OPINIÃO

Sobre mártires

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No domingo passado, o papa canonizou os mártires de Cunhaú e Uruaçu. O governo do estado marcou presença, afinal, tudo o que essa terra precisa é de santos, né? Obras contra a seca, obras de infraestrutura, investimentos em educação não! Mas sempre tem uma graninha para, apesar de todas as dificuldades da crise – como é bom ter uma boa crise pra se por a culpa da falta de organização, planejamento e competência técnica – financiar uma boa de uma comitiva pra curtir uma semaninha em Roma às custas do contribuinte. Numa entrevista a Inter TV Cabugi, falou o governador que, na volta de Roma, deu uma paradinha em Lisboa, para fechar contatos com agências de turismo que irão promover o turismo religioso no RN como fosse a salvação da lavoura da economia de um estado mais combalido que a média nacional em termos de perda de empregos e diversificação das atividades econômicas.

Mais tem o turismo: que maravilha, que bálsamo! Precisar fazer nada, só encher avião de gringo e soltar eles aqui pra se esbaldarem de praias e santos. Perfeito! Melhor plano não poderia existir. Criar a estrutura básica pra fazer a roda do turismo funcionar, zero! As vias da própria capital estão deploráveis. Uma cidade que tem uma pretensa exposição global, já foi cidade sede de copa do mundo, um dos destinos turísticos que já foi dos mais badalados do país, que não consegue manter um calçadão de pé, nem o de Ponta Negra, nem o da Praia do Meio. As ruas das mais centrais e principais de bairros que são verdadeiras vitrines da cidade como Ponta Negra ou Tirol estão esburacadíssimas. As estradas que seguem para o litoral norte, por exemplo, são dignas de um enduro. É terra, buraco, areia e lama, muita lama em tempo de chuva ou poeira e calor em tempo de sol. De modo que é bom avisar aos peregrinos que utilizem carros potentes, com tração nas quatro rodas, dignos de rally, ou não terão sucesso em sua jornada de fé pelas precárias e perigosas estradas do RN.

Esse é outro ponto importante. Nas estradas do RN, você pode morrer facilmente, seja vitima de assaltantes ou mesmo num dos muitos acidentes de carro que grassam em nossas estradas – a imensa maioria evitável com a duplicação das pistas e maior investimento em educação para o trânsito. Por falar em trânsito, os acessos do aeroporto que já nem pode mais ser chamado de novo, nunca foram completados. Fora a absoluta insegurança que é ir pra tal destino durante as madrugadas. Fico imaginando como está a estrutura de estradas, hotéis, alimentação e opções de lazer que irão atrair e fidelizar esse tipo de turismo e fazê-lo prosperar no RN como num passe de mágica, ou um milagre talvez, já que se trata de turismo pra visitar santos.

Penso na absoluta mudança de foco que isso tudo representa e me lembro do exemplo histórico do que houve na ilha de pascoa. Quando os primeiros europeus chegaram à ilha, no século XVII, encontraram vestígios de uma cultura em ruínas, num lugar desolado de natureza devastada. Os seres humanos sobreviviam da absoluta predação mútua. Os poucos e amedrontados sobreviventes contaram então aos exploradores do Velho Mundo como sua incipiente civilização convulsionou até chegar em tal deprimente estagio de canibalismo. Em algum momento de seu auge – que se deu entre os séculos XIII e XIV da era cristã -, o que tornou-se mais significativo para os clãs – e que era revelador da importância e status que mutuamente se atribuíam – era o tamanho, a imponência dos totens – símbolos religiosos de suas crenças anímicas, talvez xamânicas em certa medida.

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Em determinado ponto de suas disputas locais, construir o maior totem acabou por drenar cada vez mais recursos, matérias primas fundamentais para subsistência de longo prazo. O desmatamento provocado pelo corte da madeira para servir de suporte para a construção dos totens produziu desertificação, minando toda a vida sustentável da ilha ao ponto de verem se reduzidos aos últimos recursos viáveis, a própria carne humana. Estavam reduzidos ao canibalismo. A grande lição é: não destrua a natureza, não desperdice seus recursos com o que não é fundamental. Basta dar uma olhada em quanto custou aos cofres públicos potiguares, a esticadinha na Europa do Governo do Estado e da Prefeitura de Natal na matéria aqui do Saiba Mais.

Qualquer semelhança com um estado em forma de elefante, seco feito a mulinga, que se auto proclamou falido, com salários de servidores parcelados, atrasados, problemas de abastecimento de água quase ao ponto do colapso, recordista de homicídios no Brasil, com alguns dos piores índices educacionais, mas que quer gastar os parcos recursos do contribuinte potiguar na construção de santuários religiosos católicos num pais onde o Estado se pretende, constitucionalmente, laico.

Faz-se uma santa em Santa Cruz, a maior do mundo. Mas agora Mossoró decidiu também que vai fazer uma santa maior. Será que Santa Cruz vai incrementar algo na coroa da santa pra deixá-la ainda maior do que a de Mossoró? Ou será que vai surgir outra cidade e entrar na disputa para gastar o dinheiro do contribuinte na aventura de se fazer uma santa cada vez maior que a vizinha enquanto os açudes chegam aos seus piores níveis em 35 anos?

A fé do povo, é honesta é sincera, mas infelizmente tem sido durante toda a historia manipulada e utilizada para os piores fins, contra o próprio povo. Não por acaso, em algum momento, Marx disse: “A religião é o ópio do povo” – uma das máximas que mais contribuiu para produzir sua demonização pelos fundamentalistas cristãos. E parece que é mesmo, bota santuário, bota santa gigante que parece ter o mesmo efeito anestesiante sobre alguns grupos populacionais que se consegue também com o “pão e circo” do binômio futebol-novela.

Sobre o episódio do massacre em questão, só pode ser compreendido historicamente no contexto das disputas europeias por mercados e matérias primas (processo de acumulação de capital) empreendidos pelas burguesias mercantis europeias em fase de consolidação, além das rivalidades religiosas e ideológicas produzidas pela ultima das grandes guerras de religião europeias: a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648 – reparem que o massacre no RN foi em 1645).

Não restam dúvidas, do ponto de vista historiográfico, da existência do massacre, nem de sua autoria. O problema é que ele vitimiza o colonizador português, o praticante do catolicismo, num mesmo ato em que invisibiliza as religiões não cristãs ou mesmo o próprio protestantismo. Silencia sobre todos os grande massacres na historia colonial brasileira levados a efeito pelos colonizadores católicos, especialmente contra os indígenas nativos, ou os africanos trazidos. O território da antiga capitania do Rio Grande foi cenário do maior massacre indígena da historia brasileira: a Guerra dos bárbaros (1683-1713), que tem esse nome justamente pra exemplificar todo o preconceito que pautava as relações entre colonizadores católicos com os nativos locais.

Então, apesar de ser historiadora, ou justamente por isso, prefiro me preocupar com os mártires do presente. O processo de martirização a que está submetido o povo brasileiro desde o Golpe de 16, com a perda de seus direitos e a liquidação do patrimônio publico. A mais recente, e das mais absurdas e abusivas, foi a publicação da portaria do ministério do trabalho que dificulta a caracterização, fiscalização e consequente punição do empregador que praticar o trabalho escravo. Protestos internos e mundo afora ecoam, um jurista do MPT chegou a afirmar que o Governo Temer está “de mãos dadas com quem pratica a escravidão no país”. Mártir é o trabalhador brasileiro que Temer e seus comparsas querem reduzir à escravidão. Mártires são todos os LGBTs mortos todos os dias. Mártires são as mulheres que criam seus filhos sozinhas. Mártires são os negros que precisam vencer o racismo todos os dias. Mártires são os que dão suas vidas por ideias que libertam a humanidade, não que aprisionam. Mártires são os professores desse país que tem que enfrentar não só a precariedade material da profissão, como também a perseguição político-ideológica do movimento Escola sem partido.

Martir em vida é o Lula, que mesmo após perder o amor e a companheira de uma vida, mesmo sendo perseguido como nenhuma pessoa pública o foi desde Vargas, passando pela acusação de estar por trás do famoso caso de sequestro do empresário Abílio Diniz às vésperas da campanha eleitoral de 1989 – um divisor de águas da nossa Redemocratização, talvez hoje, estivéssemos num patamar outro de civilidade se já desde aquele momento tivéssemos tido um governo de esquerda – até todas as recentes acusações e condenações sem provas, baseadas mais em convicções ideológicas pessoais que propriamente méritos técnicos, tem se mantido firme na defesa dos ideais de um Brasil melhor para o povo. Martir foi Cancelier. Mártir foi Dona Marisa. Martírio tem sido viver no Brasil do Golpe. Mas essa martirização do povo brasileiro tem hora pra acabar: eleições 2018.

Para finalizar, um pouco de sarcasmo: esperando sentada o MBL se mobilizar pra censurar os maravilhosos “nudes” da Capela Sistina, Rafael e Michelangelo. Se o critério é somente expor o nu, são também e somente “arte degenerada”.

Outra coisa, agora pra finalizar mesmo, quando é o que os eleitores de Aécio vão nos pedir desculpas por termos livrado o país de ser governado por um gangster pego numa gravação onde diz até que comete homicídios em nome da impunidade? Então estou esperando sentada também os coxinhas pedirem desculpas por terem nos martirizado. Nós, eleitores de esquerda, salvamos o pais de cair nas mãos de uma das figuras mais inescrupulosas da República. Se o país está como está hoje, imagina se fosse um governo do Aécio???

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Historiadora e Militante LGBT