OPINIÃO

Só quem nasce negro…

Muita coincidência, justo na semana em que no Brasil se celebra (não comemora) o Dia Nacional da Consciência Negra, dia 20 de novembro, sexta-feira última, quando me sentei diante do computador para escrever esse texto, ainda indignado com a narrativa que, sem esperar, sem combinar,  tomei conhecimento, vejo Pelé, nosso rei do futebol, simplesmente ignorar a data ao mesmo tempo que autografa uma camisa do Imortal Santos e presenteia o genocida, homofóbico e extremamente racista Jair Bolsonaro, infelizmente, presidente do Brasil. E tome inveja de Messi, Maradona e cia…

O caso que vou contar, aconteceu na segunda ou terça-feira, durante minha caminhada de todos os dias na praia, fonte de muitas histórias. Na minha frente, distância de dois metros, um homem de seus 35, 40 anos no máximo, 1.80m de altura, magérrimo, estava sem camisa (natural na praia), de bermuda, com uma sandália na mão. Ele vai caminhando e, sem notar sua passagem, uma mulher se levanta da areia levando pela mão uma criança em direção ao mar. O homem para, se perfila, quase, e educadamente diz “bom dia!”, a mulher o nota, se encolhe, seus olhos se esbugalham, puxa a criança pela mão como se tivesse visto algo muito assustador. Essa cena  eu presenciei, de pertinho, ninguém me contou. O homem segue andando, fala alguma coisa, me nota, eu o cumprimento, “bom dia, irmão”, ele me olha, abre um sorriso, responde, me agradece, dá graças a Deus e pergunta: o senhor viu? E continua: a mulher parou, se assustou, até parece que tinha visto o demônio, tudo por causa disso daqui, e bateu com força no braço indicando a cor negra da sua pele. Seus olhos, notei, estavam marejados.

Seguimos juntos em direção ao Forte dos Reis Magos. Ele é um morador de rua, se chama Marcos Vinícius de Oliveira, carioca, natural de Nova Iguaçu. Se encantou quando um conhecido passou e falou comigo me tratando de “jogador”, coisa comum na praia. Me pergunta se fui boleiro, respondo que sim, então ele entra no assunto, conta que jogou futebol, era centroavante do Nova Iguaçu, citando alguns atletas conhecidos do seu tempo. Depois, num desabafo lastimoso, sem fingimento ou vitimismo, desfiou seu rosário de queixas. Falou da esposa que deixou, foi praticamente obrigado a deixar, pois o pai, militar, quando voltou de uma missão no Haiti, cumpriu a promessa de “tirar sua filha preciosa, branca, debaixo do teto de um negro que tinha vindo da favela”. Marcos volta a marejar os olhos. “Tenho muita saudade de minha Deusinha, mas o pai e a mãe fizeram a cabeça, acho que ela me esqueceu, cansei de ligar, procurar, desisti, caí no mundo”, confessa, com a voz quase sumida.

“Cara, desculpe… senhor, aqui em Natal, nunca vi, nunca pensei, quase todo dia eu passo aperto por conta da minha cor. Dia desses eu ia andando na ponte (Newton Navarro), ia tentar descolar uma comida com um conhecido lá na Redinha, de repente, na minha direção, vem uma mocinha correndo, roupa de ginástica, ela levantou a vista, me viu, parou, ficou como sem saber para onde ir. Eu levantei o braço, gritei alto que ele podia vir, eu não ia assaltar ou fazer mal. Vocês não têm ideia, ela passou por mim voando, enquanto eu, estático, me encolhia rente à amurada. Passei tempos em Fortaleza, João Pessoa, e vários outros lugares, mas, sinto, não quero magoar o senhor criticando sua cidade, mas foi o lugar de gente de maior nível de discriminação que já constatei“, afirmou para minha tristeza.

Marcos se diz em situação de vulnerabilidade, não morador de rua. Conta que era metalúrgico, dos bons. “Não deu certo pra mim como jogador de futebol, não sei, me sacanearam, acabei muito injustiçado (todo ex-atleta diz a mesma coisa) e larguei. Fui trabalhar como metalúrgico e vivia bem, tinha meu carrinho, meus amigos do trabalho, foi quando conheci a Deusinha…“, silencia:

Hoje, não nego meu irmão, sou vítima, dependente desse maldito crack, não consigo me livrar. Imagine aí, o pai da minha ex sabendo disso, que estou nas ruas do Brasil, passando fome, sede e frio…ah, ia comemorar o filho da puta. Milico filho da puta. Cara e eu, sem saber, a Deusinha me escondia, nunca me falava do preconceito do velho, de quanto ele era contra nosso casamento, animado, fazendo planos, imaginando como prepararia, com os amigos, um churrasco lá em casa para recebê-lo…”.

Baixa a cabeça, silencia de novo.

Recomeça a falar. Diz ter sido expulso de shopping, corrido de estacionamento de ruas, ameaçados por flanelinhas donos do ponto, agredido em restaurante por segurança, empurrão e safanão, acordar sendo chutado por um policial militar (não foi aqui em Natal), xingado, atingido por baldes de gelo enquanto dormia. Um filme de terror com todos os componentes mais pesados de intolerância, racismo, brutalidade e maldade. Numa barraca, perto da arena de futebol soçaite se despediu, encontrou um conhecido. Claro, antes disso, me pediu um trocado, perguntou se eu tinha, infelizmente, caminho somente com short de banho, e lamentei, muito, gostaria de ter pelo menos arrumado pra ele o dinheiro do almoço daquele dia, serviria para amenizar a péssima imagem que ele construiu de Natal. Se despediu carinhosamente, agradecendo não sei o quê. A história de Marcos Vinícius me doeu na alma, histórias repetidas nesse Brasil de tantos absurdos.

E diante da negação do racismo no Brasil, nas palavras de Hamilton Mourão, vice-presidente, o outro insano desse desgoverno, vou encerrar esse texto repetindo a vereadora negra eleita pelo PT, Divaneide Basílio. “Só quem nasce negro ou negra na periferia sabe, realmente, o que é o racismo”, mais ou menos assim.

E foi ela, vereadora mais votada de Natal, reeleita, segunda a ter mais votos entre todos os candidatos, que protocolou na Câmara Municipal de Natal Projeto de Lei que determina a fixação de cartazes em órgãos públicos e privados, informando que racismo, injúria racial e discriminação racial são condutas tipificadas como crime, podendo ser punidas.

Em nome dos Marcos Vinícius, em nome de todos os negros e negras, que ajudaram a tornar essa nação melhor, eu agradeço.

PS: A Constituição Federal de 1988 determina, no Art. 3, inciso XLI, que “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”; e no Art. 5º, inciso XLI, que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”.

PS2: Racismo: discriminação, ato de fazer distinção. O racismo traduz-se pela discriminação relacionada às características raciais que declaram preconceito, agressão, intimidação, difamação ou exposição de pessoa ou grupo. Pode ocorrer das formas mais corriqueiras, como em comentários, ou imagens estereotipadas e difamatórias. Você pode ajudar na mudança desse cenário.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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