OPINIÃO

Ser vacinado ou não ser? Eis a questão (para os bolsonaristas)

Não deve estar sendo um dia fácil para os bolsonaristas que há tempos apregoam a não vacinação e insistem que a Covid-19 é uma farsa e a partir destes argumentos criam uns tantos outros que vão do negacionismo puro e simples até mirabolantes teorias da conspiração.

O fato é que seguir o despresidente Jair Bolsonaro atualmente exige do discípulo uma ginástica argumentativa exaustiva (e tediosa e cômica para quem escuta). A sequência inacreditável de sandices em relação à vacina da Covid-19 não apenas ilustra bem isso como dimensiona o cenário obscurantista em que chegamos.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro minimizou a doença. Fez chacota com sua gravidade, chamou de “maricas” quem evitava aglomeração, até que, como seria de se prever, desdenhou da vacinação, o que até teria – dentro da loucura (que tem método, como diria Polônio em Hamlet) certa lógica, pois já que não existia (para ele) doença grave, então não haveria porque existir vacina. De maneira que seu desgoverno sabotou e ignorou quaisquer compra ou produção de vacinas, seringas e insumos.

De maneira que o governador de São Paulo, João Dória, seja por nobres razões ou por ambição política, não importa no momento, percebeu o vácuo de liderança e o negacionismo e investiu pessoal e pesadamente na vacinação pelo Butantan, órgão sanitário e científico estadual. Conseguiu vencer a “corrida pela vacina” e iniciou a vacinação no Estado de SP, com ampla publicidade para a primeira pessoa no país a ser vacinada, uma enfermeira negra.

Bem, pressionados, Bolsonaro manteve estranho silêncio durante o fim de semana e o inepto ministro Pazuello primeiro se irritou com a vacinação (único ministro da Saúde do Mundo a se aborrecer com a vacinação da população do seu país) depois viu que teria de ceder e adiantou o contato com governadores para viabilizar a vacinação nos Estados.

Então, chegamos aqui ao ponto em que o Governo que achava que a Covid era uma gripezinha e que “não havia pressa para a vacina” quando se viu “em competição” passou a ter pressa e a querer as vacinas para uma doença que, segundo muita gente do Governo, não era nada grave ou sequer existia.

Agora vamos aos bolsonaristas anônimos, esse magote de 15% a 25% da população que parece apaixonada por Bolsonaro, algo que transcende a esfera de pautas políticas e gravita entre uma pauta “moral e de costumes” e de uma identificação de comportamento. Esses, passaram meses sustentando – como o líder deles – que não tomaria a vacina, seja por ela “não ter eficácia comprovada”, “por ser chinesa”, “por implantar um chip em quem a toma” e outras insanidades assemelhadas.

Pois é, esse pessoal agora vê o próprio Governo distribuindo as vacinas e fazendo a logística de vacinação. Afinal de contas, uma outra questão hamletiana: Ser ou não ser vacinado, eis a questão? Qual posição governamental este pessoal seguirá? A dos últimos  meses, de negacionismo da doença e da vacina? Ou o atual, de que a vacinação tem que ser coordenada pelo Governo e não por cada estado individualmente, ou seja, o Governo planeja e quer todos vacinados?

Essa pergunta e esses dilemas flertando com a ironia ganham mais peso ao ver figuras proeminentes do bolsonarismo, como o senador Flávio Bolsonaro, o filho 01 do presidente, aquele das rachadinhas, postando nas redes sociais que a vacina no Butantan (ou seja a “chinesa”) foi bancada com dinheiro do Governo Federal. Pera aí, Bolsonaro não disse em dezenas de lives que não investiria um real em vacinas? E o bolsonarismo que chama a doença de “vírus chinês” não critica há meses a tal “vacina chinesa”, por que agora quer ter a “paternidade” da vacina?

Enfim, jogo político e dos mais rasteiros. Não sou ingênuo e sei que Dória, como disse acima, também age com projetos políticos, mas, menos mal que ele faz um cálculo político que salva vidas. O jogo político do bolsonarismo, pelo contrário, sempre tem a ver com o desprezo pela vida.

Não é hora de cálculos políticos, é hora de vacinar a população. E como diz aquele meme, tanto faz se a vacina é chinesa, inglesa, russa, jamaicana ou do Sri Lanka. Nunca soubemos anteriormente a procedência das vacinas e sempre nos vacinamos e aos nossos filhos. Que o bolsonarismo politize, como vem fazendo, uma questão tão elementar de saúde. Mas, a verdade é que a partir de agora terá de dar um nó na cabeça para fazê-lo.

 

 

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