OPINIÃO

Sobre levar porrada na boca por perguntar e sobre masoquismo

“Presidente, por que sua esposa, Michelle, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?”. Essa pergunta foi feita por um repórter de O Globo ao presidente Jair Boslonaro neste domingo, quando este caminhava em Brasilia. A resposta: “A vontade é de encher sua boca de porrada”.

Não é a primeira vez que Bolsonaro agride jornalistas em cumprimento do ofício. Não será a última, certamente. Chamou a atenção a grosseria direta, sem eufemismos e ironias, como das outras vezes. Certamente por tocar em um dos pontos fracos dele, a estranha relação financeira da família com Fabricio Queiroz, ex-policial vendedor de carros e movimentador de altas quantias em dinheiro para os bolsonaros e as conjes deles todos.

Sabemos que Bolsonaro, sim, gostaria de dar uma porrada na boca do jornalista, e dos demais jornalistas e de todo mundo que o contradiga ou critique, incluindo eu e você. O mesmo Bolsonaro que gostaria de “fuzilar a petralhada”, como disse um ato de campanha e que em anos idos falava que o Regime Militar “matou foi pouco” e que o presidente de então, o príncipe dos sociólogos, FHC, “deveria ser fuzilado”.

Pois é, Bolsonaro tem vontade bem explícita de matar ou se livrar de muita gente.

E também muita gente apontou que a frase da porrada da boca foi dita um dia depois da Folha de São Paulo fazer pavoroso editorial com o título de “Jair Rousseff”, comparando as políticas econômicas de ambos, mas com uma chamada infeliz e cretina, já que não há simetria entre Dilma – que sempre respeitou a Democracia e a liturgia do cargo – e Bolsonaro que celebrou em plenário um torturador, Brilhante Ustra.

O curioso é que a Folha é justamente um dos veículos de comunicação mais execrados por Bolsonaro. Por diversas vezes bolsonaristas agrediram verbalmente ou intimidaram repórteres da Folha.

Mas, na verdade, a Grande Imprensa desenvolveu um estranho masoquismo. Apanha de Bolsonaro e parece sentir algum prazer nisso, pois logo após as notas de repúdio e editoriais anti-truculência voltam alguns apupos e minimização dos danos causados pelo demente que ocupa a presidência da República.

Na verdade, uma parcela significativa da sociedade desenvolveu esse masoquismo. Sofre e parece não se incomodar. Pelo contrário, parece até gostar. Friamente e a grosso modo, é possível entender que pessoas que recebem o auxílio emergencial na hora em que mais precisam acabam associando o fato à aprovação ao Governo. Mais difícil é entender categorias e grupos que vêm sendo sistematicamente prejudicados pelo (des)governo e ainda assim o aprovarem. Síndrome de Estocolmo, talvez.

Um amigo cientista social diz que a pauta moral tomou dimensões maiores que a econômica no país e isso leva ao cenário atual, incluindo os índices de aprovação do governo Bolsonaro (que na verdade seriam de reprovação a outra proposta do Governo, representado pela Esquerda, PT e suas pautas identitárias. Talvez).

O certo é que a imprensa brasileira se tornou irremediavelmente devota das práticas descritas por Saacher-Masoch em seus livros como “A vênus das peles”, na qual quanto mais a pessoa sofria, mais pedia para apanhar.

O Globo e a imprensa ainda vão pedir para levar mais “porrada na boca”. Pode anotar.

 

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