ENTREVISTA, Principal

Sérgio Gabrielli / Entrevista: “Lula estará presente na mobilização do povo”

O economista baiano José Sérgio Gabrielli, 67 anos, é o coordenador executivo da campanha do ex-presidente Lula à presidência da República. É dele a tarefa de “organizar a tropa” em nível nacional, além de orientar as mobilizações nos estados.

Gabrielli ficou conhecido nacionalmente como presidente da Petrobras entre 2005 e 2012. Substituído da estatal pela engenheira química Graça Foster dois antes da Polícia Federal iniciar a operação Lava-jato com foco nos contratos da Petrobras, ele não responde a nenhuma ação criminal relacionada ao escândalo.

De passagem por Natal nesta terça-feira (24), Sérgio Gabrielli conversou com a agência Saiba Mais sobre os desafios de organizar uma campanha em que o personagem principal lidera todas as pesquisas de intenção de voto mesmo preso e, quatro anos após a Lava-jato, faz um balanço sobre o desgaste na imagem da maior empresa exploradora de petróleo do país:

Agência Saiba Mais: O senhor é coordenador executivo da campanha do Lula. Qual é sua função, na prática ?

Sérgio Gabrielli: Minha função é comandar a campanha do Lula, é comandar a tropa nacionalmente e nos Estados. Estamos organizando a campanha do Lula, que tem características essenciais. A primeira delas é que o Lula está preso, mas é candidato. A coordenação política da campanha é da Gleisi (Hoffmann), que é a presidenta do Partido. Toda a parte de articulação política e negociação está sendo tocada pela Executiva e pela Gleisi. A nossa função é montar a parte executiva. Vamos ter a comunicação da campanha e várias dimensões.

Quais ?

(A campanha) precisa ter relação com a grande imprensa, com a imprensa alternativa, precisa ter relação com as redes sociais, com as rádios, as televisões e precisa produzir material para o programa eleitoral. Evidente que isso tudo vai ser formado pelo programa de governo, que está sendo desenvolvido e já está na fase final, cuja coordenação é do Fernando Haddad, do Renato Simões e do Márcio Pochmann. A executiva, inclusive, já publicou as diretrizes gerais do programa. E o terceiro elemento é a mobilização. Vamos montar estruturas de mobilização de contato direto da campanha do Lula com todas as grandes cidades do país. Vamos ter uma pessoa em todas as cidades acima de 150 mil habitantes. Essa pessoa é quem vai coordenar atividades nos locais e também terá a função de articular com todas as demais cidades.

Como enfrentar o desafio de fazer campanha para um candidato que não estará presente fisicamente ?

A presença vai se dar na mobilização dos movimentos sociais e do povo em torno da liberdade do Lula, da campanha Lula livre, que é fundamental, e em torno das ideias-forças do programa que é “eu quero meu futuro de volta, eu quero ser feliz de novo”. A ideia de que eu já fui feliz, que minha felicidade foi roubada por esse governo. O Lula é candidato para o povo ser feliz de novo. São as ideias-força programáticas e a mobilização em torno do “Lula Livre” que serão a mola mestra da campanha.

De que forma as realidades estaduais influenciarão na campanha nacional ?

É claro que isso ocorre muito fortemente nos estados e as chapas de governadores têm base política distinta nos estados. Temos desde lugares onde o PT está praticamente sozinho à lugares em que o PT tem até 21 partidos apoiando. As realidades políticas estaduais também serão levadas em conta. Estamos muito bem nas candidaturas a governador no Nordeste. Aqui no Rio Grande do Norte sem dúvida nenhuma a Fátima é uma grande candidata com enorme potencialidade de ser a próxima governadora do Estado. Temos menos viabilidade em campanhas no sul, mas apesar disso estamos crescendo em alguns estados e podemos surpreender.

E nas demais regiões onde o PT não está tão bem posicionado ?

Estamos de forma diferenciada nos estados do Norte, entre nós e um candidato que representa Temer ou Bolsonaro ou o Alckmin. Portanto teremos uma polarização nacional, digamos, fora do centro do Sudeste. Rio, São Paulo e Minas Gerais está dividido. Temos grandes chances de ganhar o governo de Minas, vamos crescer no Rio e em São Paulo e, portanto, nossa visão é que temos todas as chances de ganhar a eleição nacional indo para o segundo turno, ou não. Se o Lula for o candidato, as chances do Lula ganhar no primeiro turno são reais. Se não for o Lula, provavelmente iremos para o segundo turno e disputaremos a presidência da República.

O PMDB é o partido do golpe, embora não tenha sido o único. O fato do PT se coligar ao PMDB em alguns estados não atrapalha o discurso ?

Não complica porque o golpe foi feito para tomar os direitos do povo, o golpe foi feito para diminuir o tamanho do estado nas políticas sociais, o golpe foi feito para atacar a soberania nacional e moldar o país de uma minoria do nosso povo. Nós queremos o contrário. Queremos aumentar inclusão social, diminuir a desigualdade no país, retomar política de geração de emprego e renda, que o país volte a crescer e ter esperança no futuro. Esse é o elemento programático fundamental. E é isso que vamos defender na campanha. Nos estados, com coligações mais amplas, nós conduzimos as chapas majoritárias. Não estamos a reboque dos outros partidos. Onde estamos mais sozinhos, nossa chance de ganhar são menores. O fato é que a coligação estadual é entorno das questões estaduais. Não acreditamos que isso vá afetar fortemente a política nacional, que tem um norte muito claro, que é a retomada de distribuição de renda no país.

Você citou São Paulo e Rio de Janeiro como estados onde o PT deve crescer, mas há enormes dificuldades. No Rio de Janeiro, por exemplo, há um recall do apoio ao Sérgio Cabral nos últimos anos, que deve ser lembrado na campanha. E o PSDB, mesmo há 20 anos em São Paulo, segue com o Dória em primeiro. Nesses estados será uma eleição para cumprir tabela ?

Nesses dois estados o Lula está bem, crescendo. Nossa chance de ganhar com o Lula no Rio e em São Paulo é real. Estou falando de eleição nacional. É evidente que nossas candidaturas estaduais têm dificuldades, mas estão crescendo. O Rio é um estado muito dividido em termos de periferia e zona sul. Estamos crescendo muito, podemos crescer na zona sul, o Rio tem múltiplos candidatos, o que está na frente hoje é o Romário, e há uma dificuldade para saber o que vai acontecer. Estou separando a campanha nacional da estadual. E na nacional vamos disputar. Mas as campanhas estaduais vão crescer se vinculadas à campanha nacional. As alianças que temos em São Paulo e no Rio de Janeiro são restritas, nesses estados não temos amplas alianças. Então vai ser uma campanha muito mais nacional do que em outros estados.

A comunicação terá um peso grande na campanha. Quando se fala em erros dos governos do PT, é recorrente lembrar o não enfrentamento do monopólio da mídia. Essa também é sua avaliação ?

Acho que um dos erros fundamentais para a democracia brasileira, e não apenas do PT, mas desse processo vivido no país, é a concentração econômica da mídia brasileira nas mãos de poucas famílias. Isso é ruim para a democracia. Temos hoje poucas famílias controlando as maiores redes de televisão, que são donas das rádios, dos principais jornais, e as mesmas famílias também são donas das principais revistas e dos grandes portais da área da internet. O primeiro elemento fundamental é separar isso. Não podemos manter essa integração horizontal entre diversos tipos de mídia de uma mesma família. Isso não acontece nos EUA, então não é nenhum programa socialista, é um modelo utilizado por muitos países capitalistas democráticos modernos. Não deve haver propriedade cruzada de diferentes mídias.

A própria Constituição prevê isso. Aliás, o Franklin Martins, quando foi ministro do Lula, dizia que cumprir o que estava na Constituição já era suficiente….

É um elemento importante na reforma. O segundo é, dentro da televisão, diminuir o poder de concentração de algumas redes. Nos Estados Unidos também tem limite máximo de audiência que uma rede deve ter. Se passar desse limite tem que vender a transmissora. Isso é uma regulação econômica importante. Outra coisa é que temos um país diverso e temos que ter dimensão regional da mídia nacional. Não pode ficar tudo sendo produzido pelo Rio de Janeiro e São Paulo, com a produção artística e jornalística concentrada ali. Temos que forçar a redistribuição artística e jornalística nas demais regiões.

Essa visão sobre a importância da regulação econômica da comunicação o PT aprendeu com o golpe ?

O PT aprendeu com a experiência. Tentou fazer isso.

Menos do que poderia…

Não… acho que fez, mas usou poucos instrumentos. Se você pegar veículos patrocinados pelo governo durante o governo do PT e antes, o número mais do que triplicou. E com a mesma verba. Isso significa descentralização da verba publicitária do governo. Isso é suficiente ? Não, mas é uma passo de democratização. O governo avançou em redes comunitárias, nas rádios ? Muito pouco. Poderia ter avançado mais. Poderia ter uma política de estimulo às redes alternativas hoje, que é uma tecnologia crescente de 5, 10 anos para cá. Não fizemos. Acho que tem um pouco a experiência vivida e a dimensão da importância disso para a democracia. A ideia não é censurar, mas apenas evitar a concentração, que já acontece na atividade econômica. É uma regulação econômica, e não de conteúdo.

A mídia tradicional vendeu há quatro anos e segue vendendo ainda hoje que a sua gestão à frente da Petrobras e a gestão da Graça Foster quebraram a Petrobras. Que avaliação você faz da crise política em que a Petrobras mergulhou desde o início da operação Lava-jato ?

 Na minha gestão e na gestão da Graça, a Petrobras teve os maiores lucros da história a empresa. A Petrobras teve um enorme crescimento de capacidade de produção, a Petrobras aumentou a integração. No mercado de ações, teve o maior valor durante o nosso período. A Petrobras entra numa turbulência em 2014, eu saí em 2012. E nessa época culmina três coisas: primeiro, o preço do petróleo desaba. Em dezembro de 2014 o preço do barril era 107 dólares e em julho de 2015 estava 37 dólares. Nenhuma empresa de nenhum setor aguenta uma queda de preço dessa magnitude em seis meses. E a Petrobras sofreu isso. Em segundo lugar, a Petrobras sofreu um aumento na taxa de câmbio. Saiu de 1,94 para 3,40 o dólar. Isso teve um impacto enorme na dívida da Petrobras sobre a capacidade de pagamento da empresa, principalmente se os preços domésticos não acompanharem. O terceiro problema foi que a Petrobras sofreu um ataque especulativo político midiático.

Como assim ?

Evidentemente tudo o que está sendo denunciado da Petrobras em relação à corrupção é muito grande. Ninguém em sã consciência vai dizer que a corrupção, que a Petrobras calcula em R$ 6 bilhões… que isso é pouco dinheiro. Não é. Agora, quando você coloca isso do tamanho da Petrobras… do período de 2004 a 2014, R$ 6 bilhões representa menos de 0,5% do faturamento da Petrobras. Ou seja, não chega a 1% do faturamento. Portanto, do ponto de vista relativo para a Petrobras, isso é muito pequeno.

Eu quero dizer com isso que a Petrobras não é um antro de corrupção. A Petrobras não está quebrada pela corrupção. Pelo contrário, o número de pessoas envolvidas nessa corrupção é muito pequeno comparativamente ao quadro da Petrobras, inclusive ao quadro de dirigentes e da diretoria. Mesmo nos postos estratégicos, mas a imagem que ficou em termos reputacionais do ataque, do massacre midiático que a Petrobras sofreu, aquele tubo enferrujado que a TV Globo mostra todos os dias, é devastador. É claro que ela começa a se recuperar.

Você foi presidente da Petrobras no período em que contratos foram apontados como suspeitos. Como está sua situação ?

Continuo com alguns bens bloqueados, o ministro Ricardo Levandovisk só desbloqueou um dos cinco. Mas não respondo a nenhuma ação criminal, só a ações cíveis.

Qual a situação da Petrobras hoje ?

A situação econômica da Petrobras tem um problema de dívida? Tem. É insolúvel, não. É gravíssimo ? não. É um problema sério, mas que pode ser resolvido no tempo. Acho que o grande erro da atual gestão é querer resolver isso em dois anos. Porque isso tem dimensão de calendário político, e não econômico. Do ponto de vista da Petrobras, é isso.

Em termos de situação operacional, a Petrobras tem um portfólio de projetos extremamente positivo. E estão desconcentrando a presença dela. A Petrobras está saindo de áreas menos rentáveis, mas que tem impacto na sociedade muito grande, como nas áreas terrestres, aqui no Rio Grande do Norte, em particular. Então eu acho que temos uma opção política da Petrobras que não são mais adequadas para uma empresa de longo prazo num setor estratégico, como é o petróleo.

Por fim, acho que tudo isso tem a ver com a motivação do golpe. O controle do pré-sal brasileiro tem muito a ver com a motivação do golpe. Desmontar a Petrobras e redefinir o marco regulatório do pré-sal é de enorme interesse geopolítico, particularmente para os EUA. Acho que um dos elementos do golpe é essa mudança na política do petróleo.

A Petrobras vem sendo desmontada já há alguns anos no Rio Grande do Norte…

Na minha gestão, não. Construímos a refinaria Abreu e Lima (em Pernambuco), ampliamos a presença dela na área eólica no RN, ampliamos a atividade de exploração no RN, aumentamos o número de investimentos na área de recuperação em campos maduros… então acho que no período em que dirigi a Petrobras não houve uma política de esvaziamento…

Mas o fato é que de alguns anos para cá, a Petrobras tem saído do Estado, o quadro de funcionários diminuiu bastante. Como o pré-sal gera uma quantidade de petróleo muito maior que o campo terrestre, a política recente da empresa tem priorizado a exploração do pré-sal. Porém, a Petrobras tem um papel social. Na sua avaliação, como deve ser essa relação ?

No caso aqui, o setor de exploração e produção já está mais diversificado. Já tem mais empresas que a Petrobras aqui. Necessita de uma avaliação mais distinta do que o caso da Bahia, por exemplo, que também tem offshore em terra e é mais concentrada na Bahia do que aqui. Mas o campo maduro tende a ter um problema de desativação. A pergunta é em cima do custo-benefício. Do ponto de vista da Petrobras, cuja reputação é um elemento importante, cuja vizinhança é um elemento importante, o que a Petrobras vai ganhar ao sair de campos maduros versus o que vai perder em termos de reputação, de impacto social e de crise, isso tem que ser avaliado. Você não pode analisar apenas a planilha de custo de extração e lucratividade de cada poço ou cada campo. Você tem que levar em conta o conjunto de interesses de uma empresa do tamanho da Petrobras.

O governo federal enfrentou recentemente uma crise dos combustíveis que paralisou o país. Que avaliação você faz da estratégia usada pelo Petrobras?

Acho que a Petrobras não poderia fazer o que fez. Não poderia combinar uma variação praticamente diária dos combustíveis com a redução da capacidade de redução das refinarias. Significa que a Petrobras está tendo uma política de saída do mercado de refino. E ao sinalizar a saída de mercado de refino, a Petrobras está querendo com isso vender parte das suas refinarias. Portanto, está querendo atrair compradores para suas refinarias. Essa lógica, eu acho que é no longo prazo muito ruim para a Petrobras. Do ponto de vista do acionista.

Por quê ?

As empresas internacionais, as grandes empresas são integradas. Elas exploram, produzem, refinam e distribuem. A integração dá mais estabilidade no retorno do capital a longo prazo. A Petrobras está caminhando para ser uma empresa de EIP, apenas. E de EIP no pré-sal brasileiro. Isso é reduzir a capacidade de intervir no mercado, que tem uma volatividade de preço muito grande porque senão não compensam os ganhos do refino versus os ganhos da produção. Isso faz com que você tenha uma situação no longo prazo negativa. No curto prazo você tem tido até um aumento de lucratividade, o que não aconteceu de fato. Como a Petrobras passou a exportar petróleo num período de preços declinantes, também na exportação do petróleo a rentabilidade dela caiu. Do ponto de vista da Petrobras foi ruim e para a sociedade foi um desastre porque culminou numa situação de aumento de preço, aumento do desemprego, redução da renda familiar e criou um caos no país.

Qual seria a alternativa ?

A alternativa seria ajuste de preço. Temos que relacionar preço de derivados com o preço internacional, mas num longo prazo. Isso não se faz em curto prazo.

 

 

 

 

 

 

 

Artigo anteriorPróximo artigo
Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *