OPINIÃO

Sobre Neymar, a acusação de estupro e o Tribunal da Internet

Em dias repletos de acontecimentos em um país onde não se morre de tédio, um tema me chamou a atenção, entre tanta coisa bizarra e/ou preocupante em um país à beira de um ataque de nervos: a acusação de estupro feita por uma mulher ao futebolista Neymar, craque maior da seleção que vai disputar em breve a Copa América de futebol.

O que me chamou a atenção foi o fato de muita gente se posicionar a favor ou contra os envolvidos quase que imediatamente após a divulgação das notícias. Sem análise, sem leitura, sem elementos.

Vamos por partes: No sábado, 1º de junho, foi noticiado que uma mulher, que até então não teve a identidade revelada, fez um B.O em São Paulo contra Neymar o acusando de tê-la estuprado no dia 15 de maio, em Paris, depois deles se conhecerem pelo Instagram e o jogador pagar a viagem para ela ir até Paris encontrá-lo. Isso, claro, rapidamente, virou notícia em todo o mundo. Ainda no sábado, , Neymar pai contou que o filho estava sendo vítima de extorsão e que a mulher que o acusa teria pedido dinheiro para não denunciá-lo, embora tenha havido, segundo ele, relação sexual, mas, consentida.

No fim da noite do mesmo sábado, Neymar se manifestou em sua página no Instagram e, segundo ele, para tentar provar sua inocência, divulgou trechos da conversa que teve com a mulher e fotos íntimas que ela enviou.

No domingo, o assunto já era um dos mais comentados no Twitter, com milhões de pessoas condenando Neymar, lembrando seu histórico de confusões e mau comportamento, e outras milhões acusando a mulher de extorsão e a chamando de “vagabunda” e nomes assemelhados.

O que me chamou a atenção foi que boa parte não queria ou sequer tentou saber detalhes do caso (na verdade, quase nada sabemos, até porque a investigação policial, por ora, é sigilosa), mas, opinou e julgou com base em suas convicções sociais e na leitura de manchetes.

Quem já condenou e quer Neymar preso, além de ter esquecido a presunção da inocência que – creio eu – ainda voga na Lei Brasileira, o fez com base no ódio e/ou desprezo que tem pelo jogador, contumaz provocador, arrogante e com fama de “cai cai” (e quem lê este texto já deduziu que este escrevinhador também não suporta Neymar, embora não se arvore em julgar sem elementos para tal).

Quem já condenou a mulher por extorsão o fez pelo nada bom e velho machismo arraigado na sociedade: de que se a mulher aceita o convite e ganha algum tipo de benefício do homem terá obrigatoriamente de fazer sexo com ele, eliminando qualquer possibilidade de que nesta relação haja estupro. Sem falar que para boa parte da sociedade, “marias-chuteiras”, como são chamadas as mulheres que se aproximam de jogadores, são espécie de “putas” estilo Geni, que merecem bosta e pedra, como na canção.

Nem se precisa falar aqui o óbvio: TODO E QUALQUER sexo sem consentimento da mulher é estupro. Ponto.

O que se quer falar é o Tribunal da Internet que não precisa sequer de elementos rudimentares para montar o júri, julgar e condenar. Basta uma manchete, um Zap, a impressão inicial que se tem das pessoas ou do tipo de pessoas envolvidas.

Opinião particular sobre o caso Neymar-Mulher que o acusa de estupro? Eu tenho, claro. Tenho opinião até sobre jogo de dominó no bar da esquina, por que não teria minha opinião sobre algo tão grave? Mas, como acabei de dizer é minha opinião, não uma conclusão racional baseada em evidências, depoimentos, elementos.

E como é só minha opinião e sem fundamentos básicos, cabe a mim pensar das vezes se vou me arvorar a jurado em Redes Sociais. Neymar estuprou a mulher? O sexo foi consensual e ela tentou apenas extorqui-lo com uma mentira? Não sei. Quem sabe? Que uma investigação policial correta e eficiente mostre a verdade para todos nós. Mas o que sei é do caldo cultural machista que sempre desqualifica mulheres que denunciam estupros. E sei também da tentação de julgarmos celebridades – seja Anitta, Pelé, Pabllo Vittar, Obama, etc –  com base no seu histórico, não no que aconteceu (ou não) no presente momento.

Continuar a batalha pessoal para não embarcar no Tribunal quase inquisitorial da Internet. Não é fácil. Mas, sigamos.

 

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