OPINIÃO

Sobre vida, natalícios e comidas que emocionam

Meu bisavô, Seu Massilon, era tipógrafo de profissão e exotérico nas horas vagas. Privilégio meu ter sido o seu primeiro bisneto e o que mais tempo conviveu com ele. Bebi curiosidades e informações de tudo que é tipo durante as conversas em sua calçada na Rua da Estrelinha em minha infância mossoroense.

O pé de cajarana que ele plantou em seu quintal no dia em que nasci, hoje faz sombra, alimenta passarinhos, transforma a terra em um tapete de perfume ácido e doce e me faz lacrimejar ao passar pela rua lá de casa, tantos braços ausentes que eu gostaria de tocar hoje, tantos esforços feitos para que eu meu tornasse o que eu sou.

Em meus breves e intensos 28 anos, que já não são mais de “ boy that’s over baby”, tive festas e tristezas. Por um momento de minha vida relutei em comemorar meus natalícios pessoais. Achava que as coisas eram muito duras para eu simplesmente fingir que não há cargas que me façam olhar para trás com uma nostalgia por vezes brega e fora de moda.

Em 2020 todos nós perdemos muito, consigo dimensionar as dores que senti, as perdas que foram duras e permanentes, esse é um fato colocado. Mas vez por outra as curvas da vida nos apresentam surpresas, pessoas que aparecem ou que sempre estiveram por aqui, que mostram que vale a pena celebrar a vida e que tal celebração é um uma espécie de umbral de reflexões internas, e que devem ser divididas com quem se ama.

Esse texto de hoje é atípico, não estava planejado, hoje é quinta-feira, dia 5 de novembro, e pelo que me consta é meu aniversário e como sempre, me sinto muito à vontade de vir aqui falar com vocês sobre a vida, o universo, tudo o mais e sobre alimentação.

É sobre as emoções velhas e novas que a comida me traz, que me faz o que sou, que me trouxeram até aqui e que me permitem simplesmente ser.

Dia desses, mamãe me relatou que certa vez, quando criança, eu assisti um filme que tinha um manjar branco coberto de ameixas, e simplesmente perturbei ela durante dias para ela fazer um para mim. Talvez o brilho da calda de ameixa sobre um branco leitoso tenha me encantado. Tenho vagas lembranças de meus pedidos chatos, mas lembro do gosto do manjar que ela fez.

O que me emociona enquanto escrevo essa lembrança é saber dos tantos manjares em forma de dedicação, abdicação e afeto que ela me fez durante toda a vida. Obrigado por isso, mãe.

O que me emociona são as lembranças dos almoços de domingo e das ceias de natal, que se perderam no tempo, os cabritos com papai, as ciobas fresquíssimas das barracas da praia das Emanoelas em Tibau com vovô.

O que me emociona é o cheiro de leite fresco que a cozinha dos Veras exalava quando passava na frente da casa deles, os “te amo, meu filho” que vovoinha me dá em formato de benção e pães de mel.

O que me emociona é o cheiro do café que Bidu aprendeu a fazer pela manhã antes de sairmos para o trabalho, ou os fardos de cajuína que Mary Ione me manda vez por outra de Mossoró, ou as conversas que tenho com Jozimar sobre comidas modernosas de AirFryer, ou o incenso do feijão com alecrim que Fernanda faz tão bem feito.

O que me emociona é o cachorro quente que comemos na Roberto Freire depois do aniversário de Lula ou os suspiros que Júlio solta quando faço para ele o simples feijão verde com nata e coentro, ou quando Bethise e Cynthia me manda um abraço em forma de “amigo, estou com saudades de sua comida”.

O que me emociona é ver Paulinho se emocionando ao falar da carne de sol que sua mãe fazia desde a cura até o prato ou a forma como Ceição me olha quando vou chegando na Cobal para me embebedar de sua alquimia culinária.

O que me emociona é o seu rosto e o singelo “uau” que saiu de sua boca quando te fiz o fettuccine com camarão e limão, ou a sua felicidade com a tapioca (que você diz que eu não sei fazer) com ovos mexidos e café preto, como chamamos.

O que me emociona é a forma como meus professores, como os escritores, como a vida dança um bailado alimentar sempre regado a muito sentimento, de dureza ou de bonança, que seja, mas sentimento sempre há, e se há sentimento ainda há vida e isso deve ser comemorado sempre.

O que me emociona é a erva-mate, que segundo Galeano, nasceu da sombra da Lua no alto do rio paraná, e que junto com limão e gelo, rega a minha paixão por Bruna, como quando ela me fotografa, gelando minha cabeça e refrescando meu coração no centro da cidade, mesmo me sentindo Hícaro voando perto demais do sol.

Talvez se ele, Hícaro, tivesse se preparado com uma caneca gelada de chá-mate com limão, não tivesse tido o fim que teve, por isso, se você quiser tocar o sol, não o deixe de fazê-lo com medo de se queimar.

Prepare a seu chá com 500 ml de água fervente, desligue o fogo e ponha duas colheres de sopa bem cheias da erva, deixe descansar e passe por uma peneira em seguida, depois adicione o suco de um limão, açúcar ao seu gosto e bastante gelo, não há necessidade de bater no liquidificador, deixe que o liquido dance com o gelo e beba lentamente antes de subir ao sol e não deixe de ser feliz, por que nada menos que isso vale a pena.

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