OPINIÃO

Sobre homens tóxicos: o caso Dani Calabresa x Marcius Melhem

Sou um homem tóxico, ou, ao menos, em alguns momentos da vida, devo ter sido. Devo ter sido tóxico em momentos de perturbação, fraqueza, imaturidade ou desespero, quando devo ter dado dor de cabeça aos meus familiares, amigos, colegas de trabalho ou pessoas com quem afetivamente me relacionei. Muitos dos que me conhecem (e gostam de mim) podem ter relatado esses momentos de toxicidade. Porém, uma coisa é certa: por mais tóxico que eu tenha sido, no meu cotidiano ou nos meus relacionamentos, creio que nunca cometi um crime sexual.

Sob o argumento de se assumir tóxico, é que o ator e humorista Marcius Melhem, recentemente demitido da Rede Globo, declarou publicamente sua inocência, mediante as várias acusações de assédio sexual e moral que recebeu, no período em que foi o poderoso diretor de humor da emissora. Dentre as acusadoras, uma se destaca: a humorista Dani Calabresa, uma das estrelas do extinto programa Zorra Total. Em reportagem extensa na Revista Piauí esta semana, Dani revela com detalhes os apuros que sofreu nas mãos do seu suposto agressor.

As acusações são graves, gravíssimas e se fossem transformadas em documentário, filme ou série com várias temporadas no canal de TV da família Marinho, poderiam se tornar um escândalo de alta audiência. De um lado, você tem a jovem e bonita atriz paulista, comediante promissora, responsável por alguns dos esquetes mais divertidos de um programa de humor com grande audiência no país. De outro, um também ator e humorista que se tornou diretor, virou chefe de seus colegas no programa humorístico citado e mais, ganhou liberdade e se tornou o graduado alto funcionário de uma empresa milionária, com poder para admitir ou demitir artistas, além de ter todo o controle criativo da área de humor de um canal de televisão.

Parece roteiro de filme americano, não?! No premiado com o Oscar, “O Escândalo”, de 2019, filme do diretor de cinema Jay Roach, as atrizes Nicole Kidman, Charlize Theron e Margot Robbie interpretam três jornalistas da Fox News de diferentes idades, igualmente talentosas, que por conta de serem loiras e bonitas, foram todas vítimas do assédio sexual de um mesmo homem: o magnata das comunicações Roger Ailes. Baseado em uma história real, o filme narra os perrengues pelos quais passa 10 entre 10 mulheres bonitas que ingressam num ambiente corporativo: o machismo, o sexismo, e, o que é pior, o assédio sexual.

Em 2017, atrizes norte-americanas famosas, como Rose Mcgowan, Ashley Judd e Angelina Jolie, acusaram o famoso produtor de cinema, Harvey Weinstein, de assédio sexual. As acusações variavam de importunação sexual até estupro propriamente dito. Multiplicaram-se as denúncias contra o ex-midas da indústria do entretenimento, culminando com uma condenação a 23 anos de prisão.

Mas, se nos Estados Unidos, dentre outras denúncias, Weinstein acabou por ver o céu quadrado, após ser acusado de deixar cair a toalha e ficar pelado diante de uma atriz num quarto de hotel, imagine quem, alegando toxicidade de comportamento, agarrou à força uma colega de trabalho na saída de um banheiro de bar, tentou beijá-la à força e ainda a obrigou a se encostar na sua genitália ereta, exposta por fora da calça? A lei será aplicada ou uma grande emissora de televisão permanecerá em silêncio?

Venho de tempos tristemente machistas, de objetificação sexual, em que, jovens homens adolescentes, heterossexuais, eram quase que obrigados a se embriagar em festas de carnaval, e se encostar por trás, de propósito nas garotas, por vezes a buscar beijos e abraços à força, ou, quando não, tornando-se verdadeiros homens das cavernas, convidados a puxar uma mulher pelos cabelos, a fim de provar ao grupo sua macheza. Sim! Isso é estúpido. Mas tal estupidez está revelada nas várias narrativas de comportamento abusivo de um acusado, que engrossaram as denúncias contra o humorista Marcius Melhem.

Te confesso que nunca gostei do humor de Melhem. Na verdade, o achava sem graça. Durante muito tempo, no humorístico da Globo, eu achava que o ator funcionava apenas como escada para outros artistas verdadeiramente engraçados da emissora, como Leandro Hassum. Entretanto, quando assumiu a direção de humor, acredito que Marcius descobriu o seu verdadeiro talento: o de gestor de outros talentos; e com ele na direção, o programa de humor da TV sediada no Jardim Botânico alcançou píncaros de audiência.

Já aquela que figura como vítima, nessa história toda, era uma jovem promessa do humor brasileiro. Assim como Marcelo Adnet, seu ex-marido, Dani (na verdade, Daniella Maria Giusti, como consta como nome de batismo), foi, no começo deste século, uma jovem promessa artística da finada e saudosa MTV Brasil. Com seu sotaque caipira, de paulista do interior, e muita espontaneidade, Dani Calabresa foi se tornando conhecida, até ser contratada pela Rede Globo e se tornar um dos personagens da icônica Escolinha do Professor Raimundo, junto com sua amiga (e também assediada por Melhem), a atriz Maria Clara Gueiros.

O Código Penal Brasileiro é claro. No seu artigo 216-A, a lei penal diz que é crime de assédio sexual: “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função. Pena – detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos”. No caso de Melhem, ele era chefe de Calabresa, assim como foi de dezenas de pessoas que agora o denunciam, seja de forma anônima, com medo de represálias, seja de forma aberta, como o próprio Marcelo Adnet fez, entregando um colega com muitos esqueletos no armário. Na forma como foi relatado o fato pela Revista Piauí, não seria apenas o delito do artigo 216-A o praticado por Marcius, mas, bem pior, caberia também o crime do artigo 213, combinado com o artigo 14, inciso II do Código Penal, uma vez que, ao atacar Dani, num banheiro de bar no Rio de Janeiro, Marcius Melhem teria praticado, na verdade, uma tentativa de estupro, com pena bem mais elevada. Todo homem (e mulher) pode, num momento da vida, ser tóxico, mas todo tóxico vira estuprador??

Mas, como diria no jargão popular, se a melhor defesa é o ataque, não demorou para o recém demitido diretor de humor da Rede Globo contra-atacar, iniciando por meio de seu advogado processo contra Dani Calabresa por calúnia e difamação, após seu suposto mea culpa nas redes sociais. Afinal de contas, segundo o raciocínio de Melhem, seguido de seu pedido de desculpas, ser tóxico não significa ser bandido. Pelo que se apurou, nos sites de diversos veículos de comunicação, a comediante vitimizada seria uma “histérica”, nos dizeres do acusado, pai de duas filhas, apesar de reconhecer que foi uma pessoa tóxica, marido péssimo e pessoa que cometeu excessos, mas que, nos dizeres dele próprio, “nunca teve alguma relação que não fosse consensual”. A pergunta que não quer calar é: posso chamar de consensual uma relação em que, por conta da minha posição de chefe ou autoridade, sei que, ao assediar quem se supõe subjugado, por seu meu empregado ou subordinado, quando este fica calado e não reclama do que eu faço, quer dizer que eu absolutamente não fiz nada? Nesse caso, a lógica da dominação masculina-patriarcal subverte até o bom senso. Mas pra que bom senso? Se fui o diretor de humor de uma das maiores emissoras de televisão da América Latina que, mesmo ao me demitir, tentou me preservar, a fim de não comprometer seu próprio nome, eu posso falar que minhas falhas (ou, na verdade, delitos) são apenas um exercício de toxicidade humana.

Só sei que, entre movimentos de mulheres, vítimas de assédio, que se agigantaram nos últimos anos, como o Me Too nos Estados Unidos e o “Mexeu com Uma, Mexeu com Todas”, aqui no Brasil, com casos como esse, que saem do ambiente artístico e desvelam a realidade de violência contra a mulher no Brasil, acredito que ainda vão ter que surgir muitas Dani Calabresas no país, a fim de denunciar fatos horripilantemente reprováveis que artistas como Marcius Melhem hoje, ou José Mayer, no passado, cometeram, a fim de banir a impunidade dos crimes sexuais. De qualquer forma, o que importa é que a justiça (e, principalmente, a verdade, prevaleça).Está na hora de nós, homens, admitirmos que mulheres querem mais do que testosterona e muito mais respeito e sensibilidade, sem que isso afete em um milímetro a nossa virilidade. Talvez o respeito à condição feminina e o respeito às regras do jogo limpo dos afetos sirva como antídoto a componentes culturais e emocionais tão tóxicos, que chegaram a me contaminar ou a muita gente, durante algum momento da vida. Sim! Posso ter sido um homem tóxico. Mas como Melhem e as denúncias que o acompanham, jamais serei!

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