OPINIÃO

Seus dados são você

Não se alistem nas Brigadas em Defesa do Brasil! Recebi mensagem no whatsapp explicando que é uma armadilha das forças de direita para mapear os dados dos militantes e que nenhuma organização de esquerda brasileira participa do movimento. Dizem que veio do PT estadual, mas não diz de qual Estado.

Em tempos de fofocagem e boataria no whatsapp não deu para confiar na mensagem do petista incógnito. Também parecia feiquenius! E resolvi ir lá assuntar.

O site é meio feinho – como é até comum na esquerda. Se diz uma organização militante, popular e de massas – tem até uma foto de uma bandeira e um video com vários militantes mineiros – mas tem regras e um método de ação baseado em grupos e listas de transmissão no whatsapp.

Faltam objetivos claros, linha política, fundamentação, estratégia. Na dúvida, não me inscrevi.

Ainda mais por que o formulário de inscrição me exigia informar nome, cidade e telefone, além de querer saber os aplicativos que eu uso para trocar mensagens, como o whatsapp, o telegram ou o signal.

Imagine o risco de entregar seus dados para uma organização como esta? Imagine o que eles poderiam fazer com suas informações?

Mas aposto que você não pensou duas vezes em digitar seu CPF no supermercado para concorrer a um jogo de facas ou a um vale compras de um ano! Nem recusou digitar seu CEP para concluir o cadastro. Você pode até ter pensado um pouco nos males da indústria farmacêutica na hora de digitar seus dados na farmácia, mas era um descontão de quase 50% no preço do medicamento.

Talvez você nem lembre quantas vezes já digitou suas informações para converter um PDF online, para comprar uma passagem de avião ou até para saber seu ascendente no mapa astral. E lá vão seu CPF, RG, Endereço Completo, email, telefone – ninguém sabe para onde – já que nunca dá tempo de ler os Termos e Condições que prometem nos proteger a privacidade, mas que permitem que empresas e organizações se aproveitem dos nossos dados pra nos transformar em produtos cada vez mais rentáveis.

Esta semana, no apagar das luzes, Michel Temer determinou a criação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados Pessoais (ANPD). A parte boa é que o novo órgão ficará responsável por fiscalizar a captação, armazenamento, tratamento e uso de todos esses dados que deixamos espalhados por aí.

A parte ruim é que o novo órgão ficará vinculado à Presidência da República, nas mãos de Jair Bolsonaro a partir desta terça-feira (01), e sem autonomia financeira e política para fiscalizar o Estado Brasileiro – que é, sem dúvida, o maior detentor de dados pessoais no país – basta olhar a base de dados do CPF, da Justiça Eleitoral e do Sistema Único de Saúde.

Mas nem tudo está perdido. A decisão foi tomada por medida provisória e ainda precisará ser votada pelo novo congresso. Ainda dá tempo de pressionar nossos parlamentares para garantir mais autonomia para os responsáveis por proteger nossas informações.

Aí você vem me dizer que não tá nem aí pra esse debate, que não faz nada de errado e que não tem nada a esconder.
Mas você já parou para pensar o quão exposto cada um de nós estaria diante de uma pessoa, instituição ou até mesmo do crime organizado que tenha acesso a todas as nossas informações? Aposto que seria bem fácil descobrir a senha da sua conta bancária e roubar seu salário do mês inteiro. Ou quem sabe, se passar por você e abrir uma conta no seu nome para pegar empréstimos. E só estamos falando do seu bolso.

Poderíamos pensar em roteiros mais cinematográficos, onde alguém te acusaria de um crime hediondo ou te colocaria contra seus amigos e parentes para te chantagear.…

A lei de proteção de dados só começa a valer em 2020. Até lá, é melhor não se alistar em nada desconhecido. Ainda mais, se pedir CPF!

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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