OPINIÃO

Sobre o dia 8 de março

Leilane Assunção escreve às quintas-feiras, na agência Saiba Mais

Há exatamente um ano atrás concedi ao Novo Jornal uma entrevista por ocasião do 8 de Março na qual eu lamentava que a memória social sobre as lutas das mulheres tenha se embotado numa data que deveria ser tudo, menos celebrativa. Afinal, nunca é demais lembrar que trata-se de uma referência ao famoso massacre de operárias que lutavam por seus direitos numa fábrica de Nova York no começo do século XX. Naquele momento falei o quanto me irritava receber parabéns, flores, elogios no dia 8 de março, uma vez que nesse dia o que precisamos é de reflexão, crítica e luta, e não flores e celebrações.

Os desafios do feminismo no século XXI estão tensionados entre as dominações e opressões “de sempre” (desigualdade salarial, posse e violência sexual por exemplo) com os desafios que são específicos desse tempo como chantagem virtual com fotos ou vídeos que exponham o corpo das mulheres, contra seu desejo, nas redes. De todo modo, é assustador constatar que do alto do fim da segunda década do século XXI ainda ostentamos alarmantes índices de feminicídio e estupros, além de um praticamente imensurável número de assédios sexuais de toda ordem que fazem com que o Brasil seja o quinto país mais perigoso para mulheres no mundo.

Como se não bastassem os números nos darem tanta desilusão em relação à distância que estamos de uma sociedade de equidade de gênero, até mesmo em locais que deveriam dar lição à sociedade sobre sociabilidades mais libertarias, acolhedoras, menos mediadas pelos valores artificiais da hierarquia e do orgulho e mais próximos do senso de inclusão, justiça social e fraternidade humana que devem sempre balizar a postura de qualquer educador em qualquer nível de instrução, constatamos a existência do fascismo machista, misógino, do desprezo ao feminino, suas necessidades e dignidade.

O caso do último dia 6 de março, quando uma estudante do curso de Ciências Sociais da UFRN foi não só impedida de assistir aula, como foi humilhada por um conhecido docente da instituição com longo histórico de assédios e abusos de toda ordem cometidos contra todo tipo de participantes da comunidade universitária, é só o mais pungente exemplo dos problemas enfrentados pelo feminismo de hoje.

O professor decidiu contestar em sala usando de uma argumentação de classe, inaceitável justamente por vir de um docente de sociologia, o direito da discente em assistir sua aula enquanto a mesma trouxesse sua filha de 5 anos pra a sala. Antes que se conteste o direito real de um professor em excluir de sua aula quaisquer indivíduos que hostilizem a prática docente a ponto de inviabilizá-la, sem dúvida não era esse o caso, haja vista que tal garota não será a primeira e também não será a ultima mãe solteira trabalhadora que não tem condições de pagar alguém para ficar com seu filho e precisa se equilibrar entre a dura escolha que de maneira tão torpe e cínica, o professor apontou que ela fizesse: “ou estuda ou é mãe, universidade não é pra todo mundo não”.

O professor, ostentando de sua titulação (conquistada e financiada com recursos públicos que a família dessa estudante ajuda a pagar desde que ela ainda nem havia nascido) e do alto teor de seus rendimentos, ainda disse à aluna que fez doutorado na França e que nunca viu mulheres que levam seus filhos na Europa para a sala de aula. Será que o tão pavoneado PHd em Sorbonne esqueceu algumas das mais básicas lições de sociologia: a desigual distribuição das oportunidades de inclusão social de acordo com o recorte geográfico em questão? Sem dúvida que as mulheres francesas estão em luta pela igualdade de condições em relação aos homens franceses, mas em relação à situação das mulheres brasileiras sua condição é muito superior, não só pelo nível de IDH e desenvolvimento socioeconômico em geral que separam os dois países, mas acima de tudo pela conquista de um lugar ao sol no imaginário cultural que lhes permite acessar o espaço público e o mercado de trabalho num nível bem menos desigual de oportunidades e salário, além da conquista de direitos que aqui no Brasil hoje parecem uma utopia bem distante, como o aborto legal por exemplo.

Se lesse Boris Cyrulnik ou mesmo nosso Paulo Freire, tal docente talvez fosse um ser humano mais sensível em relação à luta de mulheres das classes trabalhadoras pelo sonho de uma formação educacional superior, que pode lhes render uma vida melhor e precisar conciliar isso com a condição de ser mãe. Será que ele acha que a menina leva a filha pra a sala de aula por opção e não por falta de opção? Será que essa mulher não acharia mais confortável para sua vida se ela não precisasse levar sua filha pra a sala de aula? Por que será que ela não faz isso? Será que ela acha bom ser humilhada por um professor, ter sua vida pessoal exposta, sua condição de mãe, mulher, trabalhadora, depreciadas por uma pessoa que jamais passou dificuldades financeiras na vida pois ocupa um lugar social de privilégio de classe masculino e branco, será ???

A resposta é tão óbvia que chega a ser estúpido imaginar outra possibilidade. Evidente que se houvessem outras opções, certamente teriam sido adotadas pela estudante. O professor, tendo em sala de aula o perfeito e terrível retrato da desigualdade social e de gênero, poderia ter transformado a vivência num experimento positivo, saudável, para o aprendizado sociológico da turma, demonstrando de que maneira a desigual condição de gênero na nossa sociedade produz o fenômeno da mulher mãe solteira trabalhadora que estuda a noite em busca de uma vida menos dura no futuro graças à titulação de graduação em universidade pública, mas não: preferiu manter-se do alto de sua conhecida e repetida misoginia, seu ódio ao feminino que tantas vítimas já fez na historia do setor II, sua indiferença às precárias condições de permanência dos estudantes na Universidade com os cada vez maiores cortes na assistência estudantil, produzindo um discurso que é sem dúvida avesso aos mais nobres valores e ideais universalistas e igualitários da educação publica, proferindo frases como “universidade não é pra todos”, “ou “Ou estuda ou é mãe”.

Em pleno 8 de março de 2018 não está fácil ser mulher. E isso porque só falei dos dilemas das mulheres cis, as mulheres nascidas mulheres. Para as mulheres trans, apesar da histórica conquista ao direito à mudança de nome no STF semana passada, ainda existe uma longa, bem longa estrada a ser trilhada afim de garantir os mais básicos direitos de existência da nossa população. Três anos atrás fui incluída numa lista de 10 mulheres potiguares de destaque por uma jornalista local, fiquei honrada, mas na época quando fiz falas pela cidade por ocasião do tradicional 8 de março, falei que eu não era mulher, que eu era trans.

Na ocasião, foi um protesto contra a falta de inclusão da pauta do transfeminismo no feminismo em geral. A tendência à genitalização do feminismo vem sendo combatida com sucesso no seio de inúmeras organizações de mulheres, afinal uma coisa deve estar claro que é o que nos une: a luta contra toda opressão misógina e contra o patriarcado, pela vida das mulheres, todas elas. O surgimento da RENFA (Rede de Feministas Antiproibicionistas) e o surgimento da ala das mulheres trans na marcha mundial das mulheres são alguns passos importantes para o feminismo libertário do século XXI que queremos construir.

Ser mulher é duro, mas ser mulher não é igualmente duro mesmo entre as mulheres, afinal os recortes de classe, de gênero e étnico aprofundam todos os problemas de inclusão. Se você é mulher trans ou negra (e se for ainda de periferia então) sua situação é muito pior que se vc é mulher branca e (ou) de classe média. Enquanto as mulheres biológicas não podem abortar, nós mulheres trans não podemos usar o banheiro público para fazer xixi, são demandas distintas mas que podem igualmente gerar muito sofrimento às atrizes sociais em questão.

Então nesse 8 de março, menos flores e celebração e mais luta e união contra situações absurdamente abusivas como a relatada nessa coluna hoje. Para finalizar, convido para o ato da Marcha Mundial das Mulheres a acontecer em Natal hoje às 14:30h no INSS da rua Apodi, Centro da cidade, onde mais de 80 grupos e entidades de mulheres irão se dirigir até o Porto de Natal afim de finalizar o ato com programação cultural. Vida longa às mulheres, mas que não seja mais tão longa a espera pelos nossos direitos, todos, plenamente.

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Historiadora e Militante LGBT