OPINIÃO

Sobre nomes nordestinos

Se a conjuntura política nacional segue de mal a pior, pode ser útil pensar em outras dimensões da vida social. Tipo um freio de arrumação em um ônibus lotado, vai. Eram quase onze horas da noite em Natal e eu, sem carro, não achava táxi, não achava Uber, o aplicativo do Easy não funcionava, o 99 não estava disponível e eu já pensava em voltar para casa a pé. Sorte de loteria! Apareceu um táxi justo nesse momento, um cavaleiro solitário para salvar a donzela na noite escura. Nem tão donzela assim, mas vá lá, a noite estava escura mesmo. Sem lua nenhuma e cheia de medos flutuando no ar desta cidade que é a quarta mais violenta do mundo. Triste posição para um lugar nascido efeméride cristã.

Dentro do carro, antes que eu puxasse conversa, a pergunta do motorista, um senhor magrinho, de cabelo grisalho, bigode e aparência confiável:

– A senhora vai pra onde?
⁃ Rua Almirante Tamandaré.
⁃ Que coincidência!
⁃ O senhor veio ou vai pra lá?
⁃ Nem uma coisa, nem outra. Meu nome é que é Tamandaré!
⁃ Nunca conheci nenhum outro, fora o almirante da minha rua… prazer!
⁃ Me chamo Tamandaré Temístocles de Albuquerque.

Com um nome desses, eu só podia dizer uma coisa: “vots”! Mas não disse. Pensei que tinha encontrado uma história pronta, como as piadas que o Zé Simão pega da vida como ela é para a coluna do jornal em que escreve. Que não é. Pensei também sobre a origem dessa mistura… indígena, grego e português? Só podia ser nordestino.

⁃ Seu nome é muito curioso. Quem botou?
– Meu pai. Criou uma tradição na família, que eu segui. Tudo nome composto. Meu primeiro filho foi por causa daquele astronauta russo, Iúri Gagárin. Com “i” mesmo. Minha mulher queria Igor. Daí, pra satisfazer nós dois, o nome ficou Igor Iuri. O meu segundo filho é Jeferson Cristian porque meu avô tinha esse primeiro nome e minha mulher adorava esse segundo. Minha filha, a mais nova, tem nome mais comum, Ingrid Gabriele.

– Hum. Até concordei.
– E a tradição parou por aí.
– Não, continua! Já sou avô e Igor Iuri tá seguindo a tradição. Botou nome composto e de gente famosa. Do músico, Johann Bach. Meu neto se chama assim, mas com “i”, não com jota. Iorran Anderson.

Ok, o “seu” Tamandaré Temístocles é pai de Igor Iuri e avô de Iorran Anderson. Normal, já que transportava uma passageira que se chama Josimey e que é irmã de Jonidelcia e do pequeno Jooky Luyz. Temos uma irmã Sílvia no meio só para destacar a inventividade do meu pai, que se chama José Gomes da Silva, o nome mais comum do Brasil, parece. Meu pai deve ser criativo assim por vingança. O Facebook confirma a banalidade (não a vingança, que essa deve ser inconsciente). Lá tem um monte de José Gomes da Silva e outros nomes comuns e não comuns, como Erislei, que pode ser homem (com sobrenomes como Gomes da Silva) ou mulher, que os nomes nordestinos inventados são democráticos e transgêneros.

Pois esta primogênita aqui, que começou a linhagem dos jotas na família, esteve em Recife há alguns meses e comprou pirulitos de tabuleiro de um homem chamado Aminadab Herbert da Silva. Tenho a foto para provar que ainda existem pirulitos de tabuleiro no mundo. Depois disso, voltei a Natal e peguei mais um Uber, dos muitos que tenho tomado para driblar as ruas e sua violência triste. Claro que consegui mais um nome: o motorista se chamava Aglaudson. Nem sei o sobrenome, mas acho que nem precisa, né? Já temos sobrenomes criativos de sobra por aqui, toda uma família lá de Mossoró com filhos numerados em francês a partir do décimo-primeiro. Laurentina Onzième, Isaura Trezième, Isaura Quatorzième… Tem Jerônimo do Dix-sept até o Vingt-un. Isso me faz concluir que minha família não é tão estranha assim só porque minha vó, que era Maria e filha de outra Maria, batizou minha mãe de Maria também. Minha mãe, de solteira, era Terceira, o que não é bem um Trezième, mas com certeza lhe dava mais nobreza ao nome. Ou assim pensava meu avô, que também se chamava José, como meu pai e meu tio por parte de mãe. Somos gente criativa até no jeito de repetir os nomes.

Já ficou demonstrado que nossas denominações mais espetaculares são nomes compostos inventados ou adaptados com “y” ou “k” e uma letra dupla pelo meio? Se não, o Exame de Seleção 2018 do IFRN arremata e faz a gente querer adivinhar os percalços que os aprovados enfrentam nas chamadas de classe: Adriellyson Darlyson, Rerila Ranille, Risayanne Damilly, Kirllyan Klennyo, Karydja Kethury, Ketylen Rakilene e por aí vai. Eu, para não desprestigiar essa preferência nacional (sim, porque o Nordeste é, de verdade, o Brasil), ajudei décadas antes a nomear minha prima em segundo grau: Anne Katherynne. Sim, mea culpa, prima. Se consola, estamos todos imortalizados pelo tabelião e, agora, também pela literatura.

Para dizer que a vida e a arte se imitam sem parar, uma última história. Há poucos dias, em Natal, morreu um homem que eu não conhecia, casado com uma mulher também desconhecida para mim, mas queridos por gente que eu conheço. Romeu e Julieta. Sim, dona Julieta agora é a viúva do seu Romeu. Não estou inventando nada, são nomes verdadeiros de um casal com 70 anos de casamento e um final em que morre primeiro Romeu. Viveram bem juntos, segundo sei, e a morte sempre é trágica em qualquer idade, ainda mais quando deixa alguém para sentir saudade de quem se foi. Pois seu Romeu e dona Julieta, estas histórias que contei são uma homenagem a vocês, nordestinos com nomes de personagens shakespeariano da vida nossa de todo dia, sempre cheia de histórias para contar. Só precisamos saber ler.

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