OPINIÃO

Sobre grandes mulheres potiguares

“Ela é nossa guerreira, na hora de votar, vote na guerreira”. Quem viveu em Natal e no Rio Grande do Norte na década de 80 lembra bem dessa música, desse single eleitoral. Tomada de empréstimo da grande Clara Nunes, o codinome Guerreira foi adotado com muito êxito pela falecida, há um ano, ex-governadora do RN Wilma de Faria (1945-2017), em sua campanha de Deputada Federal. Ela foi a candidata mais bem votada do Brasil para a Constituinte de 1988, onde foi reconhecida com uma excelente nota com o devido mérito de sua atuação.

Foi pioneira como mulher na política, honrando a tradição de nosso Estado de protagonismo feminino na política (a primeira prefeita de uma cidade na América Latina foi aqui no RN, em Lages, nos anos 1920, Alzira Soriano (1897-1963), num processo eleitoral que contou com apoio do então governador Juvenal Lamartine, avô de Wilma). A Guerreira foi não só a primeira mulher a ocupar os dois cargos executivos mais importantes do RN (O Governo do Estado e a prefeitura de Natal) como foi a pessoa (homem ou mulher) mais vezes a fazê-lo (três vezes prefeita e duas vezes governadora e como sempre se orgulhava de dizer, “pela porta da frente”, ou seja, através da vitória nas urnas).

De modo que independente de questões partidárias essa coluna não podia deixar de registar a importância da memória de uma das lideranças políticas femininas mais importantes do Brasil e sem dúvida a grande matrona da política do Rio Grande do Norte. Sempre de vermelho, com pautas que tinham como base o social, a educação e o cuidado com a cidade e o Estado, já se vão quase uma década de saudades de sua saída do Governo do RN, que marcou a década de maior desenvolvimento do nosso Estado graças à histórica e, lamentavelmente rompida no final de sua trajetória, aliança com o PT. Como governadora, equipou a polícia, investiu na UERN como nunca houvera sido feito antes, fez o RN entrar de vez no mapa do turismo internacional (sem aceitar o turismo sexual, sendo responsável por barrar o pouso em nossas terras aviões fretados somente com homens estrangeiros), incluiu as diretas já para diretores nas escolas estaduais como já havia feito pioneiramente no município de Natal desde os anos 90, criou nos dois executivos as secretarias de mulheres, de ação social, de enfrentamento ao racismo, reconheceu a importância das religiões afro-brasileiras ao construir a estátua de Yemanjá, atualmente ameaçada pela intolerância religiosa cristã.

Trabalhou muito como gestora e o Rio Grande do Norte, Natal em especial, sente a falta hoje do seu toque, do seu cuidado atento. Natal era uma cidade limpa, organizada, jardinada, iluminada e bem decorada. Refletia aquele toque de mulher, de gestora séria, que trata o bem público com zelo. Que saudades da Natal cuidada pela carinho e competência da saudosa Rosa Vermelha. Wilma construía casas populares nos anos 90 com orçamento próprio do município de Natal, muito antes do programa “Minha Casa, Minha Vida” ou de qualquer incentivo do Governo Federal. Meu primeiro emprego como educadora foi no projeto de autoria de Wilma, “Tributo à Criança”, onde os valores, proporcionalmente financeiramente, eram superiores ao bolsa família de hoje. Pelo programa, as mães de crianças em situações de vulnerabilidade social recebiam um incentivo financeiro, uma bolsa para não abandonarem a escola, ao passo que recebiam reforço escolar, auxilio psicológico e atividades físicas e artísticas nos “núcleos”, onde eu, com apenas 20 anos, pude descobrir minha vocação freyriana de uma educação popular.

Professora afastada da UFRN, sempre teve no respeito à educação e aos professores uma bandeira. Jamais descumpriu um acordo com os professores da UERN, do Estado ou do Município, jamais atrasou os salários dos servidores, pois tinha um profundo respeito pelo funcionário publico em geral.

Seu legado está na historia de Natal e do Rio Grande do Norte, e nas suas grandes obras, especialmente a linda Ponte de Todos Newton Navarro, realizando o antigo sonho potiguar de integrar o litoral sul ao norte de Natal, de maneira ininterrupta.

No último sábado foi lançado o memorial Wilma de Faria, onde se espera que a memória dessa grande mulher potiguar seja honrada e perpetuada com a grandeza que suas realizações merecem.

Esse ano, o Rio Grande do Norte tem a chance de apostar mais uma vez no tato, sapiência, sensibilidade e competência das mulheres na política. Curiosamente, com o desaparecimento físico da ex-governadora, quem “herda” a posição de maior liderança política feminina do RN é justamente a rival de tantas eleições, a senadora Fatima Bezerra do PT, que deve ser esse ano finalmente reconhecida com a importância que a história de sua atuação merecem. Está na hora de o RN se render finalmente à competência de Fatima Bezerra e elegê-la governadora do RN. Mais uma mulher, mais uma professora, mais uma pessoa com sensibilidade para o social e com potencial de fazer avanços sociais mais profundos do que aqueles que até hoje foram feitos pela finada Guerreira.

Viva o legado da Guerreira Wilma, viva a presença e a futura vitória de Fátima pra o Governo na esteira da qual espero ver muitas mulheres eleitas (Zenaide para o Senado, Natália Bonavides para Federal e Regina para Estadual). Viva a participação feminina pioneira das mulheres no RN.

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Historiadora e Militante LGBT

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