OPINIÃO

Será a volta da censura?

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As ditaduras nem sempre chegam de golpe. Às vezes ela vem chegando sutilmente, aos pouquinhos, com uma roupa bonita e um sorriso no rosto. Aí, tem aquele momento em que ela pisa em falso e sai do personagem.

Foi o que aconteceu na última quinta-feira, quando o desembargador Benedito Abicair, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, alegou risco de “consequências irreversíveis e desdobramentos inimagináveis” para censurar o especial de Natal do Porta dos Fundos, na Netflix. O vídeo não chegou a sair do ar e, logo, a proibição foi derrubada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli.

Mas nem assim o desfecho dessa história é bom. O simples fato de um juiz usar a censura como ferramenta para fazer justiça fere de morte a liberdade de expressão, além de abrir o armário onde guardamos um cabide cheio de mordaças.

E talvez sejam muitos os juízes que confiem à censura o papel de fazer justiça. E mais ainda os agentes de poder sedentos por decisões judiciais que calem as vozes que não lhes agradem.

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E quando falo em agentes de poder, não pense que estou falando apenas dos políticos desse país. É bem verdade que nossa classe política é apegada a autoritarismos que já não cabem em uma democracia. Alguns deles são tão dedicados em garantir o silêncio da oposição que estão dispostos a usar todos os mecanismos possíveis para calar as vozes dos inimigos, até mesmo comprar a mídia para ampliar a própria voz.

E quando eu falo em comprar a mídia, não é só com anúncios estatais, pagamentos de mensalidade a blogueiros famosos ou com ameaças mais graves contra a mídia da oposição. Tem tanto político literalmente dono da mídia no Brasil que fica difícil saber quem veio primeiro, o poder político para aparecer na mídia ou a exposição midiática para conquistar o poder político. Ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Mas os donos do poder econômico têm formas muito mais sutis de esconder as verdades que não lhes parecem interessantes para os negócios.

Os donos do agronegócio amordaçam as vozes dos trabalhadores sem terra, dos ambientalistas, dos sindicatos rurais se vendendo no intervalo da Globo com belas imagens da agricultura mecanizada da soja – nos campos que uma vez foram a Floresta Amazônica ou o Cerrado. Nenhuma cena de trabalhadores em situação de escravidão ou dos animais mortos com as queimadas dos canaviais. E a mídia se faz de muda com a liberação indiscriminada de agrotóxicos. Inventaram até um nome mais bonito: agrodefensivos. Também deram um jeito de criminalizar as ações do MST e ignoram a lei de terras, que exige que a terra cumpra com sua função social de produzir alimentos. O crime é o latifúndio improdutivo e não a ocupação de terras, ao contrário do que sai na TV.

Os banqueiros também são grandes censores dos meios de comunicação. De forma quase invisível, eles ocupam não só os intervalos comerciais no rádio e na TV e os anúncios da internet, como toda a pauta da cobertura econômica. As instituições financeiras colonizaram as redações com suas ideias liberais e povoaram os estúdios e as páginas de opinião com especialistas “isentos” para defender seus interesses. Quem de vocês não está tentado a transferir o dinheiro da poupança para um investimento mais “arrojado” e que garantam rendimentos mais “robustos”, seguindo a orientação dos especialistas?

Eu poderia passar o dia listando os censores da mídia nacional, mas certamente vai faltar paciência aos apressados leitores da internet. Mineradoras, siderúrgicas, indústrias petroquímicas, a construção civil, a indústria automotiva, bispos católicos e evangélicos, cartolas de futebol, agressores de mulheres e da população LGBTI, exploradores de crianças e adolescentes…

No fim das contas, fica difícil saber se a censura está voltando ou se ela algum dia foi mesmo embora.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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