OPINIÃO

Sobre festas e vírus

Agora, convido você, leitor, a um exercício de sinceridade, respondendo a seguinte pergunta: quantas pessoas você encontra na praia usando máscara ou respeitando regras mínimas de distanciamento pra evitar aglomeração?

Este fim de semana, caminhando pelo calçadão da praia de Ponta Negra, aqui em Natal/RN, no fim da tarde, pude me sentir um verdadeiro alienígena. Além de ser o único com máscara num universo de metros e mais metros quadrados de banhistas, aparentava ser o único que estava sozinho e procurava manter distância dos demais, em sua maioria aglomerados em grandes grupos. Parecia que aquela lenda urbana ou fake news pra valer, do começo do ano, de que o vírus da Covid-19 não resistia ao calor ou que lugares abertos como a praia eram imunes ao vírus, por ventilar muito, tinha se tornado o axioma do verão de fim de ano de um Brasil com quase 190 mil mortos.

Vencendo batalhas judiciais inglórias, entre liminares concedidas, suspensas e revalidadas por decisões dos tribunais, no Rio Grande do Norte as festas de réveillon parecem estar garantidas, ao menos em balneários badalados como Pipa e São Miguel do Gostoso. A que custo?

Sou do tempo em que festejar a virada do ano só podia ser na praia, de preferência em lugares turísticos e aprazíveis, com familiares e pessoas que amamos, como tantos reveillons que passei em Copacabana, Boa Viagem, Ponta Negra, Pipa, Canoa Quebrada, João Pessoa, ou mesmo Montevideo. Raras exceções foi o fim de ano urbano que tive em São Paulo, onde vi a queima de fogos da avenida Paulista na cobertura do prédio de um amigo, entre buzinaços, jogos de luz e zeppelins no céu. Tudo muito bonito! Tudo deslumbrante e alegre! Tudo muito típico, como reza a tradição, só com um detalhe: em todas essas festas, sempre teve muita, mas muita gente.

Como então pensar em respeitar a tradição de final de ano que alegra gerações, diante de um ano atípico, que presenciou uma pandemia global que não ocorria no mundo, há pelo menos 102 anos? Como mudar, com um final de ano que se aproxima, um costume familiar e social centenário, de se juntar com quem se gosta, de compor uma multidão em festa, aguardando a contagem dos segundos até a passagem do ano novo, com fogos de artifício, música, pessoas se abraçando e beijando, e tampas de garrafas de champanhe e espumantes estourando?

O ano da Covid nos ensinou muita coisa. Se como diz o sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos, a pandemia nos trouxe uma nova pedagogia, fomos obrigados a ter a consciência que o duro aprendizado sobre o novo coronavírus é um aprendizado sobre nós mesmos, diante de uma adversidade que, diferente de uma simples epidemia, não afetou apenas um país, região, continente ou população, mas sim a humanidade inteira. Assim como aprendemos, pela tradição, que a passagem do Ano Novo é motivo de festa, que andar de branco é esteticamente recomendável, e que, para muitos, pular sete ondinhas na praia é fundamental, também aprendemos este ano que é indispensável lavar as mãos ou usar álcool gel há quase todo momento, que usar máscara é essencial ao sair na rua, e que deve se evitar, ao máximo, aglomerações em lugares públicos, privilegiando-se ficar em casa, em isolamento, do que frequentar estabelecimentos, como bares, shoppings e restaurantes lotados. Apesar de tudo, e não obstante governantes e juízes divergirem sobre a necessidade ou não de se ter grandes festas de final de ano, o que não ficou entendido? Por que tem gente que não quer saber e mesmo assim vai se aglomerar? É o custo de manter a tradição, sob o risco da contaminação de uma avassaladora segunda onda do vírus? É a crença numa iminente vacina, de um país que está na retaguarda das vacinações, de um presidente negacionista, que já disse que “não dá bola pra vacinas” e que, na contramão do mundo, são os laboratórios que devem procurar o Brasil e não o contrário? Ou simplesmente é a certeza de que, munido de uma máscara que eu sei que não vou usar usar quando estiver bebendo meu vinho ou champanhe, ao dar uma escapadinha e se reunir com a multidão na festa do réveillon, ninguém vai tossir ou espirrar perto de mim?

Ludwig Wittgenstein foi um filósofo austríaco, do século XX, de família com origem aristocrática, que, com sua homoafetividade reprimida e os anos de ascensão nazista, trocou o conforto do casarão da família em Viena e se refugiou num minúsculo apartamento em Cambridge, na Inglaterra, onde se notabilizou como professor universitário. Considerado um dos maiores filósofos da linguagem, foi ele quem estabeleceu o conceito de jogos de linguagem; ou seja, na impossibilidade que eu tenho de conseguir compreender e resumir toda a realidade, eu passo a conceber a realidade de acordo com aquilo que eu digo, o que quero dizer sobre um determinado dado ou objeto da realidade. Em poucas palavras: real é aquilo que eu digo que é, e não aquilo que as coisas são. É celebre a frase de sua autoria que diz: “Sobre aquilo que não podemos falar, devemos calar”.

Como a linguagem não descreve o mundo, pois este é impossível de ser descrito por inteiro, a linguagem é o limite do mundo. Desta forma, na política, o populismo aproveita-se como ninguém da linguagem, descrevendo um mundo que lhe é conveniente, lhe é próprio. Assim, para que aqueles que aderem às linguagem de certo presidente, uma pandemia global pode ser uma simples “gripezinha”, em nome da liberdade individual nenhuma vacina deve ser obrigatória e imunidade de um vírus é obtida com a exposição à contaminação e não através de isolamento ou vacina. Nesse sentido, tanto faz se a linguagem versa sobre fatos da realidade, atestados cientificamente por organizações oficiais de saúde ou por tuíteiros de plantão. O que interessa, para dizer ou calar, é a linguagem que me apetece.

É justamente por uma questão de linguagem, uma certa atitude de calar sobre o vírus, que pessoas rejeitam a possibilidade de ficar em casa num réveillon por causa de um vírus que já matou milhares, negam até mesmo sua existência a lotar UTIs de hospitais, e, no mínimo, suspendem a possibilidade do risco estabelecendo um novo tipo de linguagem que coloca a festa no lugar do vírus. É a atitude cômoda de não falar sobre contaminação, de não ser o chato da vez a estragar a festa da virada do ano, ao falar da necessidade do uso de máscaras, da postura antipática de evitar abraços e aglomerações e mesmo assumir a postura (para muitos, antissocial) de não ir a festa alguma.

Confesso que, independente do fundamento das decisões proferidas por dignos magistrados, apegados à linguagem jurídica-constitucional de que são equivalentes direitos fundamentais como a saúde e a liberdade (especialmente a econômica), a ponto de liberar praias para festas onde vai dar (muita) gente, sei que teremos um réveillon inesquecível. Inesquecível por ser o de um ano que não será esquecido na memória de muita gente, que passou pelos perrengues de uma pandemia, tendo se contaminado ou não, mas também inesquecível, pela possibilidade de contribuir para algumas das maiores cifras sobre contágios, internações e, infelizmente, óbitos, como nunca se viu neste país. De qualquer forma, te desejo: UM FELIZ ANO NOVO!!!

 

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