OPINIÃO

Será uma luz no fim do túnel?

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Otimista, eu nunca fui. E a conjuntura dos últimos anos não fez muito esforço pra dissipar a sensação de que está tudo perdido. As palavras de ordem parecem prenunciar o que jamais vai acontecer. As grandes tacadas resvalam de fininho e deixam o jogo exatamente como estava antes. As cartadas de mestre quase sempre não passam de blefes, ou a banca rapidamente desmonta qualquer possibilidade de virar o jogo.

Na última sexta-feira, a divulgação pública da escatológica, estapafúrdia e extemporânea reunião ministerial, nem sequer acendeu a faísca da esperança de que algo ia dar muito errado pra eles. Mal começou o palavreado, senti que ia rolar uma química explosiva entre o desmandatário nacional e o brasileiro médio – que pode estar tanto no alto do arranha-céu quanto no barraco da favela, mas que comungam das mesmas ideias, por vias diferentes. Nem mesmo a afiada edição do Jornal Nacional aliviou minha tensão.

Aí veio o fim de semana, e parece que eu estava certo. A máquina de moer fatos operada pelos inquilinos do poder está sempre pronta para fazer limonadas dos piores limões, não importa o azedume. As manchetes dos jornais nem lembram mais da reunião e voltam a se escandalizar com a participação do despresidente nas desprestigiadas manifestações a seu favor e, que absurdo, sem máscaras e sem distanciamento social.  Dou por visto a cara de abuso dos comentaristas das Globo News repetindo a mesma ladainha e lendo, tuíte atrás de tuíte, o sentimento de repúdio da sociedade.

Até que fui atacado, em pleno domingo, por uma notificação de celular que dizia “MILITARES ATACAM STF“, assim mesmo, tudo em maiúsculas. Pensei, pronto, pelo menos acaba o suspense e eu posso ser pessimista em paz. Não foi dessa vez (e espero que não seja nunca). O ataque veio de uma nota lançada por um magote de generais de pijamas contra os ministros do Supremo Tribunal Federal.

Como bom pessimista, pensei logo que a única solução seria mandar prender esses idosos saudosos da ditadura, solução essa que jamais seria cogitada em qualquer contexto, e muito menos agora.

É que, quando a cabeça entra no modo pessimista, as soluções são sempre assim: insolúveis.

Foi no twitter que terminei o domingo com a cabeça cheia de ideias. Fui atrás do recém-desembarcado gigante adormecido, que vinha dando o que falar lá nos Estados Unidos e Europa e chegou causando por aqui. Foi aí que o otimismo adormecido na minha cabeça pareceu querer acordar também.

A ideia não é nova, e sempre que aparece, dá resultados positivos. Tire o dinheiro e tudo começa a desabar.

Com um perfil no twitter, um cidadão (ou grupo de cidadãos) começa a monitorar os grandes disseminadores de desinformação, as malfadadas e tão faladas feique nius, e passa a alertar grandes marcas e grandes empresas que pagam por anúncios na internet e mal sabem onde a própria publicidade vai parar.

Foi assim que o grupo Sleeping Giants esvaziou as contas de um dos principais portais da extrema direita estadunidense, o Breitbart News. Seu editor, Steve Bannon, reconheceu que perdeu cerca de 56 milhões de reais com a perda da publicidade provocada pelos tuiteiros.

Por aqui, a pancada foi tão forte que, em uma semana, o perfil nacional do Sleeping Giants já tem quase tantos seguidores quanto a versão americana criada em 2016, o que rendeu menção na página americana, ainda que o grupo gringo tenha negado relação com a turma nacional.

Quase 30 marcas já anunciaram a retirada de anúncios do Jornal da Cidade Online, primeiro alvo do grupo por aqui. Só o Banco do Brasil resolveu voltar atrás depois que o filho odioso do presidente reclamou para o filho poderoso do vice-presidente e que comanda a comunicação do banco público. A loja de roupas e calçados Zattini, o site de jogos eletrônicos Gamers Club e a marca Riachuelo, do grupo Guararapes, também seguiam com anúncios no portal – talvez por ainda não terem sido alertados pelo Sleeping Giants ou por apoiarem o fanatismo de extrema direita mesmo. Vai saber.

Em outros tempos, foi assim que a campanha “Quem financia a baixaria é contra a cidadania” ajudou a alavancar a derrocada dos programas que promoviam ofensas e humilhações na televisão brasileira. Era um trabalho de formiguinha, de alertar empresas, convencer publicitários e finalmente conseguir o cancelamento de contratos de patrocínio.

Na internet, esse trabalho braçal parece fundamental, já que as empresas que distribuem os anúncios, como o Google e o Facebook simplesmente lavam as mãos em nome da manutenção dos lucros. Elas, mais do que ninguém, têm as ferramentas para identificar e bloquear a renda de sites, páginas e portais que disseminam informações falsas, discursos de ódio e outros extremismos. Eles simplesmente preferem não fazer muita coisa.

Um pessimista não se deixa convencer tão fácil, mas começo a ver a uma luz no fim do túnel. Quem sabe a gente não desperta os gigantes adormecidos com novas ideias para combater novos e velhos problemas.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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