OPINIÃO

Só se for eternidade

O Natal é mesmo um tempo de solidões compartilhadas.

No fim das contas, é provável que estar vivo seja realmente isso: um intenso exercício de tentar compartilhar a própria solidão. A gente tenta isso quando casa, quando tem filhos, quando reúne os amigos para uma cerveja, quando vai ao cinema, quando ouve música ou lê um poema. Outro dia uma frase de Georg Trakl me fisgou. Ela dizia mais ou menos isso: a alma é um nômade sobre a terra.

É absolutamente normal se sentir estranho. É desconcertantemente banal achar-se um estrangeiro no mundo. Um detalhe fundamental de ser gente, e não bicho.

Talvez por isso o Natal sempre seja, depois que a gente dobra a esquina da infância, um período de responsabilidades. Comprar pressentes, jantar com a família, ligar para os avós ou para os pais, que estão longe. Tudo isso para camuflar a estranheza. Tudo isso para esconder, por um certo punhado de horas, o fato de que existir é experimentar a própria solidão. A história que cada um constrói entre o berço e o túmulo é uma história própria e radical. Uma história de cada um. As dores e alegrias de cada um, as derrotas e as vitórias de cada um, a euforia e o torpor de cada um. Então, quando você tem alguém para compartilhar sua própria solidão na noite Natal, a celebração do nascimento de Cristo se torna suportável. Difícil é estar longe de casa. Difícil é estar consigo mesmo e mais ninguém.

Agora uma outra frase me recorta: “Através da noite entusiasmada, inúmeros animais selvagens, cheios de escuridão, encontram-se à margem da floresta” (isso também é Trakl).

Num ano em que o luto e a perda se tornaram a tônica de nossos dias e que a experiência da morte se tornou algo que nos avizinha a todos, uma noite de Natal como a desse ano bem que poderia ser fatal. Poderia ser indescritivelmente assassina, essa noite. Um momento de alegrias forjadas e de tristeza sincera pela nossa orfandade, pelas ausências, pelo luto, pela perda e pela sensação de que aqueles que mais amamos podem desaparecer subitamente do nosso horizonte, sem deixar vestígios.

Uma noite cortada pela sensação de que a tênue estabilidade de nosso mundo, com suas rotinas, seus ritmos habituais, suas ingênuas certezas, pode ser desmontada sem cerimônia, nos deixando nus, naquela acidentada estrada empoeirada do tempo, de peito aberto, para segurar a onda sinistra que o vazio sem forma que balança o fundamento do mundo, nos proporciona.

Mas a engenhosidade humana fez nascer uma poderosa estratégia de manutenção da espécie. A mais importante das invenções humanas depois da rede de dormir e das técnicas de controle do fogo.

A música é que nos salva definitivamente dessa noite de Natal. Ela é que nos ajuda a superar a estranheza da travessia da vida. Ela nós salva da nossa solidão compartilhada e nos apresenta, de uma maneira convincente, um lugar para se estar. Um lar para depositarmos o cansaço dos dias, um esconderijo para que a gente suporte a aridez que mora lá fora e que nos contamina por dentro.

Um bom momento de música pode ajudar a significar o mundo.

Então, se você estiver a fim de dar um presente a alguém, como um convite para que se partilhem as solidões, dê uma música. Sugestão? Procure o Cânone em Ré Maior de Johann Pachelbel. Nunca ouviu falar? Ele foi professor de Bach. Estranho isso, não? Imaginar que Bach tenha tido um professor. Mas teve. Ele indicou ao pupilo o caminho para a elaboração das fugas. Ajudou a Bach a harmonizar as escolas musicais do norte e do sul da Alemanha e definir o caminho que o levaria o mais próximo de Deus que um ser humano já pôde ter chegado (até John Coltrane ter gravado, A Love Supreme, vale salientar).

Mas a grande generosidade de Pachelbel, para com a nossa triste condição de exilados pandêmicos nessa segunda década do século XXI, foi ter composto o seu Cânone em Ré Maior. Uma peça que antecipa os modelos clássicos. Plena de ordem e proporção. Suave e espaçosa. Exata no uso do órgão e das cordas.

Seria bom, que nessa noite de Natal, nesse infeliz ano de 2020, pudéssemos reverberar em uníssono o allegro do Cânone de Pachelbel. Duraria apenas 5 minutos e 29 segundos. Você poderia me perguntar: o que são 5 minutos e 29 segundos diante de um ano como o que nós acabamos de ter?

Sem música seriam apenas 5 minutos e 29 segundos, mas, com música, bem que poderia ser a eternidade.

 

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.