OPINIÃO

Severiano, o jovem que virou suco

Mortos e vivos vivem nos cercados da morte, delineados a partir de um sonho bizarro de um país embriagado pela ignorância. Os mortos da COVID-19 sumiram, os abatidos pelas forças de lei e ordem e da desordem co-habitam o falso reino da prosperidade. Somos um país abalado pelos ataques das hordas que saíram das cavernas em junho de 2013.

Passados sete anos, Severiano, que tinha 16 anos na época e foi um dos que encheram as ruas de Natal, numa das maiores manifestações já vistas desde os comícios dos anos 70 e 80, hoje tem 23 anos. Seu projeto de vida, naquela época, era “acabar com a podridão da política” e odiava, e ainda odeia, os “partidos de esquerda”, responsáveis, naquela época, pela “bagunça e corrupção”. Severiano, furioso com o preço das passagens, queria que o governo não deixasse as passagens aumentarem, ao mesmo tempo que abominava o governo.

Severiano esteve nas ruas no ano seguinte, nas manifestações contra a Copa. Seu ódio tinha aumentado e a presidenta Dilma agora era seu alvo. Aos 17 anos, Severiano, que estava por terminar o Ensino Médio e queria entrar numa universidade pública, que receberam impulso sem precedentes nos governos Lula e Dilma, vestiu verde e amarelo e detonou a “esquerda”, que ele agora identificava como o “monstro da corrupção”.

Aos 18 anos, com o Brasil em plena crise, Severiano teve que arrumar um trampo, afinal não conseguira vaga na UFRN, seu “sonho de consumo”. Tentou “uma daquelas engenharia”, que “pode dar dinheiro”, confundindo cursos de natureza científica com agências de empregos, e passou a odiar “tudo que fosse do governo”. Tinha era que privatizar tudo.

Aos 19 comemorou, enchendo a cara, a queda da “maldita”, da “vagabunda”, da “safada”. Agora tudo “iria se acertar” pois os “vagabundos petistas” tinham “quebrado o Brasil”. Onde Severiano conseguiu essas preciosas informações? Nas emissoras de rádio e televisão de Natal, dos blogueiros que ele “sempre lê” (melhor nem citar essa escória).

Aos 20, desempregado e sequer sem dinheiro para tentar uma faculdade privada, Severiano entrou em desespero, pois seu pai que trabalhava numa média empresa do setor comercial, lá no Alecrim, foi demitido após trabalhar vinte anos “no estabelecimento”. Motivo? Empregado antigo, seria substituído por um mais novo, que receberia salário menor. A reforma trabalhista ferrou com o pai de Severiano, mas ele não via assim. Pra ele empregador tem muito custo e “tem de demitir”. Seu pai quase lhe dá uns cascudos por causa disso.

Aos 21 anos, sem emprego e já nos “biscates”, trabalhando 10-12 horas por dia, sem proteção social e sem carteira assinada, Severiano finalmente viu a “revelação”: o problema era “o sistema” e um tal Bolsonaro iria “quebrar esse sistema”. Para Severiano, que nunca se importou com a trajetória política de Bolsonaro, era o “cara certo”. Seus olhos brilhavam quando ele falava do “mito”. Ele “diz as coisas que gosto de ouvir”, afirmava Severiano, e “tem de ser assim”.

Aos 22, Severiano, sentado na calçada na porta de um pequeno restaurante, tendo ao lado sua bicicleta, já sofrida, espera mais um pedido para montar no seu “instrumento de trabalho” e se danar no meio dos carros e do mundo, para sobreviver. Severiano nem sabe mais quantas horas trabalha. Para ele, Bolsonaro é um cara que “pelo menos tenta fazer, mas as pessoas não deixam” e a situação dele nada tem a ver com a destruição de todos os benefícios sociais promovidos pelo “homem”.

Severiano tem 22, mas já aparenta 30. Pele ressecada pelo sol, olhar cansado, resignado. O jovem rebelde de 2013 tornou-se uma pessoa descrente. Ele só quer sobreviver. Perdeu os sonhos. Severiano é um autômato, que espera o dia seguinte. Sua energia para o futuro extinguiu-se.

Virou suco.

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