, às custas da liberdade e do sofrimento dos outros.

Na semana de trevas, o vampiro neoliberalista saiu de sua caverna e foi ao Rio de Janeiro afirmar que a intervenção na segurança pública do Estado é um sucesso. No mesmo dia quatro policiais foram mortos em diferentes pontos da cidade. O comandante da operação, mais comedido, reconheceu a impossibilidade de que venha por si só resolver o problema da segurança, que requer políticas sociais e de longo prazo que o governo golpista não só não está promovendo, como está destruindo as que existiam. A semana de trevas só podia terminar com a reportagem de capa da revista Isto É, anunciando que o usurpador tem mesmo intenção de se candidatar à reeleição em outubro. Semana em que a pesquisa Ipsos/Estadão, insuspeita por sua origem golpista, dava ao comandante máximo do caos e das trevas 94% de rejeição. Mas como ficamos sabendo que ele fez um implante de um aparelho auditivo, supomos que além de cego, surdo também será.

No Rio Grande do Sul a sombra do fascismo interrompeu os caminhos da caravana de Lula por aquele estado. Os ruralistas, grandes latifundiários da fronteira sul, tentaram impedir que Lula e sua comitiva entrassem e falassem para o povo nas cidades. Com a cumplicidade de um governo do estado omisso, com a conivência das forças de segurança um cidadão brasileiro, com plenos direitos políticos, é impedido de falar para multidões que o queriam ouvir. Atentando contra a democracia, a liberdade de expressão, o direito de ir e vir, cometendo crimes como o espancamento até de mulheres grávidas, interrompendo estradas com pneus, tratores, caminhões, usando pedras, paus, coquetéis molotov, socos ingleses, rojões, dinamites, atacando as pessoas que se reuniam nas estradas para ver Lula passar, para abraçá-lo, saudá-lo. Minorias intolerantes, sem apoio popular, donos de latifúndios que vêm da colônia, ameaçaram, através das redes sociais, explodir o hotel onde Lula dormiu, furar os pneus do ônibus onde viajava, ataca-lo com dinamites.

No Rio Grande do Norte, o Ministério Público, a partir de uma ação de um partidário de Jair Bolsonaro, convoca para prestar esclarecimentos os professores que estão ministrando o curso sobre o golpe na UFRN. No Rio Grande do Sul, outro membro do Ministério Público tentou impedir que Lula participasse de uma atividade na Universidade que ele criou e instalou.

Nos Estados Unidos, Donald Trump inicia uma guerra comercial com a China, que já fez as bolsas de valores caírem em todo mundo e ameaça a frágil recuperação da economia capitalista, estagnada e improdutiva, entregue a sanha especulativa do capital financeiro. Descobre-se que os dados de mais de 50 milhões de usuários do Facebook foram utilizados, entre outras coisas, para beneficiar a campanha de Donald Trump à presidência da República. Diante do fato, Julian Assange do WikiLeaks, afirma que a rede social é, na verdade, uma rede de espionagem, um meio das forças de segurança americanas controlarem a vida de milhões de pessoas. Paulo Henrique Amorim denuncia que a rede social vem censurando seus posts e dificultando a leitura e acesso à página do Conversa Afiada.

Na Espanha, o Judiciário, com a mesma vontade de governar o país que vem demonstrando o Judiciário brasileiro, envia para a prisão toda a cúpula do governo da Catalunha que promoveu o plebiscito em torno da possível independência daquela província espanhola. O Parlamento não consegue derrogar uma lei que permite a prisão indefinida de alguém, bastando que um juiz assim o determine a cada revisão do caso. Um imigrante senegalês, que vendia mercadorias sem pagamento de impostos, nas ruas de Madrid, morreu do coração ao ser atacado pela polícia. No domingo, as eleições italianas mostraram o crescimento da extrema-direita e a falência dos partidos democráticos.

E terminamos a semana com mais um ataque terrorista à cidadãos comuns em Paris.

Para onde olhamos vemos as trevas se espalhando. Vivemos tempos sombrios e assombrosos. As assombrações resolveram sair à luz do dia para nos obsedar. Como dizia Walter Benjamin, vivendo sob outros tempos trevosos, nesses tempos é preciso que cada um sopre a pequena brasa de esperança que teima em queimar, em permanecer viva sob as cinzas dos escombros e das ruínas.

 

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos