OPINIÃO

Será que o futebol do RN vai sobreviver à gestão de José Vanildo?

Eu me lembro muito bem. José Vanildo da Silva era um vice-presidente sem importância, dessas figuras do esporte que, muita gente imaginava nunca aspirar mais do que fazer parte de administrações do futebol. Ali pelos cantos, como quem não quer nada…sua ligação? Quase nenhuma. Dois irmãos ex-jogadores – Wilde e Bebé -, foram meus companheiros de Força e Luz, infelizmente ambos já falecidos, mais nada. De repente, Alexandre Cavalcante herda a FNF depois da intervenção na gestão de Nilson Gomes e, não se sabe bem os motivos, ele abre mão do cargo e Vanildo assume. Primeiro ato.

José Vanildo, eu conhecia, já disse, de estreita ligação por conta do Força e Luz, onde comecei minha carreira de jogador de futebol. Ele fazia questão de sempre destacar minha amizade (descobri depois, claro, que ele era amigo do jornalista, e só) e contava comigo para garantir o sucesso dos “novos tempos” no futebol do Rio Grande do Norte. Ele precisava de mídia e elogios. Nesse momento, lembro do personagem de humor do ator Francisco Milani, “EU ACREDITEI!!!”. E começou o novo tempo na entidade. Diria até que, nos primeiros anos, a impressão realmente era de mudanças para melhor. Foi só impressão.

Logo, José Vanildo estava agindo da mesma forma de seus antecessores Pio Marinheiro de Souza Filho e Nilson Gomes da Costa. Esse último passou 23 anos “arrasando” o nosso futebol que, com o Vanildo, eu pensei que teria a reconstrução. O novo presidente em pouco tempo já se alia com o povo da CBF, não tem vez, voz, mas tem voto e vai conseguindo suas migalhas, mas sem nada de concreto para o futebol do Rio Grande do Norte, para os filiados, além das benesses que o cargo oferece a todos os presidentes “amigos”. Não por menos, foi convidado especial à Copa da Rússia.

Ao longo dos últimos anos – ele está desde 2007 e garantido até 2022, isso já dá 17 anos de mandato – José Vanildo tem promovido um verdadeiro desmonte de nosso futebol. Acabou com as ligas dos bairros, que realizavam campeonatos e seus presidentes com direito a voto; transformou nossos campeonatos de bases em torneios relâmpagos; praticamente eliminou qualquer chance de desenvolvimento do futebol feminino – o último campeonato teve a participação de três equipes – sem falar no enfraquecimento e até desaparecimento de tradicionais clubes de nossa história.

Nossos campeonatos estaduais, agora reduzidos a oito equipes, é feito quase a toque de caixa, com ações mínimas – Cajulino e escolha da musa – sem premiação para vencedores ou qualquer tipo de apoio, mesmo quando o site da entidade está lotado de banners de “parceiros ou patrocinadores”, não sei bem, a entidade também não explica. Afinal, quem é o responsável pelo público nos estádios? No seu último ato, o mal explicado encerramento do contrato com a tevê EI, sem que todos os clubes tenham recebido seu quinhão pela rescisão. ABC e América confirmam que sim, mas e os outros? O campeonato não é feito somente pelos dois.

Além de todo o descaso, os absurdos, falta de prestação de contas, taxas altíssimas para inscrições de atletas e em competições, mesmo quando todos os desportistas falam das “mesadas” que recebem da CBF, Vanildo ainda cobra 8% das rendas brutas dos jogos em detrimento de filiados, como Palmeira, Força e Luz, Potiguar, Santa Cruz, que praticamente pagam para jogar. O Palmeira, pelo menos, sequer pode honrar seu compromisso com os jogadores. No entanto, Vanildo da Silva tem a desfaçatez de dizer, em todo lugar que vai, da “grande ajuda” que presta aos clubes.

E as promessas? Foram tantas. A maioria até caiu no esquecimento. A última, ainda recordo, depois do imbroglio e ameaça de tomada do estádio Juvenal Lamartine pelo Governo, era transformar a praça num pólo formador de atletas com o apoio da CBF e a presença, de vez em quando, de jogadores da seleção. Nunca mais se falou nisso. Ao contrário, nosso JL – Estádio Juvenal Lamartine (essa a dor maior, a marca mais negativa da gestão desastrada), o berço de nosso futebol, que em 2020 vai completar 100 anos, foi deixado de lado. Incrível, até tirou a sede da FNF das salas do estádio, deixando-o entregue ao abandono e lixo, alugando uma casa e depois dependências de um prédio no bairro de Lagoa Nova. O nosso Jotinha, Interditado, hoje recebe, de forma ilegal (já que está interditado) os jogos das categorias de base.

Não sei se o futebol do RN, que perdeu o Coríntians de Caicó, primeiro campeão do interior; Santa Cruz do Inharé; Baraúnas e que tem o centenário Alecrim agonizante na segunda divisão, vai conseguir sobreviver à gestão de José Vanildo da Silva. E me pergunto até quando os dirigentes de nossos clubes vão continuar comungando e garantindo no cargo um dirigente que, todos sabem, está afundando, aos poucos, com os seus próprios clubes. Basta ver a situação atual, onde o América, que já foi duas vezes da elite do nosso futebol, luta para sair da quarta divisão; o ABC, muita gente já começa a desconfiar que, tão cedo, não monta um time para volta sequer à Série B.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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