OPINIÃO

Soldado Wesley: o anti-herói do Farol da Barra

Por anti-herói tem-se em vários dicionários que, na narrativa literária, é aquele personagem que não se encaixa perfeitamente no perfil de herói. Pode ser o protagonista de uma história, e, apesar de não ser inerentemente mau, como os vilões, também não se aproxima dos heróis, seja por não reunir virtudes suficientes, seja por praticar, às vezes, atos moralmente questionáveis. Nos últimos anos, a figura do anti-herói foi explorada à exaustão na cultura popular, seja em livros, histórias em quadrinhos ou no cinema, e um exemplo clássico disso foi o filme cult Falling Down, de 1993, dirigido por um então ainda nem tão famoso diretor, o norte-americano Joel Schumacher. Na obra, batizada em português como “Um Dia de Fúria”, William Foster (personagem interpretado pelo ator Michael Douglas) é um trabalhador recém-desempregado de uma firma de defesa, divorciado, que, em meio ao caótico trânsito de Los Angeles, no stress de conseguir chegar a tempo a festa de aniversário da filha, surta, tendo um colapso com consequências trágicas, quando armado, sai pelas ruas da metrópole a fim de descontar suas frustrações pessoais, familiares e com o próprio capitalismo.

Agora, imagine a situação narrada pela ficção em um filme trazida à realidade, quando, no final de semana, na Bahia, nas vésperas do aniversário de 472 anos da cidade de Salvador, um policial militar fardado e armado, chegasse até um dos cartões postais da capital baiana, e, num aparente surto, mobilizasse a polícia da cidade, num episódio cujo final não podia ser outro, senão trágico.

Foi isso o que fez o policial Wesley Soares Góes, de 38 anos, soldado da Polícia Militar da Bahia, morto, após quatro horas de exaustivas negociações, enquanto empunhava seu fuzil, efetuava tiros para o alto, numa área residencial, e arremessava grades, cadeiras e caixas de isopor ao mar. Saindo da cidade de Itacaré, a 240 km da capital, no batalhão onde era lotado, e se dirigindo até o Farol da Barra, um dos pontos turísticos mais visitados em Salvador, Wesley chegou até o local fardado, com o rosto pintado de verde e amarelo e gritando palavras de ordem. O transtorno que teria acometido um profissional de segurança acabou se transformando em tragédia, quando, após horas de infrutíferas negociações, e tendo disparado contra uma guarnição do Bope, Wesley acabou alvejado, e mesmo socorrido, faleceu no hospital.

O soldado Wesley transformou o dia 28 de março num dia agitado, numa data que irá marcar não só uma triste história pessoal que tragicamente chegou ao seu fim, como também uma data que comoveu não só a Bahia, mas o Brasil. O caso dele parece se somar ao de centenas de casos envolvendo policiais militares no Brasil, onde, em seus 26 estados e no Distrito Federal, todos os anos registram-se casos de afastamento de policiais e óbitos, por transtornos psiquiátricos e suicídios. Segundo a Lei de Acesso à Informação do estado do Rio de Janeiro, por exemplo, entre 2014 e 2018, três PMs eram diagnosticados, por dia, com transtornos mentais. Em São Paulo, cidade que conta com o maior efetivo de policiais do país, 120 policiais militares cometeram suicídio entre 2012 e 2017. No Rio Grande do Sul, 50 PMs cometeram suicídio entre 2008 e 2018, enquanto que, no mesmo período, 10 policiais tiraram a própria vida em Pernambuco. No Ceará, entre 2011 e 2018, foram 18 PMs mortos por suicídio; enquanto no Rio Grande do Norte, entre 2010 e 2018, foram oito os suicídios – mesmo número dos ocorridos entre 2015 e 2018 em Alagoas. Na Bahia do soldado Wesley (apesar de ele ter nascido em Minas Gerais), entre 2008 e 2012, 40% dos PMs afastados da corporação, por problemas de saúde, apresentavam distúrbios mentais e transtornos de comportamento.

Mas o que levou um profissional bem avaliado, com 13 anos de corporação e sem registros de incidentes anteriores, tido como pacato, educado, dedicado e pontual pelos seus colegas de farda, que morava sozinho e gostava de tocar sanfona, a cometer um gesto tão chocante? A surtar de maneira tão impressionante, inesperada e assustadora? O que levou Wesley Soares a agitar o então esvaziado cenário turístico do Farol da Barra, interditado por uma pandemia, produzindo um fato que gerou uma repercussão essa semana maior até do que o vírus?

Existem muitas teorias que vão desde a psiquiatria até a sociologia, mas, uma das mais curiosas a ser aplicada ao caso de Wesley, analisado não apenas em sua repercussão midiática, mas política, poderia dizer respeito à teoria da anomia, desenvolvida inicialmente pelo pensador francês do século XIX, Émile Durkheim, onde, por uma ausência de regulação social, face a uma mudança ou instabilidade repentina numa sociedade (leia-se, além da pobreza, uma pandemia), a desintegração social consequente acabou por produzir seus tipos anômicos na divisão do trabalho, aqueles que não se adequam, não se ajustam aos seus papéis sociais, e, ao contrário, desestabilizam-se por completo. Outros, podem dizer que Wesley foi tão somente mais um inocente útil, vítima de um sistema opressivo e de uma corporação centenária autoritária, com sua rigidez de regras baseadas na hierarquia e disciplina militar, que, fissurando egos durante décadas, acaba por comprometer a saúde mental dos operadores da segurança. Diversas teorias, portanto, podem ser aplicadas ao que aconteceu em Salvador, neste final de semana. Porém, o que mais choca, ao menos para os defensores da democracia, é o aproveitamento político-demagógico disso. Para os defensores do autoritarismo, do golpismo, de um presidente em queda livre de popularidade face uma pandemia, e de um Estado-policial cerceador de liberdades, a morte do soldado Wesley parece ter vindo bem a calhar.

De forma oportunista (e porque não dizer, até mesmo abjeta), aproveitando-se da morte do policial, a deputada federal Bia Kicis (PSL/DF), presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, e uma das mais ferrenhas defensoras do bolsonarismo, rapidamente publicou um tuíte, depois apagado, em que atribuía a morte de Wesley, ao fato do Pm ter se recusado a prender “trabalhadores”, por conta das rígidas regras de isolamento social, defendidos pelo governador da Bahia, Rui Costa, durante a pandemia do coronavírus, chamando o soldado de herói. O filho 03 do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, também surfou da mesma onda, repetindo a mensagem da sua colega de bancada, praticamente insuflando os policiais militares da Bahia a um motim contra o governo do estado, assim como a deputada bolsonarista Carla Zambelli. Na Assembleia Legislativa baiana, o deputado estadual do PSC, Marco Prisco (ele mesmo, um policial militar reformado, que já liderou motins anteriores), defendeu que os policiais militares paralisassem suas atividades, em solidariedade ao colega de farda. Não demorou para que uma frente de governadores, a maioria de oposição ao presidente, publicasse uma nota, em repúdio ao que eles viam como uma tentativa autoritária de insuflar policiais a se amotinar, questionando a autoridade de governos estaduais, através das fake news de militantes políticos favoráveis ao bolsonarismo, usando da morte do policial Wesley como pretexto para motins, paralisações e insurreições.

Convertido a mártir improvável pelo bolsonarismo, o soldado em surto Wesley foi galgado, agora, à condição de personagem póstumo a contornar a crise pela qual passa o presidente Jair Bolsonaro, que, num dia só, mudou seis ministros, dentre eles o execrado ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, bem como demitiu o ministro da defesa, o general Fernando Azevedo, que, aparentemente, não coaduna com outro surto (o golpista) de um presidente. A morte de Wesley, ao menos sob o olhar do bolsonarismo, serviu como o mote ideal para desviar a atenção da opinião pública sobre as mais de 300 mil mortes de brasileiros por Covid-19, as mais de duas mil a três mil mortes diárias e o descalabro na economia, com um cada vez mais minguado auxílio-emergencial, além do descrédito internacional do país, desmoralizado mundialmente pela bisonha atuação do demitido chanceler Araújo. Ao mesmo tempo, a triste morte do policial militar na Bahia serviu para Bolsonaro reaquecer a narrativa em uma base eleitoral importante ao seu projeto nacional-populista: a do meio policial. Como não tem apoio maciço nem nas Forças Armadas, de onde originalmente veio, há mais de trinta anos, antes de se tornar um político profissional, o presidente brasileiro recorre às polícias estaduais, sobretudo aos policiais militares subalternos (praças e baixo oficialato), para tentar se sustentar num projeto de poder que lembra bem as milícias bolivarianas dos tempos do chavismo e do madurismo e que, recentemente, também surtiram efeito provisório na Bolívia, mediante a revolta de policiais que levaram à renúncia de Evo Morales, e a chegada ao poder, em 2019, da (agora presa) ex-deputada e presidente interina, Jeanine Áñez.

Pessoas com transtornos mentais já foram utilizadas politicamente antes na história, por líderes oportunistas e ambiciosos, para legitimar projetos golpistas, incitar intrigar, rebeliões, motins e até mesmo uma guerra civil. Em 9 de abril de 1948, na Colômbia, um jovem com problema mentais, Juan Roa Sierra, municiado com uma pistola calibre .32, insuflado por militantes políticos, alvejou com dois tiros na cabeça e um no peito, nas ruas de Bogotá, o candidato presidencial, Jorge Eliécer Gaitán, popular líder trabalhista, favorito nas eleições, gerando uma série de protestos violentos e motins que culminaram com o linchamento do assassino, saques, depredações, ataques ao parlamento e a sede de governo, e uma balbúrdia que praticamente incendiou toda a capital colombiana, num incidente chamado de “Bogotazo”. Assim como, na eleição de 2018, aqui no Brasil, o atual presidente valeu-se politicamente do atentado que sofreu para ganhar votos, ao ser esfaqueado pelo comprovadamente insano, Adélio Bispo, em Juiz de Fora (MG), agora, mais uma brasileiro psicologicamente em surto está sendo usado, na construção das narrativas falaciosas do bolsonarismo, para se trazer dividendos políticos a um presidente. A diferença é que, no caso atual, além de se aproveitar de um fato atribuído a um surto psicótico, o presidente e sua claque de disseminadores de falsas narrativas, aproveitam-se da função exercida pelo morto, para estimular toda sua categoria profissional a um golpismo tosco e inconsequente. Bolsonaro sabe que, no seu projeto de poder, não passam os governadores, e a melhor forma de se proteger um presidente acuado e em crise, é reagir, recorrendo aos seus exércitos particulares, construídos à custa de muita mentira, desinformação e baseado na mesma cultura autoritária e intolerante que gerou policiais surtados como o tristemente baleado, Wesley. Se não for mera demagogia e um apelo à destruição do Estado democrático à falsa comoção dos bolsonaristas à morte de Wesley, o que seria esse chamamento do bolsonarismo aos quartéis das Pms? Nas décadas que permaneceu como deputado do baixo clero na Câmara Federal, quantos projetos de lei Bolsonaro e seus filhos apresentaram para beneficiar a categoria policial? Quantos deles, da fanfarrona oligarquia política que hoje está no poder, visitaram policiais surtados em hospitais?

Voltamos, portanto, ao tema do anti-herói. O anti-herói, na dramaturgia, não é nada mais do que a expressão de nós mesmos, relatada na narrativa ficcional. Como uma forma de humanizar os personagens, torná-los mais próximos da normalidade humana e mais distantes da condição mítica de heróis e vilões, os anti-heróis são pródigos numa sociedade anômica, onde um vírus devastador que já matou milhões em hospitais convive com negacionistas, onde os Poderes da República, representados por um Congresso liderado por um fisiológico Centrão e um Judiciário atacado, por meio de um garantista Supremo Tribunal Federal, convivem com um autoritário e diuturnamente golpista Executivo, de um líder populista e reacionário como Bolsonaro. O soldado Wesley Soares é mais um desses anti-heróis, que, longe de se tornar apenas mais um número, nas tristes estatísticas de policiais mortos porque perderam o juízo, pode vir a ser lembrado como um morto à balas que foi utilizado como instrumento de propaganda do que há de pior e mais baixo na política: o fascismo. Na necropolítica de Bolsonaro e seus asseclas, nem os mortos podem descansar em paz.

 

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