OPINIÃO

Sobreviveremos à quinta série

Sempre que as coisas ficam difíceis, eu volto no tempo e procuro brechas de superação. Não, não é nenhuma teoria motivacional ou trabalho de coach. É só um exercício solitário para manter a sanidade. Para não cair do bonde a cada solavanco mais brusco. Faz pouco mais de uma década que eu temia a quinta-série.

Imagina só, escrever de caneta! Era como se os erros não pudessem ser apagados. Cada dia na escola seria uma inquirição sem fim, onde não seria possível voltar atrás. Tudo por causa de uma caneta azul. Se bem que não é uma caneta qualquer. Ela desliza na mão! Deve ser o suor. Nem precisa fazer força para escrever, veja só, ela também desliza suave no papel.

Mas a falta de costume deixa a letra mais feia, quase inelegível. Com um pouco de calma, os garranchos ganham forma. As linhas ganham histórias. E eu ganho um pouco de sossego colocando no papel o que aperta o peito. De repente a quinta série nem era um bicho tão feio assim. Um tanto quanto estridente, talvez, mas perfeitamente adaptável.

Quem diria, então, que hoje já não escreveríamos tanto à mão? Que a rapidez das mensagens nos engoliria o tempo? Que uma mensagem qualquer, ou a falta dela, iria nos ditar o rumo dos dias? Não há mais tempo para desembaraçar os garranchos. Quase não aprendemos. Afinal, “criança já nasce sabendo”.

Nos meus piores sonhos infantis, eu jamais achei que sobreviveria à quinta série. Cá estou. Eu já não lembro de muito daquela época, apenas causos pequenos. A voz da professora, o gosto da canja de galinha da merenda, os hematomas feitos na hora do recreio.Tudo isso ainda habita minhas memórias. Passou. Nem vi quando. Sigo dando forma às histórias. Inclusive a essa. Em caneta azul, de preferência.

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras