OPINIÃO

Sobre a censura aos livros e à leitura

Estou lendo o romance Torto Arado, do baiano Itamar Vieira Júnior. O livro, vencedor do Prêmio Jabuti no Brasil e do Prêmio Leya em Portugal, traz como pano de fundo a reflexão sobre o trabalho semiescravo, as desigualdades raciais e a questão da posse e uso da terra. Arrebatador desde o capítulo inicial, em que é narrado um acidente trágico que marcará a existência das personagens Bibiana e Belonísia, filhas de pequenos agricultores.

Pois eis que, no intervalo dessa leitura, dou de cara, estarrecida, com reportagem em jornal de grande circulação que dá notícia sobre censura e expurgo de mais de 5 mil títulos do acervo bibliográfico da Fundação Palmares. Hein? Volto atrás e releio a manchete, mas não tem jeito, é isso mesmo, mais um descalabro desse desgoverno aí posto: a negação a tudo o que direcionar para a liberdade e para o espírito crítico.

Segundo o relatório técnico expedido pela direção (Sergio Camargo) da Fundação Cultural, não houve “filtro ideológico” e o critério para exclusão das obras (mais de cinquenta por cento do acervo) foi em razão dos livros não contribuírem para formar “pessoas devotadas ao trabalho, ao crescimento pessoal e ao respeito ao próximo”. Seria cômico se não fosse trágico.

Alegando o pífio argumento de manter apenas títulos com a “temática do negro” e que estivessem de acordo com o Acordo Ortográfico de 2009, dentre alguns títulos banidos do acervo estão: “Menino brinca de boneca?”, de Marcos Ribeiro; “Almas Mortas”, de Nicolau Gógol; “Bandidos”, de Eric Hobsbawm e – pasmemos! – “Dicionário do Folclore Brasileiro”, do nosso Câmara Cascudo.

Os livros, ao longo da História, sempre tiveram grandes inimigos como o próprio desgaste do tempo, mas nada pior do que governos conservadores e autoritários. Qualquer regime totalitário, de direita ou de esquerda, apela logo para a negação da leitura e da liberdade de escolha sobre o que se vai ler. E faz isso ou queimando livros ou censurando-os, o que dá na mesma.

Assim, a notícia sobre o banimento dos livros pela Fundação Palmares nem é de surpreender, ainda que seja revoltante. Ela vem à tona junto a outra notícia sobre o descalabro que é este governo atual: o relatório das fundações Human Rights Watch e Todos pela Educação, cujo estudo comprova que milhões de crianças não tiveram acesso à educação durante a pandemia.

Respiro fundo tentando manter a saúde mental e volto para o refúgio da literatura. Pego meu exemplar do livro “Torto Arado” e é lá que encontro a lição sobre conciliar revolta e esperança, neste emocionante trecho-libelo em favor da educação e da leitura para todas e todos:

Meu pai não era alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos de colher frutos e espinhos da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava deixar suas digitais em algum documento. De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez fosse a escrita e a leitura dos filhos o que perseguiu com mais afinco. Quem acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência. Mas pessoas como nós, quando viam o orgulho que sentia dos filhos aprendendo a ler e do valor que davam ao ensino, saberiam que esse era o bem que mais queria poder nos legar.

 

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