OPINIÃO

Showsa

O atacante Fred, olha só, num papo com o Neto, vídeo postado por Dionísio Outeda na sua conta do Instagram, não sei qual foi o programa, nem se foi recente, tecendo elogios ao Ganso, acaba citando o nosso craque Souzinha. Ele dizia que o ex-santista é genial, no que concordo plenamente. Sabe aquele tipo de jogador que você vai ao jogo para vê-lo ? Ganso em campo, mesmo agora, quando muitos o criticam, eu gosto , pois a gente sabe que a qualquer  momento pode acontecer um grande e especial lance.

Na continuidade do papo, o Fred emenda e diz para deixar felizes e orgulhosos, e surpresos,  os potiguares: “sabe de um cara que eu era fã, o Souza”, no que o Neto emenda, “ah, o Souza de Natal, que jogou no Rio Branco”… Legal ouvir isso, depois de alguns anos que nosso craque “pendurou” as chuteiras. Souza, nascido em Assu, criado em Itajá, faz parte de um time especial de eleitos do futebol do Brasil e do mundo. Nosso cracaço que poderia sim ter brilhado na seleção não tivesse sido atrapalhado por um “burro chucro”, mas deixa pra lá esse assunto velho.

Nosso conterrâneo faz parte de um time de  mágicos da bola. Caras que com um toque só transformavam uma partida. Inigualáveis gênios que antecipam as jogadas, que fazem de uma “sinuca de bico” uma jogada comum. Passes maravilhosos, de primeira, lançamentos, chutes, dribles desconcertantes, muitas vezes apenas com o movimento do corpo. Tenho que aproveitar o embalo de Fred e render essa homenagem ao nosso “Showza” que, neste domingo, estará capitaneando uma equipe de ídolos na inauguração da Arena América, o novo estádio do time rubro. E a torcida, claro, tem a obrigação de comparecer, agradecer e reverenciá-lo, mas isso ela faz sempre, sejamos justos.

Souza fez parte da minha história de jornalista. Boas histórias desde o dia em que, começando no Diário de Natal, fui cobrir um treino do América e vi aquele molecote dando passes lindos, tratando a bola com uma intimidade que encantou até um veterano ídolo, justamente quem o treinador, obtuso, colocava para jogar em seu lugar. Esse jogador era o Mendonça, cracaço, ex-estrela do Fogão, que estava jogando em Natal já em final de carreira. Mendonça, em memória, minha homenagem pela decência. Ele chegou a dizer: “professor, bote esse menino pra jogar”. Se fosse depender daquele ‘professor’ talvez a gente nem tivesse visto o brilho de nosso craque em grandes clubes e até na Rússia, mas também essa é história ruim que não merece ser recontada.

Naquela oportunidade, no campo de treino ainda em General Everardo, CT Abílio Medeiros, estava ao lado do meu ex-companheiro de Alecrim, César Augusto que, na época, era gerente de futebol do América. Ele concordou com meus elogios, mas afirmou que o atacante Bebeto, também de Itajá, brilharia primeiro que o Souza. Duvidei, e acho que acabei ganhando essa dividida. Nem sei se Augusto ainda lembra dessa passagem. Bebeto, centroavante canhoto, de muita qualidade, também vindo de Itajá, chegou a jogar em grandes clubes do futebol brasileiro, mas foi atrapalhado com sequência de contusões.

Aproveito para dizer que sou completamente adepto do time de Fred, voltando ao cruzeirense que melhorou muito no meu conceito (bairrista). Gosto de estilistas maravilhosos e dribladores e vou logo entrando no jogo e citando o que me maravilhavam mais e mais. Dirceu Lopes (estilista e rápido, meia destro, mito do Cruzeiro), Ademir da Guia, também meia destro,  maestro da academia de futebol do Palmeiras por uma década, nunca tratado com o devido respeito na seleção; Gerson, o canhota de ouro; o fantástico Pita, São Paulo e Santos, aliava as duas qualidades: drible e classe;  Carlos Alberto Pintinho e Geraldo Assoviador, Fla e Flu, estilos maravilhosos, quase idênticos, meias destros de uma geração que substituiria à altura monstros sagrados que estavam parando. Geraldo acabou morrendo quando fazia uma cirurgia de amídalas, que perda!

Claro, tenho que reverenciar Rivelino,  Sócrates e Zico, que dispensam qualquer tipo de comentário quando falamos de craques completos. Ainda merece destaque o próprio Neto, Dicá, Pedro Rocha, Alberi, Danilo Menezes, Véscio,  Odilon, Didi Duarte, sim, nesse ponto não admito complexo de vira-latas, esses nossos estão sim no patamar dos quase deuses.

E os dribladores? Ai que saudade! Ainda choro, confesso, todas as vezes que vejo, revejo os vídeos do Mané Garrincha; e Joãozinho, ex-Cruzeiro; Rogério, Botafogo;  Jairzinho, Júlio César, Flamengo, Robinho, no Santos, moleque feliz e o genial Dener que, certamente, teria se tornado, sem dúvida, um dos maiores craques de nosso futebol não fosse o trágico acidente que o vitimou tão precocemente.

E quando falo de drible, minha memória de quase infância domina. Eu tinha 11 anos quando aqui em Natal passou um cara, ano de  1969, um tal de Esquerdinha. Meia canhoto, era um encantamento vê-lo em ação, como driblava e chegou mesmo, imaginem só, naquela temporada, ofuscar ninguém menos que o garotão Alberi José Ferreira de Matos que começava a se transformar no maior ídolo da Frasqueira, recém-chegado de Pernambuco, onde não foi aproveitado pelo seu Santa Cruz de cegos. Esquerdinha era um showman, fazia a torcida dobrar de rir, zombar dos adversários. Dele se esperava sempre uma magia. Infelizmente, acabou deixando Natal depois de uma polêmica final em que, dizem, mas é falso, teria se vendido ao América na decisão do título. Num lance muito comentado, ele driblou quase toda a defesa rubra, ao invés de marcar o gol, tentou voltar driblando e acabou desarmado, muita gente afirma, ainda hoje, que ele não fez o gol do título porque não quis.

Vocês notaram que sempre reservo um lugarzinho para falar dos nossos, afinal foi o Souza, a razão deste texto, que nem estava previsto, saiu assim, aos borbotões depois que vi o vídeo da conversa de Fred e Neto. O driblador mais fantástico que vi bem de pertinho – joguei contra ele e ao seu lado –  aqui foi o fantástico Soares, já falecido. Ele veio de Recife, acho que do Sport, e foi o show especial do ABC no ano de 1972, na disputa de um Campeonato Nacional  de grandes e inesquecíveis jogos no Machadão de eterna lembrança e arrependimento doído.

Soares brilhou tanto, botou tantos laterais direitos para dançar que acabou contratado pelo Botafogo, ainda no rastro do sucesso de Marinho Chagas. Sabe a pedalada de Robinho que encantou o Brasil e o mundo trinta anos depois, em 2002, Soares já fazia repetidamente defendendo o time alvinegro. Lá no Fogão, não deu certo, infelizmente. Jovem demais, recém-casado, Soares acabou não se acostumando à solidão de um nordestino no Rio de Janeiro e voltou. Sussu, uma figura maravilhosa, querido amigo, que ainda tive o prazer de jogar no mesmo time, no Alecrim, ano de 1980, acho.

Eu sei, eu sei, você já deve está com sua relação pronta, dizendo os nomes que esqueci, sou fã de muito mais gente, claro, vi muitos outros maravilhosos jogadores, mas pouco me deram tanto orgulho, eu já torcedor-jornalista. Por isso volto a homenagear nesse meu texto improvisado o José Ivanaldo de Souza, que foi descoberto pelo olho clínico de outro grande ex-jogador de nosso futebol, depois técnico, Baltazar Germano de Aguiar. Como esse domingo é do América, esse domingo é, também, dele. E eu, como potiguar, agradeço.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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